Bolsonaro disse em rede social que foi convidado pelo Presidente Vladimir Putin e que o Brasil depende de fertilizantes da Rússia.

De janeiro a setembro do ano passado foram importadas 2,6 milhões de toneladas de cloreto de potássio da Rússia – 30% do total que chegou aos portos nacionais. Os russos também são o único fornecedor de nitrato de amônio, respondendo por 98% do consumo brasileiro.

“Fui convidado pelo Presidente Putin. O Brasil depende, em grande medida, de fertilizantes da Rússia e da Bielo-Rússia. Viajaremos com um grupo de ministros para discutir outros assuntos também. Nosso país está interessado [em cooperação] em energia, defesa e agricultura", disse o presidente brasileiro durante a transmissão ao vivo nas redes sociais neste sábado.

A viagem começou a ser planejada em dezembro do ano passado. Na ocasião, Putin disse que gostaria de estreitar a cooperação com o Brasil em diversas áreas.

A comitiva brasileira deverá permanecer em Moscou de 15 a 17 de fevereiro.

A Ministra da Agricultura Tereza Cristina iria negociar os acordos de fertilizantes, mas foi diagnosticada com infecção pelo vírus da covid-19, ficando impedida de acompanhar o Presidente Bolsonaro na viagem à Rússia.

A primeira reunião russo-brasileira no formato "dois mais dois" (ministros das Relações Exteriores e da Defesa) também ocorrerá como parte da visita da delegação brasileira a Moscou, informou a porta-voz do Ministério das Relações Exteriores da Rússia, Maria Zakharova.

As conversas do líder brasileiro com Putin estão previstas para o dia 16. Bolsonaro também planeja se encontrar com Vyacheslav Volodin, Presidente da Duma – a câmara baixa do parlamento russo, e participar de evento com representantes de comunidades empresariais dos dois países.

Em nota, a Associação Brasileira de Proteína Animal (ABPA), em associação com a Agência Brasileira de Promoção de Exportações e Investimentos (ApexBrasil), informou que realizará uma ampla campanha de promoção da carne suína e da carne de frango do Brasil em Moscou. A campanha acontecerá durante todo o mês de fevereiro em outdoors, relógios de rua, paradas de ônibus, instalados em 70 pontos na área turística, ao redor do Centro de Exposições e da Praça Vermelha.

O objetivo é fortalecer as marcas internacionais Brazilian Chicken e Brazilian Pork em um momento estratégico para o setor. Recentemente, a Rússia anunciou a liberação de uma cota de 100 mil toneladas para importação de carne suína, e há expectativa de que os exportadores brasileiros enviem volumes expressivos para o mercado do Leste Europeu.

Os exportadores também buscam expandir a participação do frango no mercado russo – a Rússia está entre os 10 maiores importadores de carne de frango brasileira, com 105,9 mil toneladas embarcadas em 2021, equivalente a 2,4% do total.

“Problema sério pela frente”

Em dezembro, a Comissão de Agricultura e Reforma Agrária (CRA) encaminhou um alerta ao Presidente sobre a vulnerabilidade da agricultura brasileira diante da dependência externa de fertilizantes. Ao longo de 2021, o colegiado promoveu um ciclo de debates sobre a ameaça da falta de insumos para o plantio da safra 2021/2022. De acordo com dados da Comissão, o Brasil precisa importar cerca de 80% dos fertilizantes que usa na produção de grãos.

Segundo balanço de atividades apresentado pelo presidente do colegiado, Acir Gurgacz (PDT-RO), o País tem condições de ser autossuficiente na produção de fertilizantes, mas depende de uma “política de Estado”.

"A única solução é produzirmos os nossos fertilizantes, temos tecnologia para isso. Precisamos de ação governamental, dando incentivos para a indústria. Precisamos de uma política de Estado. Precisamos de uma política nacional para fomentar a industrialização de fertilizantes", defendeu Gurgacz.

"Não dispor do fertilizante a preço razoável pode significar perda competitividade e de produtividade. Com menos produtividade, vamos acabar aumentando a área plantada como forma de compensação. É um assunto de Estado. A CRA analisou com profundidade essa vulnerabilidade, que, confesso, não sabia que era tão grande", apontou o Senador Esperidião Amin (PP-SC).

De acordo com o Senador Zequinha Marinho (PSC-PA), os sojicultores sofreram nos últimos meses com atrasos na entrega, e até mesmo de cancelamento, de contratos e de pedidos de compra de fertilizantes e defensivos.

Na época, Bolsonaro reafirmou que o Brasil tem um “problema sério pela frente”.

“Tem um problema sério pela frente, estou avisando. A questão de fertilizantes no mundo todo. […] Essa safra está safa, a próxima safra está safa, é a de 2023”, disse em novembro em conversa com apoiadores na saída do Palácio da Alvorada.

“A Secretaria de Assuntos Estratégicos desde março já estuda essa possibilidade [de falta de fertilizantes]”, acrescentou.

O Governo Dilma começou a construção de uma usina de fertilizantes da Petrobras em Três Lagoas (MS), mas a obra acabou paralisada e foi colocada à venda em 2017. A privatização foi concretizada há menos de um mês.

Crise anunciada

O gás natural é uma matéria-prima responsável por cerca de 80 por cento dos custos variáveis dos componentes essenciais para a produção de fertilizantes de nitrogênio, como amônia, ureia e nitratos.

Também há aumentos de preços significativos em fertilizantes minerais, como fosfato, potássio e enxofre.

Em outubro de 2021, houve reduções temporárias substanciais na produção europeia de fertilizantes por empresas como Yara, BASF, CF Industries e Fertiberia.

A Europa importa a maior parte das matérias-primas, junto com uma proporção crescente de seu gás natural. Os produtores estrangeiros, porém, têm limitado as exportações este ano para apoiar sua agricultura doméstica.

A China, maior produtora mundial de fosfato, suspendeu ou limitou severamente as exportações de fertilizantes ricos em fosfato desde o final de julho do ano passado. Os cortes devem durar até junho deste ano.

A Rússia anunciou restrições às exportações de fertilizantes de nitrogênio e fosfato por seis meses a partir de 1º de dezembro. A medida reduz os preços domésticos dos alimentos e apóia as exportações de grãos da Rússia.

Em 8 de dezembro passado, começaram a vigorar as sanções dos EUA contra o regime de Lukashenko com o objetivo de cortar quase todas as exportações de potássio da Bielo-Rússia – cerca de um quinto do fornecimento mundial.

Parte da queda na participação de mercado da Bielo-Rússia poderá ser compensada pelo aumento dos embarques do grupo canadense Nutrien, que possui enormes reservas de potássio em Saskatchewan. Os preços da Nutrien para produtos de potássio vendidos fora da América do Norte aumentaram 105% no ano passado.

Evolução da cotação das ações da Nutrien na NYSE durante a pandemia. © Investing.com

Os agricultores podem economizar nas aplicações de potássio e fosfato por uma ou duas safras, mas a produção diminuirá rapidamente sem fertilizantes de nitrogênio.

Os preços dos fertilizantes subiram no passado, apenas para cair à medida que os produtores aumentaram a capacidade e os agricultores diminuíram o uso. Picos semelhantes aos atuais ocorreram no início de 2008, alguns meses antes da crise financeira global.

A diferença desta vez, principalmente na Europa, é que a política climática significa que não há financiamento disponível para a expansão da produção de gás natural.

* Com informações da TASS, Agência Senado, Agrolink

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