As maiores cidades do Japão continuam a emergir do estado de emergência declarado em 7 de abril pelo Primeiro-Ministro Shinzo Abe, que suspendeu o pedido na segunda-feira (25).

Segundo o plano de Tóquio, as solicitações de distanciamento social e fechamento de negócios serão reduzidas em três fases para reabrir a sociedade e reiniciar a economia da capital, ao mesmo tempo em que são tomadas medidas de precaução para evitar uma segunda onda de infecções.

Na primeira fase, a governadora de Tóquio, Yuriko Koike, pediu que museus, bibliotecas e outras instituições culturais reabrissem enquanto os estabelecimentos de alimentação foram solicitados a expandir o horário de funcionamento até às 22h.  

Nesta sexta-feira (29), Koike disse que a segunda fase será iniciada na segunda-feira (1). Cinemas, academias e locais de entretenimento serão instados a reabrir.

Na dia anterior, o governo da prefeitura de Osaka anunciou que os pedidos de fechamento voluntário de negócios onde ocorreram infecções serão suspensos na segunda-feira, removendo todos os pedidos após o governador Hirofumi Yoshimura ter encerrado o estado de emergência em Osaka no dia 21 de maio.

Em entrevista coletiva, Yoshimura disse que é melhor que as empresas “operem tomando medidas cautelares do que fechar por longos períodos de tempo e correr o risco de falir”.

Yuriko Koike entendeu o recado.

Lockdown à moda japonesa

A constituição do Japão não permite ao governo impôr restrições aos cidadãos ou fechar comércios e fábricas.

O decreto de estado de emergência autorizou os governos locais a solicitarem o fechamento temporário de escolas, universidades, creches, cinemas, casas noturnas e outras instalações.

Caso a instituição ou empresa não atenda o pedido das autoridades, o seu nome poderá ser divulgado, envergonhando-a publicamente.

Não há outras penalidades contra tais recusas.

O estado de emergência não dá poder legal para executar ações restritivas extremas. Os pedidos são entendidos como uma "demanda", com uma forte expectativa de que os solicitados obedeçam.

Quando foi decretada a emergência, a perspectiva da terceira maior economia do planeta tornou-se sombria.

"Uma grande queda no PIB de abril a junho é inevitável, porque o setor de serviços, que representa uma grande parte da economia do Japão, deverá fechar", disse Yuki Endo, economista sênior do Instituto de Pesquisa Hamagin. “A maior parte do emprego nesse setor é de meio período. As condições de emprego para trabalhadores em meio período se deteriorarão bastante”.

Inicialmente, as empresas e os trabalhadores mostraram-se dispostos a colaborar com o governo e fizeram grandes esforços para adotar o "novo normal", o genérico prescrito pela OMS que destrói países, contrariando a cultura empresarial japonesa.

Segundo a imprensa local, a maior parte dos negócios no Japão utiliza papel e as transações são realizada via fax. As empresas tentaram colocar boa parte de seus funcionários em regime de teletrabalho, algo praticamente desconhecido no país, mas encontraram dificuldades pitorescas. A primeira delas, é que muitos empregados não tinham mais em casa linha telefônica fixa e computadores ou notebooks, substituidos por smartphones. Uma segunda dificuldade, é que muitos japoneses não tem cozinhas funcionais. Com a súbita demanda, os aparelhos de fax sumiram das lojas e os fornos de microondas subiram 40% após 36 anos de quedas consecutivas de preço. A rotina de três refeições diárias completou o quadro: ao terminar uma refeição ter que começar a preparar a próxima se revelou uma tarefa opressiva e consumidora de tempo. Os funcionários voltaram aos escritórios.

Fornos de microondas desafiam os preços em queda de Tóquio enquanto as pessoas ficam em casa. © Bloomberg
Fornos de microondas desafiam os preços em queda de Tóquio enquanto as pessoas ficam em casa. © Bloomberg

O fechamento das escolas esbarrou nas mesmas dificuldades. Sem computadores em casa, os professores foram obrigados a diariamente visitar cada aluno em suas casas para retirar e entregar tarefas escolares, em papel. Enquanto os professores ficaram descontentes, os pais não apreciaram a obrigação de ajudar nas tarefas. E onde foi possível a modalidade de ensino a distância, alunos, professores e pais detestaram a experiência.

