Desde o fim de semana, o mais rigoroso dos quatro níveis de lockdown está novamente em vigor na região metropolitana de Santiago do Chile.

Só quem trabalha em profissões relevantes para o sistema têm permissão para sair de casa. Compras básicas podem ser feitas duas vezes por semana – e por duas horas apenas.

Cerca de 60% do PIB do Chile está sendo afetado pela quarentena.

Na semana passada, o número de novos casos por 100 mil habitantes voltou ao nível nacional recorde de 260. No domingo (13), o Chile superou pelo quarto dia seguido a barreira de 7 mil novos casos e registrou mais 140 mortes.

Contudo, mais de 11,4 milhões de adultos, ou 75% da população chilena apta à vacinação, já recebeu ao menos a primeira dose de um imunizante – cerca de 9 milhões de pessoas (60%) já foram totalmente vacinadas.

Israel é o único país que tem uma proporção maior de sua população totalmente vacinada do que o Chile.

Em Israel, todos os vacinados receberam imunizantes de mRNA. Para as duas vacinas de mRNA da Pfizer e da Moderna, os estudos mostraram uma eficácia nos ensaios clínicos de 95%. Em Israel a pandemia está controlada.

No Chile, 80-85% das doses administradas foram da vacina chinesa Coronavac, um imunizante de vírus inativados, de baixa efetividade.

No início de maio, o Dr. Gao Fu, Diretor-Geral do Centro Chinês para Controle e Prevenção de Doenças (CDC China), disse na Conferência Nacional de Vacinas e Saúde, em Chengdu, que a agência está “considerando como resolver o problema de que a eficácia das vacinas existentes não é alta”.

A situação chilena sugere que a efetividade da vacina experimental Coronavac é significativamente menor do que a eficácia apurada em ensaios, especialmente contra a variante brasileira P.1 (gama), dominante no Chile.

No Brasil, a eficácia da vacina chinesa em ensaio foi de cerca de 50% em casos sintomáticos notificados de infecção pelo vírus original de voluntários sadios imunizados com duas doses. A proteção contra a infecção não foi objeto do estudo.

Ponto de controle de veículos no início da quarentena de março. A região da capital chilena, formada por 52 municípios, e onde vive quase metade da população do país, ficou em quarentena por 31 dias, entre março e abril deste ano. Foto: © Mediabanco Agencia (18/03/2021).
Ponto de controle de veículos no início da quarentena de março. A região da capital chilena, formada por 52 municípios, e onde vive quase metade da população do país, ficou em quarentena por 31 dias, entre março e abril deste ano. Foto: © Mediabanco Agencia (18/03/2021)

O epidemiologista Gabriel Cavada Chacón, professor da Escuela de Salud Pública da Universidad de Chile, disse ao El País no sábado (12) que o novo surto não tem relação com a eficácia da vacina da Sinovac, “é uma das com melhor qualidade", e culpou o governo por "não comunicar corretamente que a vacina serve mais para evitar quadros moderados e graves da doença, e não tanto para prevenir a infecção e os contágios".

Especialistas sugerem que o aumento de casos pode ser devido à população se sentir mais segura, tendo em vista a alta taxa de vacinação, e criticaram medidas como o "passe de mobilidade" lançado pelo governo, que permite maior liberdade às pessoas vacinadas.

Segundo o Prof. Michael Kinch, da Universidade de Washington em St. Louis, as vacinas podem levar à complacência em países cansados de confinamento.

"Meu palpite é que, no dia seguinte a alguém ser imunizado, eles pensarão: posso voltar ao normal', anteviu Kinch em junho de 2020. "Eles não vão necessariamente perceber que ainda podem ser suscetíveis a ser infectados e ficar doentes".

Lockdown forever

O estudo Effectiveness of the CoronaVac vaccine in the elderly population during a P.1 variant-associated epidemic of COVID-19 in Brazil: A test-negative case-control study, publicado em 21 de maio em pre-print, destacou a necessidade da imposição de medidas restritivas quando o imunizante chinês é utilizado em campanhas de vacinação.

O estudo abrangeu o período entre 17 de janeiro e 29 de abril, quando a vacinação com um esquema de duas doses da CoronaVac foi implementada em São Paulo.

A vacina desenvolvida e fabricada pela farmacêutica chinesa Sinovac Biotech é chamada de "Vacina do Butantan" pelo governo paulista.

"Os achados sublinham a necessidade de manter intervenções não-farmacêuticas quando a vacinação em massa com CoronaVac é usada como parte de uma resposta à epidemia", destaca o artigo.

Segundo o médico epidemiologista Otávio Ranzani, primeiro autor do artigo, a pesquisa não encontrou efeito protetor na primeira dose da vacina, um achado importante para programas de imunização.

“É preciso que os programas garantam a segunda dose da CoronaVac, no tempo recomendado, para todos”, ressaltou.

Ranzani enfatizou também a necessidade da busca de uma melhor solução de imunização para pessoas com mais de 80 anos.

