Em declaração submetida ao tribunal, Yeo Jun Wei, que diz ser natural de Cingapura e ter 39 anos de idade, admitiu estar plenamente consciente de que estava trabalhando para a inteligência chinesa, encontrando agentes dezenas de vezes e recebendo tratamento especial quando viajava para a China.

Yeo alega que foi recrutado pela inteligência chinesa em 2015, quando cursava doutorado em Políticas Públicas na Universidade Nacional de Cingapura (NUS).

Ele estaria especialmente interessado na iniciativa chinesa "Belt and Road" e na expansão das redes comerciais globais da China.

Yeo era orientado pelo Professor Huang Jing, cientista político chinês com cidadania americana, que havia feito mestrado em História pela Universidade de Fudan e doutorado na Universidade de Harvard. Em 2008, Huang mudou dos Estados Unidos para Cingapura onde foi professor e diretor do Centro sobre Ásia e Globalização da Escola de Políticas Públicas Lee Kuan Yew (LKYSPP) da NUS, e professor da Fundação Lee sobre relações EUA-China.

O aluno de doutorado teria sido enviado para fazer uma apresentação em Pequim que, supostamente, teria atraido o interesse de pessoas de várias organizações chinesas de estudos políticos, e gerado encomendas de pesquisas sobre relações políticas, econômicas e diplomáticas internacionais no sudeste asiático, com foco nos países membros da ASEAN (Association of Southeast Asian Nations).

“Yeo veio a descobrir que pelo menos quatro dessas pessoas eram agentes do serviço de inteligência do governo da República Popular da China. Mais tarde, um dos agentes de inteligência pediu a Yeo para assinar um contrato com o Exército de Libertação Popular. Yeo se recusou a assinar o contrato, mas continuou trabalhando para este e outros agentes”, informa um comunicado do Departamento de Justiça dos EUA.

O Professor Huang Jing era um "agente de influência chinês", afirma Bilahari Kausikan, diplomata aposentado de Cingapura. "É razoável supor que Yeo foi recrutado ou, pelo menos, descoberto pelo MSS (Ministério de Segurança de Estado) naquela apresentação".

Talvez também seja razoável supor que a narrativa de Yeo foi cuidadosamente (pré) fabricada.

Em 2017, o Ministério de Assuntos Internos (MHA) de Cingapura revogou o visto de residência permanente de Huang, alegando que o professor tentou influenciar a política externa para favorecer uma potência estrangeira.

Sem nomear o país, o MHA disse que o Professor Huang "interagiu conscientemente com organizações e agentes de inteligência do país estrangeiro e cooperou com eles para influenciar a opinião pública e a política externa do governo de Cingapura".

Huang foi deportado e trabalhou por um ano em Washington DC a fim de provar que "não é o que Cingapura implicava". Atualmente, ele dirige o Instituto de Estudos Internacionais e Regionais da Universidade de Língua e Cultura de Pequim.

Scuttlebutt

Inicialmente, Yeo deveria fornecer aos agentes do serviço de inteligência chinês (PRCIS) "informações não públicas", especialmente rumores e fofocas pessoais (scuttlebutt).

Yeo fez mais de 50 viagens à China para se reunir com agentes do PRCIS, jamais passando pelo procedimento normal de admissão no país. Ao desembarcar, ele era ostensivamente retirado da fila de passageiros, o que incomodava o espião pela atenção que atraía, obtendo o visto de entrada em salas separadas dos demais viajantes.

Oficialmente, Yeo ocupava a posição de Pesquisador Visitante na Universidade de Pequim, desenvolvendo estudos nas áreas de Relações Internacionais e Políticas Públicas. Segundo a imprensa de Cingapura, Yeo teria publicado 29 artigos acadêmicos como autor principal e estabelecido laços com pesquisadores da Universidade George Washington (GWU).

As tarefas de obtenção de inteligência foram focadas no sudeste da Ásia apenas no princípio. Durante uma dessas viagens, Yeo foi instruído a obter informações sobre o Departamento de Comércio dos EUA, inteligência artificial e a disputa comercial entre a China e os Estados Unidos.

As tarefas passaram a se concentrar nos EUA. Yeo tinha se graduado como espião.

LinkedIn

Nos Estados Unidos, Yeo foi orientado pela inteligência chinesa a abrir uma consultoria falsa e oferecer empregos.

Yeo usou a mídia social e "um site de rede profissional focado em informações de carreira e emprego" para encontrar e recrutar cidadãos dos EUA que pudessem fornecer dados e informações.

Em 2018, sob a instrução de agentes do PRCIS, Yeo criou uma empresa de consultoria falsa que usava o mesmo nome da Resolute Consulting, importante grupo de consultoria dos EUA que conduz relações públicas e governamentais.

