Sob um programa conhecido como “Xinjiang Aid”, entre 2017 e 2019 o governo chinês facilitou a transferência em massa de uygurs para trabalhar “sob condições que sugerem fortemente o trabalho forçado”, às vezes recrutando trabalhadores diretamente de campos de reeducação que receberam ampla condenação internacional, de acordo com relatório divulgado pelo Australian Strategic Policy Institute (ASPI).

A ONU estima que 1 milhão de uygurs e outras minorias muçulmanas estão sendo arbitrariamente detidas nos campos, que o governo chinês insiste ser uma medida necessária para combater o terrorismo e a radicalização.

O programa de trabalho representa uma "nova fase da campanha de reengenharia social da China voltada para minorias", após o anúncio de que todos os internos em chamados centros de treinamento profissional (vocational training centers) de Xinjiang "se formaram" e "aceitaram emprego", diz o estudo.

O relatório aponta que esses empregados habitam dormitórios segregados, recebem "educação patriótica" e ideológica fora do horário de trabalho, vivem sob constante vigilância e são proibidos de participar de manifestações religiosas.

"Os trabalhadores são monitorados de perto pelas autoridades do partido", afirmou o relatório. "Funcionários dos escritórios locais do Departamento de Segurança Pública e do Departamento de Trabalho da Frente Unida realizam reuniões regulares com empresas de Shandong que utilizam uygurs para discutir as tendências ideológicas dos trabalhadores e qualquer problema que tenha surgido".

"É extremamente difícil para os uygurs recusar ou escapar dessas tarefas de trabalho, que estão enredadas no aparato de detenção extrajudicial e doutrinação política dentro e fora de Xinjiang".

O instituto australiano identificou 83 marcas globais que se beneficiam da mão-de-obra forçada uygur. São marcas elegantes de roupas, artigos esportivos, eletrônicos, automóveis e tudo o mais fabricado na China, frequentemente promovidas por um marketing "woke" e por executivos que sinalizam virtude. Várias multinacionais da lista já estiveram envolvidas anteriormente em denúncias de exploração de trabalhadores, apesar do discurso e valores que dizem prezar.

Sim, aquela empresa que você está pensando está na lista (PDF).

Yun Jiang, co-editora do China Neican, disse que as descobertas "não surpreendem, pois vimos muitas evidências antes de que o trabalho prisional ou forçado é usado na China".

O ASPI, que é parcialmente financiado pelo Departamento de Defesa da Austrália, pelo Departamento de Estado dos EUA e pelo Ministério de Relações Exteriores do Reino Unido, pediu ao governo chinês que defenda os direitos étnicos e religiosos consagrados na constituição chinesa e disse que as empresas multinacionais devem realizar a devida diligência nas suas cadeias de fornecedores.

James Laurenceson, diretor do Instituto de Relações Austrália-China em Sydney, disse que as alegações de trabalho forçado deveriam levar empresas multinacionais a reexaminar seus vínculos com fornecedores da região.

"Sabemos que os uygurs foram detidos em Xinjiang de maneira extrajudicial e, portanto, a possibilidade de isso se estender a práticas trabalhistas coercitivas é algo que as multinacionais precisam estar cientes e se proteger proativamente", disse Laurenceson. "Nas próximas semanas, podemos esperar ver o que as investigações dessas empresas revelaram".

* Com informações do Australian Strategic Policy Institute, South China Morning Star

Veja também: