As metas da Warp Speed foram criticadas pela comunidade científica como irrealistas desde o seu lançamento.

Contudo, em maio a AstraZeneca fazia sucesso comercial com a sua vacina, prometendo entregar 100 milhões de doses em setembro para o Reino Unido, além de enviar 300 milhões de doses em dezembro para os EUA, dependendo "apenas" da comprovação da eficácia da vacina em ensaios clínicos de fase III.

A comunidade científica mundial estaria equivocada?

Em agosto, oito empresas foram escolhidas pelo governo americano para receber cerca de US$ 11 bilhões para acelerar o desenvolvimento e a preparação para a fabricação de suas respectivas vacinas candidatas até dezembro de 2020.

Segundo a FDA (Food and Drug Administration), para obter aprovação a vacina precisará pelo menos diminuir os sintomas da doença e ser no mínimo 50% eficaz.

Protocolos

Os protocolos dos ensaios clínicos geralmente não são revelados ao público, mas após duas ocorrências graves registradas nos testes da vacina da AstraZeneca, cujos ensaios continuam suspensos e sob investigação nos Estados Unidos, surgiu uma demanda generalizada por mais transparência.

Com o objetivo de assegurar ao público que os testes estão sendo conduzidos de forma responsável e que qualquer vacina aprovada seria segura para todos, as empresas farmacêuticas Moderna e Pfizer decidiram divulgar os protocolos de estudos clínicos para seus ensaios da vacina covid-19.

A divulgação dos protocolos aumentou a ansiedade em vez de aliviá-la.

Protocolos elaborados para introduzir vacinas Covid no mercado mais cedo, provavelmente baseados mais na política do que na saúde pública, poderão colocar as vidas de milhões de pessoas em risco.

Uma leitura atenta sugere que os ensaios clínicos foram elaborados para garantir o maior sucesso possível para as vacinas, potencialmente superestimando a eficácia.

Os testes parecem projetados para provar que suas vacinas funcionam, mesmo que os efeitos medidos sejam mínimos. A prevenção de doenças graves é um objetivo secundário.

A prevenção da infecção deveria ser um ponto crítico. Qualquer teste de vacina deve incluir testes regulares de antígenos a cada três dias, para testar a contagiosidade para detectar sinais precoces de infecção, e testes de PCR uma vez por semana, para confirmar a infecção pelo SARS-CoV-2 testar a capacidade das vacinas de evitar a infecção.

A prevenção da infecção não é um critério de sucesso para nenhuma dessas vacinas.

Na verdade, todos os seus desfechos requerem infecções confirmadas e todos aqueles que eles incluirão na análise de sucesso, sendo a única diferença a gravidade dos sintomas entre vacinados e não vacinados.

A medição das diferenças apenas entre os infectados pelo SARS-CoV-2 ressalta a conclusão implícita de que as vacinas não devem prevenir a infecção, apenas modificar os sintomas dos infectados.

Nos protocolos é concebível que uma vacina possa ser considerada eficaz – e eventualmente aprovada – por sua capacidade de prevenir apenas casos leves.

"Se estivessem sendo desenvolvidas vacinas para um simples vírus do resfriado, talvez isso fosse realmente suficiente. Mas covid-19 está longe de ser um resfriado comum. As pessoas não estão preocupadas com nariz escorrendo, mas em serem internadas, morrerem", escreve o Dr. William A. Haseltine, ex-professor da Escola de Medicina de Harvard e conhecido por seu trabalho inovador em HIV/AIDS e no genoma humano, em artigo publicado no Washington Post.

Uma vacina covid-19 deveria, antes de mais nada, proteger de casos graves da doença.

"Todos nós esperamos uma vacina eficaz para prevenir doenças graves se infectados. Três dos protocolos de vacina – Moderna, Pfizer e AstraZeneca – não exigem que sua vacina previna doenças graves, apenas que previnam sintomas moderados, que podem ser tão leves quanto tosse ou dor de cabeça".

"O maior medo que as pessoas têm é morrer dessa doença. Uma vacina deve reduzir significativa ou totalmente as mortes causadas por Covid-19. Mais de duzentas mil pessoas morreram nos Estados Unidos e quase um milhão em todo o mundo. Nenhum protocolo lista a mortalidade como um desfecho crítico", ressalta Haseltine.

Igualmente preocupante é o tamanho do grupo no qual a eficácia de cada vacina seria comprovada.

A eficácia da vacina é normalmente comprovada por grandes ensaios clínicos ao longo de vários anos. As empresas farmacêuticas pretendem fazer testes que variam de trinta mil a sessenta mil participantes. Esta escala de estudo seria suficiente para testar a eficácia da vacina.

Tanto a Pfizer quanto a Moderna enfatizam terem mais de 30.000 participantes programados para cada um.

A primeira surpresa encontrada em uma leitura mais atenta dos protocolos revela que cada estudo pretende completar análises intermediárias e primárias que incluem no máximo 164 participantes.

Essas empresas provavelmente pretendem solicitar uma autorização de uso de emergência (EUA) da Food and Drug Administration (FDA) com apenas seus resultados preliminares.

O sucesso da análise intermediária requer uma eficácia de setenta por cento.

Para a Moderna, a análise intermediária inclui dar a vacina a apenas 53 pessoas. A margem de sucesso é de 13 ou menos dos 53 desenvolverem sintomas em comparação com 40 ou mais em seu grupo de controle.

Para a Johnson & Johnson, sua análise intermediária inclui 77 recipientes de vacina, com uma margem de sucesso de 18 ou menos desenvolvendo sintomas em comparação com 59 no grupo de controle.