Yeo recebeu mais de 400 currículos, 90% dos quais eram de militares e funcionários do governo americano com permissões para acesso a documentos sigilosos. Ele enviava para os agentes da inteligência chinesa os currículos daqueles candidatos que acreditava que iriam julgar interessantes recrutar.

Depois que Yeo entrou em contato com possíveis alvos, o LinkedIn começou a enviar contatos potenciais adicionais.

O algoritmo do site é implacável, disse Yeo.

"Eu checava o site quase todos os dias para revisar o novo lote de contatos em potencial sugerido pelo algoritmo do site", disse Yeo. Parecia "quase como um vício".

Pentágono

Yeo recebeu orientação de seus supervisores do PRCIS sobre como recrutar alvos em potencial, como perguntar se estavam insatisfeitos com o trabalho, com problemas financeiros, se tinham filhos para sustentar.

Além de recrutar vários cidadãos americanos que forneciam informações, Yeo convenceu pelo menos três pessoas a elaborarem relatórios, pagando entre US$ 1.000 e US$ 2.000 por trabalho.

Ele dizia aos indivíduos que os relatórios eram para clientes na Ásia, como a Coreia do Sul, sem revelar que eram enviados de fato ao governo chinês.

Uma dessas pessoas era um civil que trabalhava para a força aérea americana e estava tendo problemas financeiros. O relatório que ele escreveu para a Yeo continha informações sigilosas sobre as implicações geopolíticas do Japão comprar a aeronave militar F-35 dos EUA.

Um outro informante, oficial do exército designado para o Pentágono, contou a Yeo que estava traumatizado por suas incursões no Afeganistão e produziu um relatório com informações precisas sobre como a retirada das forças militares americanas do Afeganistão impactariam a China, recebendo US$ 2 mil pelo trabalho. O dinheiro foi transferido para a conta bancária da mulher do oficial.

Yeo foi instruído a recrutar o militar para fornecer mais informações confidenciais, e foi oferecido mais dinheiro se o oficial pudesse se tornar um "canal permanente de informações".

O terceiro colaborador, funcionário do Departamento de Estado, disse que se sentia insatisfeito no trabalho e estava tendo problemas financeiros. Também mostrava preocupação com sua aposentadoria, que estava próxima. O relatório que escreveu para Yeo implicava um membro que servia no Gabinete do Presidente.

O gabinete americano inclui o Vice-Presidente, o Procurador Geral e os Secretários de Agricultura, Comércio, Defesa, Educação, Energia, Saúde e Serviços Humanos, Segurança Interna, Habitação e Desenvolvimento Urbano, Interior, Trabalho, Estado, Transporte, Tesouraria, e Veteran Affairs.

Sob a instrução dos agentes do PRCIS, Yeo viajou para os Estados Unidos para continuar seus esforços. Ele ficou em Washington DC de janeiro a julho de 2019, onde participou de vários eventos e palestras em think tanks de Washington, e fez contato com inúmeras pessoas de empresas de lobby e com contratadas de defesa.

Yeo acabou sendo preso em novembro, quando retornou aos Estados Unidos com planos de obter do oficial do Pentágono mais informações confidenciais e revelar para quem estava trabalhando. Yeo foi detido pelo FBI assim que desembarcou do avião, sob a acusação de estar operando ilegalmente como um agente estrangeiro.

"Sob a direção dos agentes da inteligência chinesa, o réu procurou funcionários do governo dos EUA e um oficial do Exército para obter informações para o governo da China. Yeo admite que montou uma empresa de consultoria falsa para promover seu esquema, procurou indivíduos suscetíveis que estavam vulneráveis ao recrutamento e procurou evitar ser detectado pelas autoridades americanas", disse Alan E. Kohler Jr., diretor assistente da divisão de contra-inteligência do FBI.

Pizza

O julgamento será em outubro e Yeo pode ser sentenciado a cumprir até 10 anos de prisão, o que é improvável por ser réu primário. Ressalte-se que no acordo firmado com a promotoria, Yeo será deportado após o julgamento.  

O Procurador-Geral Adjunto de Segurança Nacional, John C. Demers, disse que Yeo é "mais um exemplo da exploração do governo chinês da abertura da sociedade americana".

Demers disse que a declaração de culpa de Yeo "sublinha as maneiras pelas quais o governo chinês continua a atacar os americanos com acesso a informações confidenciais do governo, incluindo o uso da Internet e cidadãos não chineses para atingir americanos que nunca saem dos EUA".

"Continuaremos a processar aqueles que usam práticas enganosas na Internet e em outros lugares para minar nossa segurança nacional".

* Com informações do U.S. Justice Department, Mothership

Veja também: