Enfrentando um suprimento limitado de vacinas, o Reino Unido embarcou em um ousado experimento de saúde pública no final de 2020, quando o Comitê Conjunto de Vacinação e Imunização (JCVI) aprovou diretriz determinando que a segunda dose da vacina covid da Pfizer seria aplicada até três meses após a 1ª inoculação.

A mudança, sem base em ensaios clínicos, tinha o objetivo de possibilitar administrar a primeira dose da vacina a uma maior parcela da população.

A parlamentar Claudia Webbe chamou a decisão de "perigosamente anticientífica".

As novas diretrizes foram controversas porque os reguladores de medicamentos aprovaram as vacinas da Pfizer/BioNTech e da AstraZeneca com base em resultados de ensaios clínicos que espaçaram as doses em três ou quatro semanas.

Depois que a Grã-Bretanha decidiu estender o intervalo entre as doses, a Pfizer e a BioNTech disseram que não havia dados para apoiar a mudança.

A Pfizer enfatizou que a "segurança e eficácia" do novo regime de aplicações não foi avaliada em ensaio clínico.

“[Nosso] estudo. . . foi projetado para avaliar a segurança e eficácia da vacina após um esquema de duas doses, separadas por 21 dias”, defendeu a empresa.

“A segurança e eficácia da vacina não foram avaliadas em esquemas de dosagem diferentes, pois a maioria dos participantes do ensaio recebeu a segunda dose dentro da janela especificada no desenho do estudo”, explicou a Pfizer.

Crucialmente, disse: “Não há dados que demonstrem que a proteção após a primeira dose é mantida após 21 dias”.

A farmacêutica disse que decisões sobre os regimes posológicos alternativos estão nas mãos das autoridades de saúde, mas ressaltou que cada pessoa deve receber a máxima proteção, “o que significa imunização com duas doses da vacina”.

A Agência Reguladora de Medicamentos e Produtos de Saúde (MHRA) do Reino Unido confirmou a alteração da posologia.

A Dra. Helen Salisbury, médica em Oxford, questionou o julgamento e a modelagem de dados por trás da decisão. “O que diz a ciência? Não sabemos”.

A posologia de 12 semanas foi adotada pelo Ministério da Saúde no regime de aplicação da vacina da Pfizer no Brasil. Na justificativa, a pasta citou as diretrizes britânicas.
A posologia de 12 semanas foi adotada pelo Ministério da Saúde no regime de aplicação da vacina da Pfizer no Brasil. Na justificativa, a pasta citou as diretrizes britânicas.

Variantes

Em fevereiro, o estudo Vaccine-induced immunity provides more robust heterotypic immunity than natural infection to emerging SARS-CoV-2 variants of concern, realizado pelo Professor de Virologia da Universidade de Oxford William James e colegas, mostrou que os anticorpos das pessoas foram moderadamente eficazes contra o coronavírus SARS-CoV-2 chinês após a primeira dose da vacina da Pfizer/BioNTech, menos eficazes contra a variante inglesa (Kent) e incapazes de neutralizar a variante sul-africana.

"Após uma única vacinação, que induziu apenas títulos de anticorpos homotípicos neutralizantes modestos, a neutralização contra as VOCs [variants of concern] foi completamente anulada na maioria dos vacinados", escrevem os pesquisadores.

"Os dados indicam que as VOCs podem evitar as respostas neutralizantes protetoras induzidas por infecção anterior e, em menor grau, pela imunização, particularmente após uma única dose, mas o impacto das VOCs nas respostas das células T parece menos acentuado".

Para o Professor Paul Morgan, Diretor do Instituto de Pesquisa de Imunidade da Universidade de Cardiff, a mensagem do estudo é fazer com que as segundas doses sejam administradas o mais rápido possível – "talvez assim que todos os grupos de alto risco tenham tomado as primeiras doses", disse à BBC em fevereiro.

“Apoiei a decisão pragmática de adiar as segundas doses para imunizar mais pessoas o mais rápido possível e ainda apoio. No entanto, este estudo mostra que a ampla resposta imunológica necessária para lidar com as variantes atuais e futuras depende realmente da dose de reforço", disse Morgan.

Os países precisarão considerar se as variantes que estão circulando em sua região podem aumentar o risco de infecção após apenas uma dose da vacina.

“As pessoas são teoricamente vulneráveis entre a primeira e a segunda dose”, disse à Nature Stephen Griffin, virologista da Universidade de Leeds. “O que funcionou no Reino Unido foi manter as restrições ao mesmo tempo que a vacinação”.