“Os programas devem planejar uma otimização na vacinação dos idosos a partir de 80 anos e frágeis, seja com reforço ou troca de tipo de vacina, porém isso precisa ser estudado ainda”.

Segundo dados do governo de São Paulo, 70% dos mortos pela doença no Estado têm 60 anos ou mais, perfil semelhante ao observado no país.

De acordo com dados oficiais, atualizados em 15 de junho, o Estado de São Paulo acumula 119 mil mortes. Se o estado fosse um país, São Paulo ocuparia o 9º lugar em ranking mundial de óbitos por covid-19.

Número de óbitos por covid. Fonte: Statista 11/06/2021
Número de óbitos por covid. Fonte: Statista 11/06/2021 

No Brasil, até o momento foram administradas doses das vacinas covid da Sinovac (59%), AstraZeneca (38%) e Pfizer/BioNTech (3%).

Atualização 21/06

No dia 4 de junho, Yin Weidong, CEO da Sinovac Biotech, revelou à imprensa chinesa que a farmacêutica completou um ensaio clínico de Fase II, onde os participantes receberam uma terceira dose de reforço após completar duas injeções regulares.

Segundo Yin, ocorreu um aumento de 10 vezes nos níveis de anticorpos em comparação com os níveis anteriores em uma semana e 20 vezes em duas semanas. Ele acrescentou que a Sinovac ainda precisa concluir a observação de longo prazo da duração do anticorpo antes de fazer recomendações às autoridades sobre quando uma terceira dose deve ser administrada.

Atualização 22/06

O governo do Chile estuda a possibilidade de distribuir uma terceira dose de reforço, anunciou o presidente chileno nessa terça-feira (22), em meio a dúvidas sobre a efetividade do imunizante CoronaVac, da chinesa Sinovac.

Até agora, 80% do público-alvo do Chile recebeu pelo menos uma dose, com 60% completamente vacinado.

O Chile depende amplamente da vacina CoronaVac.

O presidente Sebastián Piñera afirmou que especialistas de saúde estão avaliando estudos científicos para determinar se uma terceira dose seria necessária, enquanto é iniciada a imunização de adolescentes no país.

População-alvo vacinada.contra coronavírus da covid-19. Fonte: Statista (22/06/2021)
População-alvo vacinada.contra o coronavírus da covid-19. Fonte: Statista (22/06/2021)

Nesta terça-feira, o New York Times abordou a ineficácia das vacinas chinesas contra o vírus da covid-19 no artigo They Relied on Chinese Vaccines. Now They’re Battling Outbreaks.

"A Mongólia prometeu ao seu povo um 'verão sem Covid'. Bahrain disse que haveria um 'retorno à vida normal'. A minúscula nação insular das Seychelles pretendia impulsionar sua economia", lembra o jornal.

"Agora, exemplos de vários países sugerem que as vacinas chinesas podem não ser muito eficazes na prevenção da propagação do vírus, particularmente as novas variantes. As experiências desses países revelam uma dura realidade diante de um mundo pós-pandêmico: o grau de recuperação pode depender das vacinas que os governos administram ao seu povo".

Na segunda-feira (21), Shao Yiming, epidemiologista do Centro Chinês para Controle e Prevenção de Doenças, disse que a China precisava vacinar totalmente 80 a 85 por cento de sua população para obter imunidade coletiva, revisando uma estimativa oficial anterior de 70 por cento, destacou o NYT.

Atualização 06/07

O jornal O Estado de São Paulo publicou nesta terça-feira (6) que a proteção da vacina experimental CoronaVac "deve ser de cerca de oito meses", segundo o Diretor do Instituto Butantan Dimas Covas.

A infectologista da Unicamp Raquel Stucchi apontou que brevemente haverá um contigente populacional com mais de oito meses de imunização pela Coronavac.

"Se a ideia é chegar em outubro ou novembro com 80% da população vacinada, eles já não serão 80%, serão menos porque parte das pessoas já terá ultrapassado esse período", disse ao jornal paulistano.

A situação no Chile causa preocupação e ocorre em outros países, como o Bahrein e a Mongólia, que também utilizam vacinas chinesas em larga escala.

"No Bahrein, onde 58,8% da população já está completamente imunizada, as mortes atingiram seu maior número no dia 6 de junho. Foram 28 vítimas naquele dia, número sem paralelo para o país de 1,6 milhão de habitantes que só ultrapassou o patamar de dez mortes diárias em maio deste ano", destaca o jornal.

Atualização 16/07

Israel revelou um dos mais bem guardados segredos de governos de todo o mundo: qual a proporção de pessoas vacinadas que são infectadas. Adicionalmente, os dados israelenses mostram a progressão de um novo surto em julho, com os números de hospitalizados e de casos severos de covid-19 divulgados por dia e por imunização: vacinados, vacinados parcialmente e não vacinados.

Os dados de Israel são particularmente importantes porque é o país com a maior taxa de população vacinada do mundo, seguido do Chile.

Israel utilizou uma vacina de maior efetividade (Comirnaty, da Pfizer/BionTech), demonstrada para o vírus original e suas variantes.

Na prática, Israel é o "padrão ouro" para o que se pode esperar das melhores vacinas covid após grande parte da população imunizada.

Segundo as autoridades israelenses, mais de 7.700 novos casos do vírus foram detectados durante a onda iniciada em maio deste ano. Aproximadamente 40% dos novos casos – ou mais de 3.000 pacientes – foram de pessoas infectadas apesar de terem sido vacinadas com duas doses.

Dados atuais mostram que a população vacinada de Israel constitui grande parte das novas internações hospitalares e dos novos casos severos de covid-19, ambos em crescimento.

Os achados israelenses levantam dúvidas sobre a alegação dos hospitais chilenos estarem lotados devido a pacientes não vacinados e sobre o motivo real do lockdown.

Evolução de casos severos de covid-19 em Israel em junho/julho de 2021
Evolução de casos severos de covid-19 em Israel em junho/julho de 2021
Evolução de hospitalizações por covid-19 em Israel em junho/julho de 2021

Atualização 17/07

Vacina da Pfizer produz 10 vezes mais anticorpos que a CoronaVac

De acordo com o estudo Comparative immunogenicity of mRNA and inactivated vaccines against COVID-19, divulgado na quinta-feira (15), os níveis de anticorpos entre os profissionais de saúde de Hong Kong que foram totalmente vacinados com o imunizante Camirnaty (Pfizer/BioNTech) são cerca de 10 vezes maiores do que aqueles observados nos recipientes da vacina CoronaVac (Sinovac).

“A diferença nas concentrações de anticorpos neutralizantes identificados em nosso estudo pode se traduzir em diferenças substanciais na efetividade da vacina”, escreveram os pesquisadores.

AstraZeneca

O Chile anunciou na segunda-feira (14) que menores de 45 anos que receberam a primeira dose da vacina da AstraZeneca receberão na segunda dose o imunizante da Pfizer-BioNTech, após um caso de trombose detectado no país.

A medida foi estabelecida após um jovem de 31 anos apresentar um quadro de trombose e trombocitopenia no início de junho após receber a vacina da AstraZeneca.

“É uma medida preventiva e de precaução enquanto são coletadas mais informações (…) Devido a alguns efeitos adversos verificados, obviamente isolados. Mas como medida de precaução, como fizeram outros países, tem-se preferido completar o processo de vacinação com a vacina da Pfizer”, explicou a Subsecretária de Saúde Pública, Paula Daza.  

O Chile recebeu 700 mil dose da vacina da AstraZeneca através do consórcio Covax.

O imunizante experimental britânico, de baixa eficácia, foi restrito ou proibido em vários mercados após casos de trombose e ainda não recebeu autorização para uso emergencial nos Estados Unidos.

Imunidade e Proteção

Os ensaios clínicos em voluntários jovens, de outra forma saudáveis, adultos podem não fornecer evidências suficientes de segurança ou eficácia em outras populações. As avaliações de segurança em estudos multivacinas podem determinar diretamente se determinadas vacinas têm efeitos adversos não compartilhados por outras vacinas.

Segundo a Sociedade Brasileira de Imunologia, para que seu uso seja justificado, o grau de proteção alcançado por uma vacina deveria ser de pelo menos 60-70% em um ano.

"Uma vacina com eficácia de menos de 70%, pode minimizar as formas graves da doença, mas provavelmente não impactará na transmissão do vírus", pondera a sociedade científica em Nota Técnica, ressaltando que é um equívoco avaliar vacinas com base em respostas iniciais de ensaios clínicos.

"É sabido que devido a sua atividade adjuvante, uma vacina funciona como imunoestimulante e pode, nos meses iniciais, proteger indivíduos por mecanismos não relacionados com a imunidade específica mediada pelos anticorpos e linfócitos T. Além disto, existe a janela imunológica. Normalmente a resposta imune demora entre 30-60 dias para se consolidar, em especial, se uma segunda dose for necessária. Portanto, acreditamos que 12 meses seria um tempo mínimo aceitável para avaliar uma vacina contra Covid-19", diz a Nota.

A entidade alerta também para a importante distinção entre imunidade e proteção.

"Quando imunologistas falam em imunidade, normalmente refere-se à detecção de respostas imunes que indicam contato com o patógeno e geração de memória. Contudo, isso não é automaticamente um correlato de proteção. Das respostas detectadas em indivíduos infectados ou vacinados, é preciso ainda investigar quais delas conferem proteção. Mais ainda, diferentes níveis de proteção podem ser gerados em um indivíduo. Anticorpos neutralizantes, por exemplo, podem conferir imunidade esterilizante: eles bloqueiam a infecção e portanto impedem transmissão. Já linfócitos T de memória dificilmente impedem a infecção, mas são fundamentais para limitar a patologia e a gravidade da doença. No entanto, é possível que um indivíduo, mesmo com sintomas brandos da doença e com indícios de uma resposta imune, dissemine o vírus", explica a Nota Técnica da SBI.

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