O RECOVERY (Randomised Evaluation of Covid-19 Therapy) foi estabelecido em março por pesquisadores da Universidade de Oxford, como um ensaio clínico para testar medicamentos potenciais para a Covid-19, entre eles a hidroxicoloroquina.

O RECOVERY é um estudo controlado duplo-cego randomizado “padrão ouro”, recrutando pacientes com Covid-19 em circunstâncias semelhantes para tomar um medicamento ou um placebo. Seus médicos e pesquisadores não sabem quais pacientes estão tomando o medicamento.

O projeto prosseguiu a uma velocidade sem precedentes, registrando mais de 11.000 pacientes internados em 175 hospitais do National Health Service (NHS) no Reino Unido.

Durante esse período, o Comitê de Monitoramento de Dados (DMC) revisou os dados emergentes a cada duas semanas para determinar se existiam evidências fortes o suficiente para afetar o tratamento nacional e global da Covid-19.

Na quinta-feira (4), em resposta a uma solicitação da Agência Reguladora de Medicamentos e Produtos de Saúde (MHRA), o DMC recomendou a revisão do braço da hidroxicloroquina aos pesquisadores principais do RECOVERY, os professores da Universidade de Oxford Peter Horby e Martin Landray.

Não houve diferença significativa na mortalidade e não há evidências de efeitos benéficos na duração da estadia no hospital ou outros resultados.

Os dados mostraram que após cerca de 28 dias, 25,7% dos pacientes que receberam hidroxicloroquina haviam morrido, em comparação com 23,5% dos pacientes que receberam apenas os cuidados hospitalares habituais.

"Concluímos que não há efeito benéfico da hidroxicloroquina em pacientes hospitalizados com Covid-19", disseram os pesquisadores em nota. "Os dados excluem de forma convincente qualquer benefício significativo da mortalidade da hidroxicloroquina em pacientes hospitalizados com Covid-19".

"Uma das principais lições que devemos aprender é que tomar decisões de tratamento com base em dados observacionais não é o caminho a seguir", disse Landray.

Para Peter Horby, a hidroxicloroquina e a cloroquina receberam muita atenção e têm sido usadas amplamente para tratar pacientes com Covid, apesar da ausência de boas evidências.

"Os ensaios do RECOVERY demonstraram que a hidroxicloroquina não é um tratamento eficaz em pacientes hospitalizados com Covid-19. Embora seja decepcionante que este tratamento tenha se mostrado ineficaz, ele nos permite concentrar o cuidado e a pesquisa em medicamentos mais promissores", disse Horby.

Houve uma enorme especulação e incerteza sobre o papel da hidroxicloroquina como tratamento para a Covid-19, mas ausência de informações confiáveis de grandes estudos randomizados.

"Os resultados preliminares de hoje do estudo RECOVERY são bastante claros – a hidroxicloroquina não reduz o risco de morte entre pacientes hospitalizados com esta nova doença. Esse resultado deve mudar a prática médica em todo o mundo e demonstra a importância de grandes estudos randomizados para informar as decisões sobre a eficácia e a segurança dos tratamentos", disse Landray.

"Se você for hospitalizado, não tome hidroxicloroquina", disse Landray à Reuters. “Este não é um tratamento para a Covid-19. Não funciona".

Uma série de tratamentos em potencial tem sido sugerida para a Covid-19, mas ainda não se sabe se algum deles será mais eficaz em ajudar as pessoas a se recuperarem do que o padrão usual de atendimento hospitalar dado a todos os pacientes. O RECOVERY está testando alguns destes tratamentos:

  • Lopinavir-Ritonavir (comumente usado para tratar o HIV)
  • Dexametasona em baixa dose (um tipo de esteróide, que é usado em uma variedade de condições geralmente para reduzir a inflamação)
  • H̶̵̶i̶̵̶d̶̵̶r̶̵̶o̶̵̶x̶̵̶i̶̵̶c̶̵̶l̶̵̶o̶̵̶r̶̵̶o̶̵̶q̶̵̶u̶̵̶i̶̵̶n̶̵̶a̶̵̶
  • Azitromicina (um antibiótico comumente usado)
  • Tocilizumab (tratamento anti-inflamatório administrado por injeção)
  • Plasma convalescente (coletado de doadores que se recuperaram da Covid-19 e contém anticorpos contra o vírus SARS-CoV-2)

Os testes do RECOVERY são financiados pela Universidade de Oxford, Instituto Nacional de Pesquisa em Saúde (NIHR), Centro de Pesquisa Biomédica NIHR Oxford, Wellcome, Fundação Bill & Melinda Gates, Departamento de Desenvolvimento Internacional, Health Data Research UK, Unidade de Pesquisa em Saúde da População do Conselho de Pesquisa Médica, e Fundo de Suporte da Unidade de Ensaios Clínicos da NIHR.

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