A bula brasileira da vacina covid da Pfizer/BioNTech mantém a recomendação de intervalo de 21 dias entre as doses e ressalta que "os indivíduos podem não estar protegidos até pelo menos 7 dias após a segunda dose da vacina".
Bula da vacina da Pfizer/BioNTech
Bula da vacina da Pfizer/BioNTech
Atualização 04/06

A vacina Pfizer-BioNTech induz uma resposta mais fraca de anticorpos contra a variante Delta, concluiu o estudo Neutralising antibody activity against SARS-CoV-2 VOCs B.1.617.2 and B.1.351 by BNT162b2 vaccination.

Anticorpo neutralizante (nAbs) em resposta a B.1.617.2 (delta) após a vacinação de mRNA em 250 pessoas (idade média de 42 anos, saudável):

- A evasão imunológica é semelhante a B.1.351 (alta)
- 2 doses de vacina -> altos níveis de nAbs

Os dados de pesquisadores do Instituto Francis Crick e do Centro de Pesquisa Biomédica UCLH mostraram uma redução na eficácia da vacinação, especialmente após a primeira injeção, sugerindo a reversão da orientação do governo britânico de estender o intervalo, devendo ser aplicada a 2ª dose o mais rápido possível decorridas 3 semanas após a 1ª dose.

"Esses dados, portanto, sugerem que os benefícios de adiar a segunda dose, em termos de cobertura populacional mais ampla e NAbTs individuais aumentados após a segunda dose, devem agora ser pesados contra a eficácia diminuída em curto prazo, no contexto da disseminação de B .1.617.2. Em todo o mundo, nossos dados destacam a necessidade contínua de aumentar o fornecimento de vacinas para permitir que todos os países estendam a proteção da segunda dose o mais rápido possível", diz o texto.

Eleanor Riley, professora de imunologia e doenças infecciosas da Universidade de Edimburgo, advertiu que a resposta de anticorpo não foi o único fator que ditou a eficácia de uma inoculação.

"Esses dados não podem nos dizer se a vacina será menos eficaz na prevenção de doenças graves, hospitalização e morte; precisamos esperar pelos dados reais sobre esses resultados'”  (The Financial Times)

Ciência de press release

Um estudo da Universidade de Birmingham, em colaboração com a Public Health England (PHE), divulgado nesta sexta-feira (14) em comunicado, sugere que atrasar a segunda dose da vacina da Pfizer poderia aumentar as respostas de anticorpos após a segunda inoculação em mais de três vezes em pessoas com mais de 80 anos.

O estudo Extended interval BNT162b2 vaccination enhances peak antibody generation in older people (1), ainda não publicado, é o primeiro a comparar diretamente as respostas imunológicas da vacina da Pfizer a partir do intervalo de dosagem de três semanas, testado em ensaios clínicos, e o intervalo estendido de 12 semanas, determinado pelas autoridades britânicas.

"Os pesquisadores da Universidade de Birmingham, trabalhando em colaboração com a Public Health England, disseram que suas descobertas justificavam a controversa decisão do governo do Reino Unido em dezembro de esperar 12 semanas entre a primeira e a segunda doses, em vez dos 21 dias recomendados pelos testes clínicos da Pfizer", escreveu o Financial Times (FT).

“A orientação de priorizar as primeiras doses, de modo a proporcionar um maior impacto à saúde pública e salvar mais vidas, foi considerado bastante ousado na época, mas os dados mostram que valeu a pena”, disse ao FT a Dra. Gayatri Amirthalingam, co-autora do artigo e Epidemiologista Consultora da PHE.

A Dra. Gayatri Amirthalingam também é citada no comunicado de Birmingham.

“As respostas de anticorpos mais altas em pessoas que receberam duas doses da vacina Pfizer usando um intervalo estendido de 12 semanas fornecem evidências adicionais de apoio dos benefícios da abordagem do Reino Unido para priorizar a primeira dose da vacina", disse a consultora da PHE.

Na avaliação do Dr. Peter English, que no passado chefiou o BMA Public Health Medicine Committee, o resultado da pesquisa foi o esperado.

“Como muitos vacinologistas teriam previsto, o pico de resposta de anticorpos foi consideravelmente maior (3,5 vezes mais alto) nos participantes do grupo de intervalo prolongado", escreve o especialista no Science Media Centre.

"O vírus está intimamente relacionado a outros coronavírus sobre os quais sabemos muito; e temos pesquisado vacinas há décadas (e outras vacinas contra o coronavírus há mais de uma década). Embora ainda não tivéssemos observado exatamente como as vacinas contra a SARS-CoV-2 funcionariam, já tínhamos motivos para fazer previsões", explica Peter English.

