A lista de países que suspenderam a administração da vacina da farmacêutica AstraZeneca e da Universidade de Oxford por causa de reações graves (mas raras) continua a crescer.

Até agora, Portugal, Espanha, Itália, Alemanha, França, Holanda, Noruega, Áustria, Romênia, Estônia, Islândia, Lituânia, Letônia, Bulgária, Luxemburgo, Chipre, Irlanda, Dinamarca, Suécia, Indonésia, Venezuela e Tailândia já tomaram medidas suspensivas.

A decisão decorre de vários casos de aparecimento de coágulos sanguíneos e da morte de pessoas inoculadas com esta vacina.

A Agência Europeia de Medicamentos (EMA), que autorizou o uso do imunizante da AstraZeneca na União Europeia, anunciou que vai realizar uma reunião na quinta-feira (18) para analisar a situação, mas já adiantou que os benefícios da utilização da vacina superam os riscos.

"Eventos envolvendo coágulos sanguíneos, alguns com características incomuns, como baixo número de plaquetas, ocorreram em um número muito pequeno de pessoas que receberam a vacina. Muitos milhares de pessoas desenvolvem coágulos sanguíneos anualmente na UE por diferentes razões. O número geral de eventos tromboembólicos em pessoas vacinadas não parece ser maior do que o observado na população em geral", diz um comunicado da EMA.

"Enquanto sua investigação está em andamento, a EMA atualmente mantém a opinião de que os benefícios da vacina AstraZeneca na prevenção de COVID-19, com seu risco associado de hospitalização e morte, superam os riscos de efeitos colaterais", destaca a nota da agência.

Suspender a vacinação enquanto se investiga é o certo, disse ao Público Miguel Castanho, do Instituto de Medicina Molecular da Universidade de Lisboa.

“Há princípios gerais, que são sempre no sentido da precaução. Isto é, quando há suspeitas, ainda antes de serem provas, têm de ser investigados e é frequente haver uma suspensão do uso até que se consiga ter uma noção mais exata sobre se há perigo”.

“Julgo que as autoridades vão tentar determinar se todos os casos tiveram a ver com o mesmo lote, ou não, se todos os casos são semelhantes entre si em termos de quadro clínico, se existe algum padrão de vacinação, se existem casos semelhantes entre as pessoas que receberam outras vacinas e entre as pessoas que não foram vacinadas”, disse Miguel Castanho.

Para o Professor Paul Hunter da Universidade de East Anglia (UK), em opinião postada no Science Media Center, “das coisas que têm de ser consideradas é quão comum são os tromboembolismos”.

A idade é o principal fator a considerar, segundo um estudo recente da Universidade do Oklahoma que analisou a incidência de tromboembolismos venosos em população com mais de 80 anos, dos 70-79 e dos 60-69 anos.

“Por cada milhão de pessoas nestes grupos etários que é imunizada, podemos esperar ver [respectivamente] 1097, 645 e 425 episódios de tromboembolismo no mês que se segue à vacinação. Sem que isso se relacione diretamente com a vacina”, explicou Paul Hunter.

“Dados os muitos milhões de doses administradas até agora, suspeito que estes episódios não devem ser causados pela vacina e sejam apenas acontecimentos associados de forma aleatória”, respondeu Paul Hunter por email a uma pergunta do Público. “Se fosse um fenômeno real, esperava ter muito mais casos até agora. Ainda assim, estes casos têm de ser devidamente investigados”.

Contudo, a Agência Norueguesa de Medicamentos disse que incidentes semelhantes foram relatados em outros países europeus e recomendou que qualquer pessoa com menos de 50 anos que se sentir mal e desenvolver grandes manchas azuis após a vacinação deve procurar atendimento médico.

No sábado (13), a autoridade norueguesa disse ter “recebido vários relatórios de eventos adversos sobre pessoas vacinadas mais jovens com sangramento sob a pele (pequenos pontos e / ou manchas azuis maiores) após a vacinação contra o coronavírus".

“Isso é sério e pode ser um sinal de redução da contagem de plaquetas no sangue”, disse. “Hoje, recebemos mais três notificações de casos graves de coágulos sanguíneos ou hemorragias cerebrais em pessoas mais jovens que receberam a vacina AstraZeneca. Eles agora estão recebendo tratamento hospitalar”.

No domingo (14), governo holandês informou a suspensão do uso da vacina em um comunicado.

“Não podemos permitir dúvidas sobre a vacina”, disse o Ministro da Saúde holandês, Hugo de Jonge.

“Temos que ter certeza de que tudo está certo, então é aconselhável fazer uma pausa por enquanto”.

Anteriormente, o governo holandês tinha dito que não havia razão para interromper o uso da vacina da AstraZeneca, após a Agência Europeia de Medicamentos ter afirmado que não havia indicação de que o imunizante britânico pudesse causar coágulos sanguíneos.

Mas De Jonge disse que sua decisão foi informada por novos relatórios, que agora serão investigados pela EMA.

Lotes sob suspeita

Pode haver outra hipótese para os casos – a do defeito de fabricação, que parece ser a seguida pelas autoridades, que desde o início falam em lotes de vacinas sob suspeita.

“Pode haver um problema num determinado lote do produto. Aí já não é a raridade intrínseca do fenômeno que aparecerá numa larga escala. Aí aconteceu algo num determinado lote”, concede Miguel Castanho.

Na Itália, onde a AstraZeneca tem fábricas que finalizam a vacina, procuradores do Piemonte mandaram apreender nesta segunda-feira as 393.600 doses de um dos dois lotes sob suspeita. No fim de semana, o mesmo aconteceu na Sicília, com o lote das doses da vacina com que foram imunizadas duas pessoas que tiveram morte súbita.

No Brasil, está sendo administrada a vacina Covishield, desenvolvida e produzida pelo Serum Institute of India (SII) com licenças da AstraZeneca/Oxford e importada da Índia pela Fiocruz, não havendo relação com os lotes suspeitos.

Atualização 14/04

Duas doses da vacina AstraZeneca Covid-19 apresentaram eficácia de apenas 10% contra infecções leves a moderadas causadas pela variante B.1.351 da África do Sul, de acordo com um ensaio clínico de fase 1b-2 publicado na terça-feira (13) no New England Journal of Medicine. Este é um motivo de grande preocupação, pois as variantes sul-africanas compartilham mutações semelhantes às outras variantes, deixando os vacinados com a vacina AstraZeneca potencialmente expostos a múltiplas variantes.

* Com informações do Público

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