A preservação da liberdade civil e da economia, e a descrença das autoridades de saúde suecas nas vacinas como solução para a pandemia, posicionou a Suécia como controle de um experimento global marcado por medidas restritivas severas impostas por governantes de muitos países no combate a um vírus.

O britânico The Guardian chamou a abordagem sueca de "uma catástrofe" em formação, enquanto a CBS News disse que o país nórdico tinha se tornado "um exemplo de como não lidar com a covid-19".

Entretanto, a taxa de mortalidade da Suécia em 2020 foi menor do que a maioria dos países da Europa e sua economia sofreu muito menos.

A veiculação de desinformação contra a estratégia de contenção da Suécia, até então um país modelo, subsiste em 2021.

"Ao contrário de seus vizinhos europeus, as autoridades suecas não instituíram medidas de lockdown para combater a epidemia de Covid-19. Phil Black, da CNN, analisa como isso afetou o surto no país", diz a chamada da reportagem Deaths Soar In Country That Didn’t Lock Down, de 29 de abril.

Em contraste com seus vizinhos europeus, a Suécia está recebendo turistas; a população não deixou de ir a lojas, bares e restaurantes, frequentar academias e parques, ou visitar amigos e parentes; empresas e escolas permanecem abertas.

Hoje, a Suécia é mais livre e saudável do que praticamente qualquer outro país da Europa.

Em abril do ano passado, o renomado epidemiologista sueco Johan Giesecke, atual conselheiro do Diretor-Geral da OMS, previu que os habitantes de uma democracia se cansariam rapidamente do lockdown e que no longo prazo não era uma opção viável.

Giesecke foi a primeira voz a falar abertamente contra os lockdowns.

Mas, como se viu, a estratégia do lockdown permaneceu muito popular entre a maioria da população em toda a Europa durante a maior parte do período.

“As pessoas estavam dispostas a abrir mão de mais liberdade do que eu pensava. Isso me preocupa – existem muitas regras democráticas e liberdades que foram restringidas. Acho que pode ser um dos resultados perigosos desta pandemia”, reavaliou o cientista em abril deste ano em entrevista à Freddie Sayers, Editor-Executivo do UnHerd

“Veja as coisas boas com o sistema sueco…. Uma são as escolas: não estamos destruindo o futuro das crianças. Outra é que a Suécia cumpriu os seus acordos internacionais – por exemplo, na UE não se espera que feche as suas fronteiras com outros países, mas isso já aconteceu em vários países da Europa. Tornamos possível que pequenas empresas, como cafés ou lojas de bicicletas, sobrevivam à pandemia. Mantivemos a democracia. Temos pessoas de confiança. Eu acho que há uma série de benefícios em não ter um lockdown severo e mais deles virão conforme fizermos pesquisas sobre isso no futuro”, ponderou Giesecke.

A "estratégia incomum" da Suécia parece ter sido a melhor maneira de abordar a pandemia, desobrigando o país do custo imensurável para a liberdade que as nações que estiveram sob medidas severas de lockdown enfrentarão eventualmente.

Média móvel de 7 dias de óbitos por covid-19 na Suécia. Fonte/arte: © Worldometer
Média móvel de 7 dias de óbitos por covid-19 na Suécia. Fonte/arte: © Worldometer

No artigo Lockdown isn’t working, publicado em novembro de 2020 na revista britânica The Spectator, os autores Martin Kulldorff e Jay Bhattacharya entendem o lockdown como uma forma da sociedade transferir os riscos da pandemia para os trabalhadores de menor renda.

"A atual estratégia de lockdown protegeu jovens estudantes de baixo risco e profissionais que podem trabalhar em casa. Em contraste, as pessoas mais velhas de alto risco da classe trabalhadora foram forçadas a trabalhar, arriscando suas vidas. Com os danos colaterais dos lockdowns prejudicando desproporcionalmente as pessoas de baixa renda houve um golpe duplo contra a classe trabalhadora".

"Nós transferimos 'com sucesso' o risco da classe profissional para a classe trabalhadora com a nossa política atual de lockdown", concluem Kulldorff e  Bhattacharya sobre as medidas impostas no Reino Unido.

Variante Delta

Na sexta-feira (30), Anders Tegnell, epidemiologista-chefe da Agência de Saúde Pública da Suécia, advertiu contra conclusões precipitadas sobre a variante Delta, argumentando que são necessários mais dados sobre a infecciosidade da cepa.

A variante Delta, que foi detectada pela primeira vez na Índia, se espalhou para vários países em um curto espaço de tempo. No início de julho, era responsável por 90% dos novos casos no Reino Unido e nos EUA por cerca de 80%.

Tegnell observou que a variante está circulando na Suécia “há muito tempo” com pouco efeito, especialmente em ambientes de alto risco, como lares de idosos.

“Na Suécia, ela domina completamente agora. Temos um certo aumento na disseminação da infecção, principalmente nas grandes cidades. Mas é quase que exclusivamente entre os grupos não vacinados”, disse Tegnell ao diário Aftonbladet, de Amsterdam.

"O aumento se deve ao fato de que nas faixas etárias mais jovens as pessoas não mantêm distância e temos um aumento entre os viajantes suecos ao estrangeiro, que levam a infecção para casa”, explicou Tegnell.

Dados divulgados pelos Centros de Controle e Prevenção de Doenças (CDC) sugerem que a variante Delta é mais transmissível e pode causar doenças mais graves. O New York Times e outros veículos de comunicação publicaram matérias relatando que o CDC agora acredita que a variante é tão contagiosa quanto a catapora – mas a comparação não pareceu impressionar o epidemiologista sueco.

“É difícil dizer o quão contagioso é a Delta. No caso da catapora, já conseguimos acompanhar a doença há vários anos. A infecciosidade parece ser muito desigual, as vezes uma pessoa infecta cem pessoas, e temos outros momentos em que uma pessoa infectada não infecta ninguém", disse Tegnell.

Contudo, Tegnell advertiu contra ficar confortável demais. Ele enfatizou que a Suécia ainda está em uma pandemia e exortou a população, especialmente aqueles em grupos de idades mais jovens, a se vacinarem.

Atualização 08/08/2021

De acordo com dados do Ministério da Saúde de Israel, reportados pela TV israelense neste domingo (8), quatorze pessoas foram diagnosticadas com covid-19 apesar de terem sido inoculadas com uma terceira dose da vacina Pfizer.

Onze dos 14 casos detectados tem mais de 60 anos e os demais são de pessoas imunocomprometidas, informou o Channel 12. Dois pacientes estão hospitalizados.

O número limitado de casos não é suficiente para os médicos tirarem conclusões quanto à efetividade da terceira dose no combate à variante Delta.

* Com informações do The Times of Israel

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