Na corrida dos laboratórios para atender governos e populações em pânico, o risco de que uma vacina experimental contra o coronavírus possa deixar uma pessoa clinicamente pior ou causar danos futuros à saúde da população é, no máximo, uma "preocupação teórica" nos ensaios clínicos.

Já a questão de quem paga por quaisquer reivindicações por danos em caso de efeitos colaterais tem sido um ponto cuidadosamente tratado nas negociações de fornecimento.

Os contratos com os países estão incluindo cláusulas que asseguram compensação pelo custo de processos contra as empresas farmacêuticas e que isentam de responsabilidade legal suas ações e produtos.

No momento, a AstraZeneca chegou a um acordo com cerca de 25 países que estão testando sua vacina experimental, desenvolvida pela Universidade de Oxford.

Espera-se que milhões de pessoas nesses países sejam imunizadas, mas os acordos estabelecem que a AstraZeneca não responderá por quaisquer danos caso efeitos colaterais da vacina Covid-19 apareçam meses, anos ou décadas depois.

"Esta é uma situação única em que nós, como empresa, simplesmente não podemos correr o risco se ... em quatro anos a vacina apresentar efeitos colaterais", disse o executivo da AstraZeneca Ruud Dobber à Reuters. “Para a maioria dos países, é aceitável assumir esse risco, porque é do seu interesse nacional”.

Autoridades da União Europeia disseram à Reuters que a responsabilidade pelo medicamento está entre os pontos controversos dos esforços europeus para garantir acordos de fornecimento de possíveis vacinas contra Covid-19.

Por sua vez, os Estados Unidos permitem que partes importantes dos ensaios clínicos sejam ignoradas, simplificadas ou abreviadas, pois as grandes empresas farmacêuticas não serão responsabilizadas pelos efeitos colaterais adversos à administração dos medicamentos experimentais.

A AstraZeneca reconhece que a vacina pode não funcionar, mas diz que está comprometida em executar o programa clínico com rapidez.

Desenvolver uma vacina é um processo demorado porque requer uma rigorosa avaliação científica. No caso da Covid, "nem sequer entendemos o vírus em si ou como o vírus afeta o sistema imunológico", pondera Ken Frazier, Presidente e CEO da principal produtora de vacinas do mundo, a gigante farmacêutica Merck & Co.

"Infelizmente, há alguns casos em que [a vacina] não só não conferiu proteção mas ajudou o vírus a invadir a célula porque estava incompleta em termos de suas propriedades imunogênicas", disse Frazier. "Vimos no passado, por exemplo, com a gripe suína, que essa vacina fez mais mal do que bem".

"Se você vai usar uma vacina em bilhões de pessoas, é melhor você saber o que essa vacina faz", alerta Frazier.

* Com informações da Reuters

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