A fabricação, originalmente com o título Fact check: Biden honored service members killed in Kabul, checked watch only after ceremony (Checagem de fatos: Biden homenageou militares mortos em Cabul, checou seu relógio somente após a cerimônia), foi elaborada por Daniel Funke, cuja biografia informa que está "checando fatos + cobrindo informações erradas" para o USA Today.

Funke foi o autor da checagem de fatos na quarta-feira (1) da mensagem "Donald Trump saudou os caixões de membros do serviço militar dos EUA, enquanto Joe Biden conferiu seu relógio", supostamente circulando na Internet, examinando se Biden realmente ficou consultando a hora em seu pulso enquanto os caixões dos militares mortos na explosão do aeroporto de Cabul eram rolados para a pista da Base Aérea de Dover no último fim de semana, fato que provocou indignação entre as famílias que testemunharam o distraído presidente.

"Novo fato checado: uma foto viral faz parecer que o presidente Biden olhou seu relógio durante uma cerimônia em homenagem a militares americanos mortos em Cabul. Mas isso é enganoso", anunciou Funke em rede social na quarta-feira (1).

"Biden consultou o relógio, mas o fez após o término da cerimônia. Assista ao vídeo você mesmo", acrescentou o vigilante de rede alheia, indicando ao leitor um vídeo onde boa parte da participação de Biden na cerimônia não está registrada.
O bloqueador de fatos pinçou um vídeo onde Biden pouco aparece.
O bloqueador de fatos pinçou um vídeo onde Biden pouco aparece.

O artigo publicado pelo USA Today afirma que Biden "pareceu verificar seu relógio durante sua visita à Base Aérea de Dover. Mas ele o fez depois que a cerimônia de transferência digna terminou", escreveu Funke, "As filmagens que antecederam o momento mostram Biden com a mão sobre o coração por cerca de 30 segundos enquanto vans carregam os restos mortais dos militares para fora da pista. Depois que as vans saem, Biden fecha os olhos brevemente antes de deixar cair os braços e olhar para baixo o relógio dele".

A implicação foi que os parentes dos militares mortos no Afeganistão mentiram.

A narrativa gerou indignação entre os leitores. Não apenas familiares presentes na cerimônia chegaram ao ponto de contar quantas vezes Biden consultou o relógio, incomodados com a atitude, como vídeos e fotografias – das agências de notícias AP e AFP, fartamente documentaram a impaciência do presidente americano.

Na quinta-feira (2), o USA Today admitiu o inexplicável erro e atualizou o texto.

"Correções e Esclarecimentos: Esta estória foi atualizada em 2 de setembro para observar que Biden consultou seu relógio várias vezes no evento de transferência digna, incluindo durante a própria cerimônia. A classificação desta reivindicação foi alterada de parcialmente falsa para contexto ausente".

"A forma como Biden homenageou os 11 caixões apresentados na Base Aérea de Dover, com a mão sobre o coração, foi semelhante à forma como Trump prestou homenagem aos militares mortos durante sua presidência. No entanto, Biden checou seu relógio pelo menos três vezes, de acordo com fotos e vídeos analisados pelo USA TODAY. Vários parentes de militares que participaram da cerimônia criticaram Biden por verificar seu relógio", reconheceu o diário americano.

A manchete mudou de Fact check: Biden honored service members killed in Kabul, checked his watch only after ceremony (Checagem de fatos: Biden homenageou militares mortos em Cabul, checou seu relógio somente após a cerimônia) para Fact check: Biden honored service members killed in Kabul, checked his watch during ceremony" (Checagem de fatos: Biden honrados militares mortos em Cabul, checou seu relógio durante a cerimônia).

Nesta sexta-feira (3), Daniel Funke, voltou a se manifestar em rede social, expressando vitimismo, e não se desculpou formalmente pela fake news que produziu em oposição a fatos verdadeiros publicados por terceiros.

"Jornalistas e verificadores de fatos são humanos (sim, até eu!). Cometemos erros. Quando o fazemos, nós os corrigimos e tentamos consertar", disse Funke.

"É fácil cair sobre os jornalistas quando erramos. Eu entendo – para muitos, somos apenas mais um nome em uma tela. Mas por trás dessa tela está uma pessoa tentando fazer o seu melhor", acrescentou.

