Em artigo publicado na revista Science Advances, a equipe de pesquisa afirma que os neurônios sensoriais olfativos não expressam o gene que codifica a proteína do receptor ACE2, que o SARS-CoV-2 usa para entrar nas células humanas.

Contudo, os pesquisadores descobriram que dois tipos específicos de células no epitélio olfativo expressavam ACE2 em níveis semelhantes aos observados nas células do trato respiratório inferior: células sustentaculares, que envolvem neurônios sensoriais olfativos e acredita-se fornecer suporte estrutural e metabólico, e células basais, que agem como células-tronco – ao contrário de outras células nervosas, os neurônios sensoriais olfativos se regeneram, com novas células receptoras surgindo das células basais subjacentes.

Os dados sugerem que a perda de olfato relacionada a Covid-19 pode resultar de uma perda temporária da função das células de suporte no epitélio olfativo, que indiretamente causa alterações nos neurônios sensoriais olfativos.

Os neurônios no bulbo olfativo não são vulneráveis ao SARS-CoV-2, o vírus que causa a Covid-19. Ilustração: D. H. Brann et al., Sci. Adv10.1126/sciadv.abc5801 (2020)
Os neurônios no bulbo olfativo não são vulneráveis ao SARS-CoV-2, o vírus que causa a Covid-19. Ilustração: D. H. Brann et al., Sci. Adv10.1126/sciadv.abc5801 (2020)

“Nossas descobertas indicam que o novo coronavírus muda o olfato dos pacientes não infectando diretamente os neurônios, mas afetando a função das células de suporte”, disse Sandeep Robert Datta, um dos autores do artigo.

A descoberta surpreendeu os pesquisadores porque outros vírus que causam perda de olfato, incluindo outros coronavírus, tendem a infectar diretamente as células nervosas olfativas.

A implicação é que, na maioria dos casos, é improvável que a infecção por SARS-CoV-2 danifique permanentemente os circuitos neurais olfativos, uma condição associada a uma variedade de problemas de saúde mental.

"Uma vez que a infecção desaparece, os neurônios olfativos parecem não precisar ser substituídos ou reconstruídos do zero", disse Datta. "Mas precisamos de mais dados e uma melhor compreensão dos mecanismos subjacentes para confirmar esta conclusão".

A maioria dos pacientes com Covid-19 apresenta algum nível de perda olfativa, porém normalmente recuperam seu olfato ao longo de semanas – comparado a meses que podem levar para recuperar a perda de olfato causada por um subconjunto de infecções virais conhecidas por danificar diretamente os neurônios sensoriais olfativos.

A recuperação espontânea da função olfativa pode ocorrer nos primeiros seis meses a um ano após a lesão, porém, além de um ano, o prognóstico para a recuperação é sombrio.

Paladar

O olfato e o paladar estão intimamente relacionados. As papilas gustativas da língua identificam os sabores, ao passo que os nervos localizados no nariz identificam os odores. Ambas as sensações são transmitidas ao cérebro, que integra as informações para que os sabores possam ser reconhecidos e apreciados.

Percepção de sabores. Fonte/arte: © 2020 Merck Sharp & Dohme Corp., subsidiária da Merck & Co., Inc., Kenilworth, NJ, EUA
Percepção de sabores. Fonte/arte: © 2020 Merck Sharp & Dohme Corp., subsidiária da Merck & Co., Inc., Kenilworth, NJ, EUA

Sensações como salgado, amargo, doce e ácido podem ser percebidas sem a intervenção do olfato, mas sabores requerem ambos os sentidos, paladar e olfato, para serem reconhecidos.

"Os distúrbios mais frequentes do olfato e do paladar são a perda parcial do olfato (hiposmia) e a perda total do olfato (anosmia). Visto que distinguir um sabor de outro depende enormemente do olfato, as pessoas costumam perceber primeiro que a sua capacidade de sentir odores está diminuída quando a comida lhes parece insípida", explica o Dr. Marvin P. Fried, médico do hospital universário da Faculdade de Medicina Albert Einstein, de New York.

* Com informações da Harvard Medical School, Wiley Online Library, Manual MSD

Leitura recomendada: