O Dr. William A. Haseltine, ex-professor da Escola de Medicina de Harvard e conhecido por seu trabalho inovador em HIV/AIDS e no genoma humano, criticou em artigo (Did The Oxford Covid Vaccine Work In Monkeys? Not Really) a eficácia da vacina Covid desenvolvida pela Universidade de Oxford que está sendo testada no Brasil.

Através de comunicado à imprensa, prática que tem sido chamada de "ciência de press release", cientistas do Jenner Institute afirmaram que sua vacina protegeu macacos rhesus e que estavam avançando com ensaios de segurança humana em larga escala, sem oferecer dados.

No dia anterior, lembra Haseltine, a concorrente chinesa Sinovac Biotech tinha publicado no site bioRxiv dados de pesquisa mostrando proteção completa de macacos rhesus por sua candidata à vacina (partículas inteiras do vírus SARS-CoV-2 inativadas). Uma versão do estudo revisada por pares foi publicada em 6 de maio pela Science. Deve-se notar que Douglas Reed, da Universidade de Pittsburgh, que está desenvolvendo e testando vacinas Covid-19 em estudos com macacos, diz que o número de animais era pequeno demais para produzir resultados estatisticamente significativos – pesquisadores da Sinovac administraram duas doses diferentes de sua vacina a um total de oito macacos rhesus.

No dia 13 de maio, a equipe de Oxford postou um pre-print sem revisão no site bioRxiv sobre o ensaio da vacina (ChAdOx1 nCoV-19 vaccination prevents SARS-CoV-2 pneumonia in rhesus macaques).

Os dados de Oxford suportam a reivindicação do comunicado? Não, afirma Haseltine.

Os animais vacinados (6) e de controle (3) foram monitorados quanto a sinais clínicos de infecção por sete dias após submetidos ao vírus.

"Um sinal clínico de infecção em macacos rhesus é a frequência respiratória. Macacos doentes com infecção por SARS-CoV-2 respiram mais rapidamente que o normal", explica Haseltine.

Por esta medida, 3 dos 6 macacos vacinados estavam clinicamente doentes, os três restantes não eram clinicamente distinguíveis dos animais não vacinados.

Um segundo teste é a medição da quantidade de vírus nos pulmões (lavagem brônquica). O RNA viral foi detectado na lavagem brônquica de 2 dos 6 animais vacinados e nos três animais não vacinados, sugerindo novamente apenas proteção parcial.

No sétimo dia após a exposição ao vírus, os animais foram sacrificados e examinados quanto a danos nos pulmões. Dois dos três animais não vacinados "desenvolveram algum grau de pneumonia intersticial". Nenhum dano foi observado nos animais vacinados.

"É evidente que a vacina não forneceu imunidade esterilizante ao ataque do vírus, o padrão-ouro para qualquer vacina", escreveu Haseltine. O medicamento testado da Oxford "pode ser parcialmente eficaz, na melhor das hipóteses, e já se sabe que provoca respostas neutralizadoras ruins".

No estudo da Sinovac, na dose mais alta estudada, nenhum vírus foi recuperado da garganta, pulmão ou reto dos animais vacinados.

Haseltine destaca um segundo resultado preocupante do artigo de Oxford.

A concentração (titer) de anticorpo neutralizante, julgado pela inibição da replicação do vírus por diluições séricas sucessivas, conforme relatado, é extremamente baixo. Normalmente, os anticorpos neutralizantes em vacinas eficazes podem ser diluídos em mais de mil vezes e manter a atividade. Nos ensaios, o soro pode ser diluído apenas 4 a 40 vezes antes que a atividade neutralizadora fosse perdida.

Considerando que "no caso da SARS, e de outras infecções por coronavírus, até altos titers de anticorpos neutralizantes desaparecem rapidamente, quanto tempo pode-se esperar que anticorpos neutralizantes fracos protejam?", questiona o cientista.

Falsa proteção

O desespero por uma maneira de impedir que as economias entrem em colapso pode significar optar por uma vacina que proteja a pessoa de ficar muito doente e morrer, mas não a proteja de pegar e transmitir o coronavírus SARS-CoV-2.

A vacina será um sucesso contra sintomas graves, apostou Pascal Soriot, CEO da AstraZeneca, em entrevista à BBC. A companhia licenciou a vacina de Oxford e diz já ter alcançado capacidade para produzir 2 bilhões de doses.

Cerca de um quarto das vacinas experimentais listadas pela OMS, incluindo duas já em estudos com seres humanos, seguem a mesma abordagem da vacina de Oxford.

O NIAID de Fauci fez uma parceria com a Moderna Inc. em um teste de vacina da Covid cujo objetivo principal é mostrar que a vacina impede que as pessoas desenvolvam sintomas, informou a empresa em 11 de junho. Prevenir infecções é um objetivo secundário.

Tais vacinas podem levar à complacência em países cansados de confinamento, disse Michael Kinch, especialista em desenvolvimento de medicamentos e vice-chanceler da Universidade de Washington em St. Louis.

"Meu palpite é que, no dia seguinte a alguém ser imunizado, eles pensarão: posso voltar ao normal. Tudo vai ficar bem'', disse. "Eles não vão necessariamente perceber que ainda podem ser suscetíveis à ser infectados e ficar doentes".

Acredita-se que o SARS-CoV-2 seja disseminado por pessoas sem sintomas, e uma vacina para prevenir os sintomas pode criar um número ainda maior delas.

A Food and Drug Administration (FDA) está considerando opções para uma vacina que apenas previna casos graves de Covid-19.

"Poderíamos considerar uma indicação relacionada à prevenção de doenças graves, desde que os dados disponíveis suportem os benefícios da vacinação", disse o porta-voz da FDA Michael Felberbaum em resposta a perguntas. "Para o licenciamento, não exigiríamos que uma vacina proteja contra a infecção".

Os preventivos bem-sucedidos também devem impedir a transmissão, defende Dan Barouch, pesquisador do Centro de Virologia e Pesquisa de Vacinas do Centro Médico Beth Israel Deaconess e da Universidade de Harvard. Vacinas eficazes podem permitir que algumas células sejam infectadas, mas controlam o crescimento do vírus antes que ele possa ser transmitido a outras pessoas, disse Barouch, que está desenvolvendo uma vacina com a Johnson & Johnson – cujos esforços visam uma vacina que previne infecções.

* Com informações de William A. Haseltine, Bloomberg, BBC

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