Embora a imprensa mundial tenha focado em petróleo e gasolina nas últimas semanas, um cenário muito mais grave está sendo projetado para o diesel.

Os alertas foram emitidos no evento FT Commodities Global Summit, em Lausanne, Suiça.

Líderes de grandes tradings estimaram que diariamente até 3 milhões de barris de petróleo e seus derivados poderão ser perdidos da Rússia como resultado de sanções.

"Todos estão preocupados com o fornecimento de diesel. A Europa importa cerca de metade de seu diesel da Rússia e cerca de metade de seu diesel do Oriente Médio", disse Russell Hardy, chefe da Vitol, trading de petróleo com sede na Suíça. "Esse déficit sistêmico de diesel está lá", relatou o Financial Times.

Hardy disse que a mudança para mais consumo de diesel sobre a gasolina na Europa havia criado escassez de combustível. Ele ponderou que as refinarias poderiam aumentar sua produção de diesel em resposta a preços mais altos em detrimento de outros produtos derivados do petróleo para reforçar a oferta, mas reconheceu que o racionamento é uma possibilidade.

Jeremy Weir, CEO da Trafigura, com sede em Cingapura, estimou que entre 2 e 2,5 milhões de barris diários de petróleo russo deixaram de abastecer o mercado global, divididos entre produtos brutos e refinados. "O mercado de diesel é extremamente apertado. Vai ficar mais apertado e provavelmente levará a rupturas de estoque", referindo-se à falta de diesel nos postos de combustíveis.

Torbjorn Tornqvist, co-fundador e presidente do Gunvor Group, com sede em Genebra, avaliou que "o diesel não é apenas um problema europeu, é um problema global".

Tornqvist disse ainda que os mercados europeus de gás não estão mais funcionando como deveriam.

“Acho que [o mercado] está quebrado”, disse Tornqvist. “Nunca pensei que alguém pudesse dizer ‘Ah, o gás caiu abaixo de 100 [euros] por megawatt-hora, está realmente barato’”.

Na Europa, os preços futuros de gás no atacado subiram de cerca de 80 euros por megawatt-hora imediatamente antes da crise da Ucrânia para mais de 300 euros no início deste mês, caindo para abaixo de 100 euros esta semana. Há dois anos, os preços europeus do gás estavam abaixo de 20 euros por megawatt-hora.

Com as bruscas variações de preço, as tradings enfrentam também exigências crescentes de margem, a porcentagem do valor de um título que os bancos requerem que as empresas mantenham em dinheiro.

Hardy disse que a participação no mercado spot de gás diminuiu porque o custo de negociação subiu muito. Para transportar uma carga equivalente a 1 megawatt-hora de gás natural liquefeito ao preço de € 97, as tradings devem fornecer € 80 em dinheiro, sobrecarregando seus requisitos de capital, exemplificou.

Tornqvist disse que as geradoras europeias terão dificuldades para repor seus estoques de gás para o próximo inverno devido ao estado “paralisado” do mercado spot, a menos que os formuladores de políticas intervenham para fornecer garantias para proteger os compradores contra oscilações de preços.

Atualização 24/02/2022

Nesta quinta-feira (24), a gigante de energia austríaca OMV anunciou que está "limitando as vendas spot de óleo de aquecimento e diesel até segunda ordem".

A empresa não deu detalhes sobre onde os limites estão em vigor.

Mais cedo, o chanceler austríaco Karl Nehammer disse que a conversação sobre boicote imediato à energia russa é "irrealista e errada", acrescentando que "não funciona. A Áustria recebe 80% do gás da Rússia".

Reafirmando a gravidade da crise do diesel, a busca da Europa por alternativas ao diesel russo transformou New York de importador para exportador.

Dois petroleiros, o Falcon Nostos e o Energy Centaur, estão transportando mais de 700.000 barris de diesel de New York para a Europa, de acordo com Vortexa, Kpler, bem como dados de transporte compilados pela Bloomberg.

Trata-se de uma reversão dos recentes fluxos comerciais, que viram o porto de New York importar pelo menos 4,5 milhões de barris de diesel da Europa e da Rússia desde o início do ano para geração de energia e aquecimento doméstico.

As exportações de diesel da costa do Golfo para a Europa também estão aumentando. Essa rota é mais comum, embora tenha diminuído no último ano, com a América Latina absorvendo grande parte do mercado de diesel de exportação dos EUA.