Para a AstraZeneca, sua análise intermediária inclui 50 recipientes de vacina, com uma margem de sucesso de 12 ou menos desenvolvendo sintomas em comparação com 19 no grupo de controle de 25 pessoas.

A Pfizer é ainda menor em seus requisitos de sucesso. Seu grupo inicial inclui 32 receptores de vacina, com uma margem de sucesso de 7 ou menos desenvolvendo sintomas em comparação com 25 no grupo de controle.

As análises primárias são um pouco mais expandidas, mas precisam ser menos eficazes para o sucesso: cerca de sessenta por cento. AstraZeneca, Moderna, Johnson & Johnson e Pfizer têm análises primárias que distribuem a vacina a apenas 100, 151, 154 e 164 participantes, respectivamente.

"A prova de eficácia em um grupo tão pequeno não garante que uma vacina candidata será aprovada para fabricação e uso em todo o mundo. Mas o governo dos Estados Unidos mostrou que está disposto a lançar novos medicamentos anti-covid-19 no mercado prometendo ainda menos", escreve Haseltine.

"Se esses fabricantes de vacinas apresentassem os primeiros resultados de uma análise intermediária de seus ensaios e afirmassem que suas candidatas eram eficazes, não há dúvida de que a FDA concederia uma autorização de uso de emergência", especula o cientista.

"O público provavelmente tomaria tal decisão como um sinal de que a vacina é completamente eficaz, apesar do fato de que ela teria se mostrado eficaz apenas em uma pequena amostra de indivíduos e poderia não ser útil na prevenção de casos graves da doença", escreve Haseltine.

Embora as empresas insistam que continuarão seus testes e a explorar os riscos potenciais à saúde a longo prazo, é provável que os voluntários que recebem o placebo venham a exigir a vacina real, levando ao encerramento dos estudos.

Haseltine lembra que em outros ensaios clínicos – hidroxicloroquina, plasma convalescente e remdesivir – uma vez que foram concedidas autorizações de emergência, os testes terminaram.

A segunda surpresa desses protocolos é como são baixos os requisitos para os sintomas de Covid-19.

"A qualificação mínima para um caso de Covid-19 é um teste PCR positivo e um ou dois sintomas leves, como dor de cabeça, febre ou náusea branda.

Esses ensaios de vacinas estão testando para prevenir os sintomas do resfriado comum.

Esses testes certamente não garantem que a vacina protegerá contra as consequências graves da Covid-19.

Uma das questões mais imediatas que um ensaio clínico precisa responder é se a vacina previne a infecção. Se alguém tomar esta vacina, é muito menos provável que se infecte com o vírus?

Todos esses testes enfocam claramente a eliminação dos sintomas de Covid-19, e não as infecções em si", critica Haseltine.

O estudo da Johnson & Johnson é o único que requer a inclusão de casos graves de Covid-19, pelo menos 5 para a análise intermediária de 75 participantes.

"Parece que todas as empresas farmacêuticas presumem que a vacina nunca prevenirá a infecção. Seus critérios para aprovação são a diferença de sintomas entre um grupo de controle infectado e um grupo de vacina infectado. Eles não medem a diferença entre infecção e não infecção como motivação primária". protesta o cientista.

"Uma preocupação maior para os milhões de idosos e aqueles com doenças preexistentes é se esses ensaios testam a capacidade da vacina de prevenir doenças graves e a morte. Mais uma vez, descobrimos que doenças graves e morte são apenas objetivos secundários nos ensaios. Nenhum protocolo lista a prevenção de morte e hospitalização como uma barreira criticamente importante".

"Se o total de infecções, hospitalizações e morte for ignorado nos testes preliminares das vacinas, então deve haver a fase quatro dos testes para monitorar sua segurança e eficácia. Isso seria um monitoramento em larga escala da vacina a longo prazo", reinvidica Haseltine. "Deve haver uma indicação de que as vacinas autorizadas estão reduzindo infecções, hospitalizações e mortes, ou então não serão capazes de deter a pandemia".

"Em uma época em que quase mil mortes são relatadas todos os dias nos Estados Unidos – e muito mais globalmente –  esses protocolos são ultrajantes. O fato de que alguém basearia a saúde de bilhões de humanos nos resultados de alguns poucos desafia qualquer definição de bom senso".

"Está claro a partir desses estudos que as vacinas atualmente em teste não serão a solução necessária para acabar com a pandemia",  conclui Haseltine.

Os testes para obtenção de autorização de uso emergencial de uma vacina candidata lembram os ensaios questionáveis do Dr. Didier Raoult, o controverso especialista francês em doenças infecciosas cujos estudos sobre cloroquina foram criticados como inconclusivos.

"Raoult 'curou' 100% dos doentes que não morreram, pioraram, adoeceram ou abandonaram o estudo clínico", resumiu em abril o Los Angeles Times.

Atualização 29/08 - O South China Morning Post (SCMP), de Hong Kong, abordou nesta terça-feira (29) a eficácia das vacinas Covid-19 de vírus inativados em desenvolvimento na China.

"Os dados das duas primeiras fases dos testes mostraram que os anticorpos e as respostas das células T geradas em pessoas idosas eram muito mais fracas", relata o jornal diário.

"Os cientistas também alertaram que as vacinas de primeira geração podem não ser capazes de interromper a transmissão, mesmo que protejam as pessoas de ficarem gravemente doentes".

"Podemos acabar tendo vacinas que podem reduzir doenças graves entre adultos saudáveis, que raramente ficam gravemente doentes de qualquer maneira, enquanto as transmissões continuam", conclui o SCMP.

* Com informações do Pharmaceutical Technology, Forbes, The Washington Times, The New York Times, Nature, South China Morning Post (SCMP)

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