Atualização 10/09/2021

Uma família inocente foi assassinada quando os militares dos EUA realizaram um "ataque justo" em 29 de agosto contra um veículo que as autoridades americanas pensaram representar uma ameaça iminente.

O New York Times (NYT) obteve imagens de câmeras de segurança e relatos de testemunhas para mostrar como os militares lançaram um ataque de drones que matou 10 pessoas em Cabul sem saber quem estavam atingindo.

"A administração Biden mentiu sobre quem matou com seu ataque aéreo. Eles não tinham ideia de quem atingiram. A mídia repetiu sem pensar a falsa alegação de que eles mataram 'terroristas' quando, na verdade, eles apenas mataram pessoas inocentes", acusou o jornalista Glenn Greenwald em rede social.

De acordo com uma declaração sem evidências do Comando Central dos Estados Unidos, "houve explosões subseqüentes substanciais e poderosas resultantes da destruição do veículo", sugerindo que havia uma "grande quantidade de material explosivo dentro que pode ter causado vítimas adicionais".

Apenas três dias antes, 13 soldados americanos e mais de 170 civis afegãos morreram em um ataque suicida do Estado Islâmico no aeroporto.

A ofensiva foi apresentada pela imprensa americana como uma operação bem sucedida que impediu um novo ataque ao aeroporto de Cabul, em andamento, e matou dois líderes responsáveis pelo atentado – sem revelar os nomes.

Naturalmente, a imprensa europeia questionou como os EUA, que sequer anteviram a tomada da capital afegã em questão de dias, puderam localizar em poucas horas os líderes do ataque terrorista.

Em reportagem no final da tarde desta sexta-feira (10), o NYT reportou que "oficiais militares disseram que não sabiam a identidade do motorista do carro quando o drone disparou, mas o consideraram suspeito por causa de como interpretaram suas atividades naquele dia, dizendo que ele possivelmente visitou uma casa do ISIS e, em um ponto, carregou o que eles pensaram que poderiam ser explosivos no carro".

A reportagem do Times identificou o motorista como Zemari Ahmadi, técnico que trabalhava desde 2006 para a Nutrition and Education International, um grupo de ajuda humanitária com sede na Califórnia.

Ahmadi ajudou a instalar fábricas de processamento de soja, reparar máquinas, transportar seus colegas e distribuir alimentos usando seu carro.

As evidências, incluindo extensas entrevistas com familiares, colegas de trabalho e testemunhas, indicam que seus deslocamentos naquele dia envolveram o transporte de dois funcionários da ONG e buscar um notebook na casa do seu chefe. Uma análise de imagens de vídeo mostrou Ahmadi e um colega carregando garrafões de água no porta-malas de seu carro para levar para sua família.

Reprodução: Evan Hill/rede social
Reprodução: Evan Hill/rede social

Embora os militares dos EUA tenham afirmado que o ataque do drone pode ter matado três civis, a reportagem do Times mostra que ele matou 10, incluindo sete crianças e adolescentes, em um denso bloco residencial.

Malika Ahmadi, 2, e duas outras crianças foram os membros mais jovens da família mortos, junto com os sobrinhos de Ahmadi, Arwin, 7, e Benyamin, 6, e os outros dois filhos de Zemari, Zamir, 20, e Faisal, 16. Reprodução: Cortesia/Emal Ahmadi
Malika Ahmadi, 2, e duas outras crianças foram os membros mais jovens da família mortos, junto com os sobrinhos de Ahmadi, Arwin, 7, e Benyamin, 6, e os outros dois filhos de Zemari, Zamir, 20, e Faisal, 16. Reprodução: Cortesia/Emal Ahmadi

"O ato final da guerra dos EUA no Afeganistão foi um ataque de drone em Cabul que matou 10 pessoas. Nossa última investigação mostra como um homem que os militares viram como uma 'ameaça iminente' e 'facilitador do ISIS' era na verdade um trabalhador de apoio que retornava para sua família", escreveu em rede social o investigador do NYT Evan Hill, em extenso relato.

"Os militares disseram acreditar que o Toyota Corolla branco de Zemari Ahmadi, rastreado por drone durante oito horas naquele dia, estava cheio de explosivos. O vídeo da câmera de segurança que obtivemos mostrou que ele carregava recipientes com água para sua casa", disse Hill.

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