Após a visita de 13 a 16 de julho a Israel e à Arábia Saudita, o presidente dos EUA Joe Biden anunciou que Washington continuará a implementar sua política ativa na região, de acordo com a Reuters. No entanto, o líder americano não conseguiu criar um sistema de segurança regional compartilhado para os países árabes e Israel, a fim de neutralizar o Irã. Suas tentativas de convencer a Arábia Saudita a aumentar a produção de petróleo também não deram certo.

Especialistas lembram que a visita de um presidente geralmente só consolida acordos já celebrados. Porém, as negociações prévias entre os Estados Unidos e Riyadh para aumentar a produção de petróleo terminaram em fracasso, de modo que a visita de Biden só confirmou a falta de entendimento.

Dado o alto preço dos combustíveis nos Estados Unidos, um dos fatores para a inflação recorde em 40 anos, a questão do aumento da produção de petróleo é de grande importância política interna para Biden, observa a Reuters.

Segundo Washington, Biden conseguiu algum sucesso nas negociações com os sauditas.

"A Arábia Saudita comprometeu-se a apoiar o equilíbrio do mercado global de petróleo para um crescimento econômico sustentado. Os Estados Unidos saúdam o aumento dos níveis de produção 50% acima do planejado para julho e agosto. Essas etapas e outras etapas que prevemos nas próximas semanas ajudarão a estabilizar consideravelmente os mercados", disse a Casa Branca em um comunicado à imprensa na sexta-feira (15).

A Organização dos Países Exportadores de Petróleo e aliados (Opep+) elevou a produção em julho e agosto em mais 648 mil barris de petróleo por dia (bpd), antecipando a produção adicional prevista para setembro (+432 mil bpd).

Com os sucessivos aumentos entre 400 mil e 432 mil barris por dia, nos últimos meses, a Opep+ vem retomando lentamente o ritmo no período pré-pandemia. No entanto, os Emirados Árabes Unidos já estariam operando na capacidade máxima de produção, e a Arábia Saudita poderia aumentar no máximo 150 mil bpd.

O aumento festejado de 50% pela Casa Branca seria um incremento pífio de até 60 mil bpd aos 120-125 mil bpd adicionais que a Arábia Saudita já vinha entregando.

Segundo a CNBC, o presidente francês Emmanuel Macron foi informado, nos bastidores da reunião de cúpula do G7, de que a elevação da oferta de petróleo da Opep+ não pode ser sustentada pelos dois maiores produtores da organização.

A realidade é que não há aumento significativo na produção de petróleo em andamento. Riyadh disse no sábado (16) que somente por volta de 2027 poderá elevar a produção para 13 milhões bpd. Os números da produção de petróleo indicam que os países do Oriente Médio não pretendem acomodar o Ocidente.

No momento da rescisão dos contratos, a Rússia fornecia 4,5 milhões bpd. Até 2027, os sauditas pretendem aumentar a produção em 2,5 milhões bpd. Assim, não é possível substituir o petróleo russo.

As chances de que a Arábia Saudita siga a liderança dos Estados Unidos e viole os acordos iniciais sobre a redução da produção de petróleo no âmbito da OPEP+ são pequenas. O movimento levaria a uma guerra de preços e a um colapso nas cotações, de modo que a produção só poderá ser aumentada por pressões dos EUA sobre Riyadh.

Estado pária

Em  reunião com os sauditas, Biden disse que levantou a questão do assassinato do jornalista Jamal Khashoggi, crítico do príncipe herdeiro Mohammed bin Salman.

Durante sua campanha presidencial de 2020, Biden prometeu punir os sauditas transformando-os em um Estado pária. Durante a visita, o líder americano disse a repórteres que na reunião com o príncipe herdeiro o acusou de responsável pelo assassinato. "Eu levantei esta questão no início da reunião, deixando claro o que eu pensava sobre isso então e o que eu penso agora". Biden também observou que não se arrepende de suas ameaças iniciais de punir a Arábia Saudita.

As autoridades sauditas afirmam que Biden não disse nada disso.

O Ministro das Relações Exteriores saudita, Adel al-Jubeir, disse à Fox News que Biden não acusou o príncipe de orquestrar o assassinato. "Não ouvi essa frase em particular", explicou Al-Jubeir, observando que, na reunião, o presidente americano falou apenas do compromisso de Washington com os direitos humanos.

Em um comunicado enviado à Reuters sobre a conversa de sexta-feira entre os dois líderes, o príncipe herdeiro disse que tentar impor certos valores à força a outros países pode ter o efeito oposto.

Todos os países ao redor do mundo, especialmente os Estados Unidos e o Reino, compartilham valores em que concordam e têm outros que discordam, ponderou Mohammed bin Salman.

"No entanto, tentar impor esses valores à força pode ter o efeito oposto como aconteceu no Iraque e no Afeganistão, onde os EUA não tiveram sucesso", diz o comunicado.

Estrategicamente, a influência americana no Oriente Médio diminuirá gradualmente, avalia o Vedomosti. "É impossível chamar a visita de Biden de fracasso, mas ele definitivamente não resolveu os principais problemas nas relações entre Washington e o mundo árabe. As monarquias do Golfo ainda duvidam que os EUA considerem o Oriente Médio uma prioridade de segurança. Ao mesmo tempo, a aproximação entre a Arábia Saudita e Israel continua, apesar do fracasso das negociações sobre um bloco de defesa regional", relata o jornal.

Mesmo com os esforços do presidente americano, nenhum dos países do Conselho de Cooperação do Golfo, entre eles Arábia Saudita e Emirados, manifestou interesse em se unir aos EUA em relação ao alinhamento para sancionar a Rússia.

"Os sauditas, como outros atores-chave no Oriente Médio, continuarão a se equilibrar entre China, Rússia e Estados Unidos. Outros Estados árabes seguirão o exemplo. De certa forma, eles seguirão a liderança dos Estados Unidos, mas Washington não será capaz de sempre obter seus interesses. Um exemplo dessas tentativas de pressão são as consultas EUA-Emirados sobre a imposição de sanções contra os russos. Os Emirados tomaram uma posição neutra sobre os eventos na Ucrânia e não se juntaram às restrições anti-russas", diz o Vedomosti.

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