“Nós sabíamos, por exemplo, que intervalos primários-reforço mais longos geram maior imunidade. Com a vacina contra o papilomavírus humano (HPV), por exemplo, a orientação diz que se a segunda dose (do regime de duas doses) for dada antes de 6 meses após a primeira dose, é improvável que gere imunidade boa o suficiente, e deve ser repetido pelo menos 6 meses após a primeira dose (2)".

A pesquisa foi financiada conjuntamente pela UK Research and Innovation (UKRI) e pelo National Institute for Health Research (NIHR) e apoiada pela British Society for Immunology.

O experimento envolveu 172 pessoas com idades entre 80-99, que receberam cada uma duas injeções da vacina Pfizer. Do grupo, 73 tiveram um intervalo de 12 semanas entre as doses e 99 um intervalo de três semanas.

A equipe mediu os níveis de anticorpos dos receptores contra a proteína spike SARS-CoV-2 e avaliou como as células imunes chamadas células T, que podem ajudar a manter os níveis de anticorpos ao longo do tempo, responderam à vacinação.

O estudo mediu as respostas dos anticorpos 5-6 semanas após a primeira dose da vacina (2-3 semanas após a segunda dose para participantes que receberam o intervalo primário-reforço de 3 semanas mais curto, quando é provável que a resposta do anticorpo tenha atingido o pico); e novamente cerca de 8 semanas depois (cerca de 10 semanas após a segunda dose para aqueles no grupo de intervalo mais curto, e cerca de 2-3 semanas após a segunda dose para aqueles no grupo de intervalo estendido).

Foram analisados também anticorpos para partes do vírus que não estão incluídas nas vacinas, para avaliar se os participantes foram expostos e se tornaram imunes ao vírus. Aqueles com tal imunidade mostraram um pico de anticorpos ainda mais alto, como seria de esperar.

Os níveis máximos de anticorpos neutralizantes, alcançados 2-3 semanas após a segunda dose, foram 3,5 vezes maiores em média no grupo com o intervalo estendido. Porém, o intervalo de 3 semanas gerou células T mais rapidamente do que o intervalo de 12 semanas e atingiu um pico mais alto.

“Espero que os participantes continuem sendo acompanhados, para observar se e com que rapidez os níveis de anticorpos irão diminuir com o tempo. Os autores referem-se a estudos recentes que mostram que, a partir de 43 dias após a vacinação, os níveis de anticorpos caem pela metade a cada 52 dias. Começar de um ponto de partida mais alto no grupo de intervalo estendido provavelmente significará que levará mais tempo antes que os níveis de anticorpos caiam muito para fornecer proteção", comenta o Dr. Peter English.

"As descobertas dos autores de que aqueles no intervalo prime-boost mais curto pareciam ter uma resposta imune celular mais forte é intrigante. Eu me pergunto se é um efeito genuíno do mundo real, ou talvez um artefato de, digamos, o momento dos exames de sangue. Como se costuma dizer, será de interesse avaliar a indução relativa de células plasmáticas de longa vida e células B de memória após cada regime, a fim de avaliar potenciais correlatos celulares da resposta de anticorpos", escreve English.

A equipe descobriu que dentro do grupo de intervalo de três semanas, 60% tiveram uma resposta celular confirmada em duas a três semanas após a segunda dose – embora tenha caído para apenas 15% oito a nove semanas depois.

A proporção de participantes mostrando uma resposta celular no grupo de intervalo de 12 semanas foi de apenas 8% em cinco a seis semanas após a primeira dose, mas aumentou para 30% duas a três semanas após a segunda injeção.

“O significado dessas respostas celulares ainda não está claro”, disse Helen Parry, NIHR Academic Clinical Lecturer na University of Birmingham e autora principal do artigo. “Vamos acompanhar o estudo desses pacientes e ver como os dados de anticorpos e celulares mudam nos próximos seis meses”.

Os autores também ainda não sabem por quanto tempo a resposta aumentada de anticorpos irá durar ou se ela se traduzirá em maior proteção contra infecções e doenças.

Notas

(1) Parry H, Bruton R, Stephens C, et al. Extended interval BNT162b2 vaccination enhances peak antibody generation in older people [preprint]. National Infection Service & University of Birmingham; Received 13 May 2021

(2) Public Health England. Chapter 18a: Human Papillomavirus (HPV). Immunisation against infectious disease (“The Green Book”) 2019; 1-19.

(3) Voysey M, Clemens SAC, Madhi SA, et al. Single Dose Administration, And The Influence Of The Timing Of The Booster Dose On Immunogenicity and Efficacy Of ChAdOx1 nCoV-19 (AZD1222) Vaccine. 2021

* Com informações do Financial Times, University of Birmingham, Science Media Centre

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