Brasil

Após reunião da diretoria do Minaspetro com representantes das principais companhias distribuidoras do Brasil para discutir o fornecimento de combustíveis em Minas Gerais, a entidade comunicou aos associados que a situação com relação ao diesel deve se agravar ainda mais no mês de abril.

“O Sindicato foi informado que a Petrobras está com o fornecimento atual de 80% da demanda e os 20% restantes para atender a demanda interna deveriam ser supridos por combustível importado. Contudo, devido à atual crise global, as empresas importadoras não estão trazendo o produto do exterior”, detalhou.

“Portanto, diante da situação, o Minaspetro faz o alerta para que os revendedores, principalmente os de marca própria, mantenham os estoques do diesel dentro da margem de segurança e sigam em contato direto com as distribuidoras, para que os impactos da crise sejam minimizados no mês que vem”, diz o comunicado.

A Petrobras disse em nota que tem cumprido integralmente suas obrigações contratuais com as distribuidoras e não há cortes no fornecimento de diesel.

Segundo a Petrobras, no fim de 2021, os pedidos de diesel encaminhados pelas distribuidoras para o mês de março foram “atípicos e superiores ao mercado esperado para este período”.

“Após avaliação de disponibilidade, considerando nossa capacidade de produção e oferta, o volume aceito foi inferior aos pedidos atípicos recebidos, mas de acordo com as obrigações contratuais”, acrescentou a companhia em nota.

Importação

De acordo com dados da Associação Brasileira dos Importadores de Combustíveis (Abicom), existem 392 agentes de importação de combustíveis no Brasil.

A escassez de oferta tirou de cena os pequenos importadores, e até mesmo as grandes empresas sentem a redução de oferta de produtos, especialmente no segmento de óleo diesel.

O presidente da Abicom, Sérgio Araújo, observou que a janela de importação está fechada no momento.

“Converso com nossos agentes, e eles dizem que não está fácil negociar óleo diesel para o Brasil, está caro e não tem fácil no mercado, está muito restrito”, disse Araújo ao Estadão.

Mesmo com preço alto, o número de ofertas a cada anúncio de compra do combustível foi fortemente reduzido. Normalmente, o pedido de compra de diesel gera ofertas de mais de 20 navios, mas agora são no máximo dois ou três.

“A Europa está pegando diesel do mundo todo. Mais de 50% do diesel consumido na Europa tem origem russa. Temos no momento um problema seríssimo de abastecimento de diesel”, disse ao Estadão Nelson Ostanello, presidente no Brasil da Green Energy, maior distribuidora de combustíveis do Reino Unido.

O diesel importado pelo Brasil vem principalmente do Golfo do México, que agora está redirecionando o combustível para a Europa.

Ostanello afirmou que o setor passou a cobrar um prêmio de US$ 0,30 por galão.

“O galão de diesel que estava US$ 3,20 agora está entre US$ 3,50 e US$ 3,60”, disse o executivo.

“Na minha opinião essa situação da importação vai se agravar. O Brasil precisa importar 25% da demanda, e a Petrobras deixou o preço tão defasado no passado recente, que ninguém tinha coragem de trazer de fora, nem a própria Petrobras trouxe [diesel]”, explicou Ostanello, destacando que a defasagem chegou a R$ 2,50 antes do aumento do diesel anunciado no último dia 11, o que impediu a formação de estoques.

A defasagem entre os preços do diesel vendido pela Petrobras nas suas refinarias brasileiras em relação ao mercado internacional saiu de uma diferença de 24% no dia 10 de março para 4% no dia 11. Com a piora da oferta de diesel no mercado externo, a defasagem voltou a subir.

Matriz energética brasileira. Participação por combustível (mil m3;%). Fonte/Arte: Abicom
Matriz energética brasileira. Participação por combustível (mil m3;%). Fonte/Arte: Abicom

Atualização 04/04/2022

Os Estados Unidos aumentaram suas compras de petróleo russo em 43% entre 19 e 25 de março, de acordo com dados da Administração de Informações sobre Energia (EIA). Apesar da proibição da Casa Branca de importações de energia da Rússia, os EUA continuam a comprar até 100.000 barris de petróleo russo por dia.

* Com informações do Financial Times (FT), Bloomberg

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