A imprensa local também destaca que o uso de máscaras foi atribulado. Inicialmente, o governo ameaçou prender os vendedores de máscaras que estivessem oferecendo o produto online, e foi alvo de chacotas ao determinar que as máscaras deveriam ser compartilhadas em família. Na tentativa de suprir a demanda, gastou milhões importando máscaras de má qualidade da China, que a população se recusou a utilizar.

Considerando que a Região Metropolitana de Tóquio tem população maior do que a do Canadá e a maior economia metropolitana do mundo, superior ao PIB da Rússia, seria esperado um grande número de casos de Covid-19 com ruas, escritórios e restaurantes lotados de pessoas que sequer utilizavam máscaras.

Por sua vez, o Japão é uma sociedade "super envelhecida" e densamente povoada, com a maior densidade do mundo de cidadãos com mais de 65 anos. Também fica perto da China, onde o vírus SARS-CoV-2 apareceu pela primeira vez e recebeu 925.000 visitantes chineses em janeiro e mais 90.000 em fevereiro.

Consequentemente, o Japão também teria um alto número de infecções.

Não foi o que aconteceu.

Na quinta-feira (28), o Japão, cuja população é de 126,5 milhões de habitantes, havia relatado 16.500 infecções e cerca de 860 mortes atribuídas à Covid-19 e, segundo o governo metropolitano, a média diária de Tóquio nas últimas duas semanas é de nove casos, um aumento de 7% em relação à semana anterior.

Total de casos e óbitos por Covid-19 em cinco prefectures do Japão. De acordo com estimativa de 2016 da ONU, a Região Metropolitana de Tóquio possui mais de 38 milhões de habitantes, a área urbana mais populosa do mundo. Fonte: Wikipedia (2020-05-29)
Total de casos e óbitos por Covid-19 em cinco prefectures do Japão. De acordo com estimativa de 2016 da ONU, a Região Metropolitana de Tóquio possui mais de 38 milhões de habitantes, a área urbana mais populosa do mundo. Fonte: Wikipedia (2020-05-29)

Apesar das previsões sombrias dos políticos japoneses, dos chamados especialistas e da imprensa – especialmente a estrangeira – a situação do Japão em relação à Covid-19 permanece relativamente boa.

A previsão de aumento de casos não se materializou e, por outro lado, o número de novos casos vem diminuindo desde o início de abril.

A premissa básica da estratégia do Japão é "Test-Trace-Treat", ou TTT. Depois que um indivíduo infectado é identificado por sintomas externos, como febre, a infecção é rastreada até a fonte e todos no grupo são isolados e tratados. A rígida Lei de Doenças Infecciosas do Japão exige que todos os infectados com uma doença de Categoria II (como a Covid-19 foi categorizada) devem ser hospitalizados, mesmo que não apresentem sintomas. Como a capacidade não seria suficiente, os pacientes assintomáticos e com sintomas leves foram acomodados em hotéis.

Mas qual seria a razão para a baixa disseminação do vírus?

A explicação da imprensa local é que culturalmente o japonês mantém distanciamento social em todas as situações. O padrão de comunicação é indireto. Não abraçam e beijam pessoas que acabaram de conhecer, não tocam pessoas no ombro enquanto estão conversando, ou trocam apertos de mão. Tocar em alguém sem permissão é percebido como uma invasão de espaço pessoal e da privacidade, fazendo as pessoas se sentirem extremamente desconfortáveis, e esbarrar por acidente é seguido por um imediato pedido de desculpas. Por sua vez, conversar no transporte público é considerado falta de polidez, uma indelicadeza com os demais passageiros, o que ajuda a minimizar a dispersão de gotículas infecciosas.

Mesmo no pagamento do supermercado os japoneses evitam o contato físico.
Mesmo no pagamento do supermercado os japoneses evitam o contato físico.

* Com informações do The Japan Times, Kyodo, Jiji, Worldometers, Wikipedia, Bloomberg, Nikkei

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