A "ciência de press release" foi recebida com cautela pela comunidade científica internacional mas com euforia pelos mercadores de Wall Street.

"Hoje é um grande dia para a ciência e a humanidade", festejou o Dr. Albert Bourla, Presidente e CEO da Pfizer, em press release distribuido pela Business Wire.

A vacina é "o maior avanço médico" nos últimos cem anos, Bourla disse à CNN.

Contudo, o New York Times apontou que os dados, que não foram publicados em um jornal médico, “não são evidências conclusivas de que a vacina é segura e eficaz".

O medicamento foi desenvolvido por uma pequena empresa alemã de biotecnologia chamada BioNTech, cujas ações dispararam 25% no intraday. As ações da Pfizer chegaram a subir 15% após a circulação do press release.

No mesmo dia, Bourla vendeu 132.508 ações da farmacêutica ao preço médio de US$ 41,94 por ação, ou US$ 5,6 milhões no total, de acordo com documentos registrados na Securities and Exchange Commission (SEC).

A cotação máxima de 52 semanas para as ações da Pfizer é de US$ 41,99, o que significa que Bourla vendeu suas ações pelo seu valor mais alto em 12 meses.

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A Pfizer disse que as vendas de ações do CEO faziam parte de um plano que permite aos principais acionistas e insiders de empresas listadas em bolsa negociar um número predeterminado de ações em um momento acordado.

"Por meio de nosso administrador de plano de ações, o Dr. Bourla autorizou a venda dessas ações em 19 de agosto de 2020, desde que as ações estivessem pelo menos a um determinado preço", disse um porta-voz da Pfizer ao Business Insider.

Outro executivo da Pfizer, a vice-presidente executiva Sally Susman, também vendeu ações na segunda-feira como parte de um plano. Susman vendeu 43.662 ações ao mesmo preço de US$ 41,94 que Bourla vendeu, uma transação avaliada em mais de US$ 1,8 milhão.

Esses planos tornaram-se cada vez mais polêmicos e a questão ganhou urgência adicional, dados os bilhões de dólares que o governo prometeu à Pfizer se sua vacina obtiver a aprovação dos reguladores federais.

O momento da implementação do plano de Bourla levanta questões sobre o que o executivo da Pfizer sabia e quando.

Em 19 de agosto, Bourla implementou seu plano de negociação de ações, de acordo com sua divulgação à Securities and Exchange Commission.

No dia seguinte, 20 de agosto, a Pfizer emitiu um press release apresentando "dados adicionais de segurança e imunogenicidade da Fase 1" e confirmando que a Pfizer e seu parceiro alemão, BioNTech, estavam "no caminho certo para buscar uma revisão regulatória" em outubro para sua vacina candidata.

Os canais de notícias financeiras Fox Business, CNBC e Bloomberg cobriram as operações, com a CNBC observando que as ações da Pfizer pareciam estar "subindo acentuadamente hoje após um cronograma otimista de vacina".

Daniel Taylor, especialista em negociação com informações privilegiadas e professor da Wharton School, da Universidade da Pensilvânia, monitorou de perto as negociações de ações por executivos de empresas que desenvolvem vacinas contra o coronavírus. Ele disse à NPR que o tempo estreito – menos de 24 horas – entre a adoção do plano de ações de Bourla e o press release parecia "muito suspeito".

“É totalmente inapropriado que executivos de empresas farmacêuticas implementem ou modifiquem planos [de vendas de ações] no dia útil antes de anunciarem dados ou resultados de testes de drogas”, disse Taylor.

Um porta-voz da Pfizer disse à NPR que a empresa não acreditava que o press release da empresa de 20 de agosto contivesse informações materiais não públicas e que um administrador de plano de ações havia previamente examinado a implementação do plano do CEO.

A venda de ações da Pfizer ocorre poucos meses depois que executivos da Moderna, uma empresa de biotecnologia que também desenvolve uma vacina covid-19, venderam ações após a divulgação na imprensa de resultados de testes.

Conforme reportado pela NPR em setembro, vários executivos da Moderna adotaram ou modificaram seus planos de negociação de ações pouco antes dos principais anúncios sobre a vacina da empresa.

Os críticos acusaram a Moderna de exagerar nos resultados do ensaio da vacina, mas mesmo assim a empresa arrecadou US$ 1,3 bilhão com a venda de ações.

Os executivos então venderam dezenas de milhões de dólares em ações da Moderna antes que o preço das ações despencasse uma semana depois.

BioNTech

Bilhões de dólares do contribuinte americano estão em jogo. O governo dos EUA garantiu cerca de US$ 2,5 bilhões para o desenvolvimento e fabricação da vacina da Moderna e prometeu comprar cerca de US$ 2 bilhões da vacina da Pfizer, caso receba aprovação regulatória.

A BioNTech foi fundada em 2008 pelo casal de cientistas alemães Uğur Şahin e Özlem Türeci, ambos filhos de imigrantes turcos, e o oncologista austríaco Christopher Huber. Originalmente a empresa se propunha a desenvolver novos tipos de imunoterapia para o câncer, mas em janeiro concentrou suas capacidades na corrida para fornecer uma vacina covid-19.

O trabalho com a vacina começou em Mainz, Alemanha, no final de janeiro, quando Uğur Şahin leu sobre o vírus SARS-CoV-2 na revista Lancet e montou uma equipe de 20 pesquisadores para desenvolver uma vacina, obtendo em pouco tempo resultados promissores em testes de laboratório e com roedores.

Em março, a Pfizer se associou à BioNTech, que não tinha experiência e recursos para conduzir um grande ensaio clínico, para o desenvolvimento, produção e comercialização da vacina alemã. As duas empresas já tinham um outro projeto em conjunto desde 2018.

Em 22 de julho, antes mesmo do início do ensaio clínico, o governo Trump fez uma aposta no sucesso da Pfizer e da BioNTech, anunciando um acordo de compra antecipada de 100 milhões de doses no valor de US$ 1,95 bilhão, na época o maior compromisso do governo dos EUA.

52 week range: 18.6 - 114.9. Fonte/arte: Investing.com
52 week range (13/11/2020): 18.6 - 114.9. Fonte/arte: © Investing.com

No período de 52 semanas, as ações da BioNTech subiram mais de 450% – o valor de mercado da empresa nesta sexta-feira (13) é de cerca de US$ 25 bilhões.

Şahin e Türeci agora são multibilionários, entre os 100 alemães mais ricos, de acordo com o jornal Welt am Sonntag.

Repercussão  

Os dados divulgados da Pfizer colocam a eficácia da vacina acima da apontada para imunizações contra varicela, caxumba, poliomielite e tosse convulsa: uma análise intermediária mostrou que entre 94 pessoas com casos de covid-19 sintomático, 90% não receberam a vacina.

O ensaio continuará até que haja 164 casos confirmados de covid-19. O FDA requer pelo menos cinco casos graves da doença entre os participantes que receberam o placebo como parte do processo de aprovação.

Um vice-presidente sênior da Pfizer disse que a análise atual não incluiu nenhum caso grave. Não há informações sobre casos assintomáticos.

Os participantes receberam duas doses da vacina e a medição de sua eficácia foi feita sete dias após a segunda dose ter sido administrada, no auge da resposta imune inicial.

Segundo Şahin, a análise final dará uma imagem melhor da eficácia geral, o intervalo de confiança e detalhes críticos sobre as possíveis diferenças no impacto da vacina em diferentes populações, incluindo idosos.

Vários especialistas dizem estar preocupados com o fato do público estar obtendo uma imagem incompleta sobre o desempenho da vacina, que não revela informações críticas, como quais grupos demográficos ela alegadamente protegeu.

Embora o resultado intermediário sugira que o objetivo principal de reduzir os casos de covid-19 sintomáticos possa ser alcançado, não significa que a vacina previne infecções assintomáticas, transmissão do vírus, ou doenças graves.

Isso significa que as pessoas vacinadas ainda podem ser portadoras desconhecidas do vírus e ainda podem enfrentar o risco de desenvolver covid-19 grave, que requer hospitalização e pode resultar em morte.

"Embora muito barulho tenha sido levantado sobre esse número de '90% de eficácia', uma 'redução de 90% nos casos sintomáticos' realmente não nos diz nada sobre quais tipos de casos estão sendo evitados".

“Nesta ... análise preliminar há uma redução significativa na covid-19, e interpreto isso como significando que ... os indivíduos não estão desenvolvendo a doença, mas não nos diz nada sobre se as pessoas estão se infectando ou não”, disse Lawrence Young, professor de oncologia molecular da Universidade de Warwick.

"Pelo valor de face, esta é uma notícia excepcionalmente boa”, disse Eleanor Riley, professora de imunologia e doenças infecciosas da Universidade de Edimburgo. No entanto, ela disse que há questões importantes que não foram respondidas pela Pfizer ou BioNTech, incluindo: quanto tempo durará a imunidade? Quão graves foram as infecções? E que idade tinham os participantes do ensaio? “O conjunto de dados no qual a reivindicação se baseia ainda não foi divulgado e, portanto, não sabemos exatamente o que foi encontrado”.

“Estes são primeiros sinais interessantes, mas, novamente, são apenas comunicados em press release. Os dados primários ainda não estão disponíveis e uma publicação revisada por pares ainda está pendente. Ainda temos que esperar pelos dados exatos antes de podermos fazer uma avaliação final. No momento, ainda há poucos detalhes sobre os dados exatos, por exemplo, em relação às diferentes faixas etárias e em quais grupos os 94 casos ocorreram exatamente”, Marylyn Addo, University Medical Center Eppendorf, Hamburgo, Alemanha.

O comunicado à imprensa da Pfizer "não nos diz de forma alguma o que eles realmente realizaram", disse Michael Osterholm, diretor do Centro de Pesquisa e Política de Doenças Infecciosas da Universidade de Minnesota.

Sem mais informações, é muito cedo para começar a prever o impacto que a vacina pode causar, disse o cientista, nomeado para a força-tarefa COVID de Joe Biden no início desta semana.

“Não quero diminuir o entusiasmo por esta vacina. Só quero que sejamos realistas”, disse Osterholm. “Para que uma vacina realmente tenha o impacto máximo, também terá que reduzir doenças graves e morte. E nós simplesmente não sabemos ainda”.

* Com informações do Business Insider, NPR, CNN, New York Times, Stat, Investing.com, Children's Health Defense, Reuters, Welt am Sonntag

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