O estudo internacional de fase 2b/3 da vacina experimental CVnCoV, conduzido pela CureVac em conjunto com a Bayer, envolve aproximadamente 40.000 voluntários em dez países da América Latina e Europa.

A segunda análise intermediária incluiu 134 casos, ocorrendo pelo menos duas semanas após a administração da segunda dose.

Para identificar cepas que causam infecções dentro do ensaio, o sequenciamento de variantes do vírus foi realizado até agora em 424 casos de covid-19, dos quais 124 preencheram os critérios do estudo e foram incluídos na presente análise intermediária de eficácia da vacina.

Foram identificadas 29 cepas.

Apenas uma infecção foi associada à versão original do vírus SARS-CoV-2, enquanto 57% foram causadas pelas chamadas variantes preocupantes (VoC), que se mostram mais transmissíveis ou capazes de diminuir a eficácia das vacinas.

A maioria dos casos restantes foi causada por outras variantes menos caracterizadas, como Lambda ou C.37, identificada pela primeira vez no Peru (21%) e B.1.621, identificada pela primeira vez na Colômbia (7%).

Pelo menos 13 variantes foram responsáveis pelas infecções.

“No contexto sem precedentes de pelo menos 13 variantes que circulam dentro do subconjunto da população do estudo avaliada, a CVnCoV demonstrou uma eficácia provisória de 47% para qualquer gravidade e não atendeu aos critérios estatísticos de sucesso pré-especificados. As análises iniciais sugerem eficácia dependente da idade e da cepa”, relatou a empresa em comunicado à imprensa.

A CureVac disse que os resultados devem servir como um alerta para a ameaça que novas variantes podem representar para a eficácia das vacinas.

O ensaio prossegue com os pesquisadores monitorando os voluntários para novas infecções até a análise final, prevista para ocorrer dentro de duas a três semanas.

“Enquanto esperávamos por um resultado intermediário mais forte, reconhecemos que demonstrar alta eficácia nesta ampla diversidade de variantes sem precedentes é um desafio. Enquanto continuamos em direção à análise final com um mínimo de 80 casos adicionais, a eficácia geral da vacina pode mudar”, disse o Dr. Franz-Werner Haas, CEO da CureVac.

Especialistas independentes, no entanto, disseram ao New York Times que será difícil para a CVnCoV se recuperar. Natalie Dean, bioestatística da Universidade da Flórida, disse que a taxa de eficácia da vacina pode melhorar um pouco até o final do ensaio. Mas como a maioria dos dados já está disponível, é improvável que a vacina venha a ser altamente protetora. “Não vai mudar drasticamente”, disse.

Apesar da perspectiva desfavorável, o Dr. Haas disse em entrevista que a empresa ainda planeja solicitar autorização de uso emergencial à Agência Europeia de Medicamentos (EMA). A União Europeia (UE) fechou um acordo no ano passado para comprar 405 milhões de doses da vacina CVnCoV se a agência autorizar.

Com uma taxa de eficácia tão baixa – muito menor do que os cerca de 95 por cento das vacinas de mRNA concorrentes feitas pela Pfizer-BioNTech e Moderna – os resultados não são um bom presságio para a adoção de injeções da CureVac.

A notícia foi decepcionante para os especialistas que esperavam que a empresa pudesse fornecer vacinas para países de baixa e média renda. O imunizante da CureVac tinha algumas vantagens sobre as outras vacinas de mRNA, como manter a estabilidade por meses na geladeira. Além do mais, em comparação com seus concorrentes, a dose usa menos moléculas de mRNA, reduzindo seu custo.

Será também um desafio para a CVnCoV competir com outras vacinas de segunda onda, como a desenvolvida pela Novavax. Na segunda-feira (14), a Novavax informou que sua vacina, que não precisa ser mantida congelada, atingiu uma eficácia de 90 por cento em ensaios nos Estados Unidos e no México.

Prashant Yadav, especialista em cadeia de suprimentos de saúde do Center for Global Development em Washington, disse ao NYT que os resultados decepcionantes desafiam a suposição de que todas as vacinas de mRNA são iguais.

“Tivemos esse ponto de interrogação desde o início da pesquisa com vacinas de mRNA”. É possível, disse o Dr. Yadav, que o design da vacina CVnCoV possa ser parcialmente culpado pela baixa eficácia, não apenas as variantes.

O Dr. Peter Hotez, virologista da Escola Nacional de Medicina Tropical do Baylor College of Medicine, disse que não está claro se o problema é específico da variante ou a incapacidade da vacina de criar altos níveis de anticorpos neutralizantes.

As vacinas da Moderna e Pfizer-BioNTech foram testadas no ano passado antes que as variantes surgissem, o que poderia ser parcialmente responsável por suas taxas de eficácia muito mais altas. Porém, estudos sugerem que a efetividade das duas vacinas cai apenas moderadamente em face das variantes.

CV2CoV

A CureVac está em busca de novas moléculas de RNA que possam trabalhar contra muitas variantes ao mesmo tempo, bem como combinar moléculas de RNA adaptadas a diferentes variantes em uma única dose.

A farmacêutica está desenvolvendo vacinas candidatas de segunda geração em cooperação com a GlaxoSmithKline (GSK). Essas candidatas são baseadas em novas estruturas de mRNA e incluem variantes potenciais em formatos de vacinas multivalentes, bem como vacinas combinadas para proteção potencial contra várias doenças infecciosas em uma vacina. Os dados pré-clínicos da primeira vacina candidata, CV2CoV, foram recentemente aceitos para publicação na Nature.

Um porta-voz da empresa disse que os dados pré-clínicos indicaram um aumento de 10 vezes na imunogenicidade em relação ao primeiro imunizante.

A CureVac e GSK esperam que a vacina candidata de segunda geração entre em testes clínicos no terceiro trimestre de 2021, com o objetivo de introduzir a vacina em 2022, sujeito à aprovação regulatória.

A CureVac, sediada em Tübingen, no estado alemão de Baden-Württemberg, tem como maiores investidores Dietmar Hopp, Bill and Melinda Gates Foundation, GlaxoSmithKline e o governo alemão.

Os parceiros de fabricação incluem o Celonic Group da Suíça, Novartis, Bayer, Fareva, Wacker e Rentschler Biopharma SE.

As ações da CureVac negociadas nos Estados Unidos caíram 50,6% após a publicação dos dados.

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