O Dr. Johan Giesecke, Professor Emérito do Karolinska Institute em Estocolmo, ex-Cientista-Chefe do Centro Europeu para Controle e Prevenção de Doenças (ECDC) e ex-Epidemiologista-Chefe da Suécia, atualmente é conselheiro do Diretor-Geral da Organização Mundial da Saúde (OMS).

Há um ano, quando o mundo estava fechando, Giesecke foi a primeira voz a falar abertamente e com força contra os lockdowns, causando fortes reações entre os ativistas que se apaixonam por suas próprias meias-verdades.

Na época, predominava o modelo computacional do epidemiologista britânico e professor de biologia matemática Neil Ferguson, do Imperial College London.

Especializado nos padrões de propagação de doenças infecciosas em humanos e animais, Ferguson ganhou celebridade como Mr. Lockdown, o mais determinado proponente dos lockdowns.

Curiosamente, Ferguson, que recomendou a estratégia do lockdown à China, não acreditava que as medidas autoritárias seriam aceitas pelas populações dos países ocidentais, tendo se surpreendido com a recepção europeia do lockdown rigoroso, primeiro decretado pelo governo italiano e seguido por outros líderes em pânico.

Em abril de 2020, as discordâncias de estratégias de combate à pandemia do vírus de Wuhan entre Neil Ferguson e Johan Giesecke eram irreconciliáveis, como mostram as entrevistas de ambos à Freddie Sayers, Editor-Executivo do UnHerd.

Recentemente, Mr. Lockdown mostrou estar bem menos convencido dos benefícios da imposição de restrições draconianas para conter o vírus.

"Tudo o que um lockdown faz é reduzir os níveis de infecção durante o período em que está em vigor", disse Ferguson à BBC em outubro passado. "Depois de liberar o lockdown, os níveis de infecção começam a subir novamente".

Exatamente um ano após a entrevista à UnHerd, Giesecke cumpre a promessa de revisitar com Sayers desenvolvimentos ocorridos nos últimos 12 meses na Suécia.

"Seus modos são tão rudes quanto antes, mas um pouco mais cautelosos desta vez, após uma luta de um ano que se tornou, na Suécia, tão política e pessoal quanto no Reino Unido e na América. A mídia sueca não poupou críticas ao professor aposentado", destaca Freddie Sayers.

Mas Giesecke não esconde seus erros. Quando questionado sobre sua previsão de que os países acabariam com resultados semelhantes depois de um ano, ele prontamente admite que estava errado.

“Uma das coisas que eu entendi errado há um ano é a taxa de propagação da doença. Achei que fosse se espalhar mais rápido. E também pensei que seria mais semelhante em países diferentes. Podemos ver agora que existem grandes diferenças nas taxas de propagação entre os países. Pode ter a ver com lockdown, pode ter a ver com costumes culturais nesses países. Mas há uma grande diferença entre os países”, reconhece Giesecke.

A diferença comumente citada é o número de mortes por covid-19 da Suécia por milhão, excedendo dramaticamente seus vizinhos escandinavos, considerado uma prova sólida de que a estratégia sueca falhou.

Covid-19: Óbitos acumulados por milhão de habitantes na Suécia, Dinamarca, Finlândia e Noruega. Fonte: Our World in Data
Covid-19: Óbitos acumulados por milhão de habitantes na Suécia, Dinamarca, Finlândia e Noruega. Fonte: Our World in Data

Giesecke discorda da comparação. A Noruega e a Finlândia seriam casos isolados da Europa, outliers.

“As diferenças entre a Suécia e seus vizinhos são muito maiores do que as pessoas percebem de fora – diferentes sistemas, diferentes tradições culturais".

Giesecke menciona, entre outros fatores, que a Noruega e a Finlândia são países escassamente povoados. "Há menos pessoas por quilômetro quadrado nesses dois países. Há também muito menos pessoas que nasceram fora da Europa e vivem nesses dois países".

Se a Suécia tivesse instituído um lockdown rigoroso e fechado a fronteira, sua taxa de mortalidade estaria mais próxima de seus vizinhos nórdicos? “Talvez não”, diz Giesecke, “acho que ainda teríamos mais mortes do que eles”.

Mas "se você comparar a Suécia com outros países europeus é o contrário. No ranking de mortalidade excessiva, a Suécia está em algum lugar no meio ou abaixo do meio dos países europeus".

Em comparação com o Reino Unido, a Suécia está em 25º lugar no mundo em termos de mortes por covid por milhão, e o Reino Unido está em 11º lugar – portanto, na medida mais importante de todas, a Suécia tem um resultado melhor.

Mortes por covid-19 por milhão de habitantes. Fonte: Statista (21 de abril de 2021)
Covid-19 - Mortes acumuladas por milhão de habitantes. Fonte: Statista (21 de abril de 2021)
Covid-19 - Média móvel de 7 dias de óbitos por milhão de habitantes. Fonte: Johns Hopkins University
Covid-19 - Média móvel de 7 dias de óbitos por milhão de habitantes. Fonte: Johns Hopkins University

De fato, como mostra o gráfico abaixo, há padrões notavelmente semelhantes de mortes nos últimos 12 meses nos dois países.

Covid-19 - Média móvel de 7 dias de óbitos por milhão de habitantes. Fonte: Johns Hopkins University
Covid-19 - Média móvel de 7 dias de óbitos por milhão de habitantes. Fonte: Johns Hopkins University

“Eles são muito semelhantes”, diz Gieseke, “E ainda um dos países teve três lockdowns severos e o outro teve apenas medidas voluntárias ou em sua maioria voluntárias".

"Isso nos diz algo", acrescenta Gieseke. “Lockdowns podem não ser uma ferramenta muito útil a longo prazo”.

Giesecke também foi crítico, no ano passado, das previsões de Neil Ferguson de até 510.000 mortes no Reino Unido por uma epidemia não mitigada, 250.000 por uma epidemia mitigada e apenas 20.000 com uma estratégia de supressão.

Com mais de 130.000 mortes no Reino Unido, Freddie Sayers pergunta à Gieseke se os números de Ferguson não parecem mais tão errados.

“Você pode estar certo. Há uma grande diferença entre meio milhão e 130.000 – mas, sim”.

"Juntos, eu sugiro, esses erros – uma estimativa errada das fatalidades, a porcentagem errada de pessoas infectadas e uma expectativa excessivamente pessimista da implantação da vacina – somam-se para obter um quadro geral muito errado", admite Gieseke.

"Então, isso significa que sua rejeição aos lockdowns naquela fase também estava errada?", pressiona Sayers.

"Não. A Suécia teve restrições bastante severas, mas nós as baseamos na participação voluntária dos habitantes em vez de usar leis e polícia. Muitas pessoas no mundo parecem pensar que a Suécia não fez nada a respeito da pandemia. Isto é errado. Toda a população mudou seu modo de vida e isso teve efeitos profundos na vida diária de milhões de suecos, mesmo que você não fosse multado se estivesse no lugar errado na hora errada. Então, eu ainda defenderia o modelo sueco, mesmo sabendo de tudo isso”, respondeu Gieseke, ressaltando que os sucessos da abordagem sueca no ano passado devem ser considerados no balanço.

“Veja as coisas boas com o sistema sueco…. Uma são as escolas: não estamos destruindo o futuro das crianças. Outra é que a Suécia cumpriu os seus acordos internacionais – por exemplo, na UE não se espera que feche as suas fronteiras com outros países, mas isso já aconteceu em vários países da Europa. Tornamos possível que pequenas empresas, como cafés ou lojas de bicicletas, sobrevivam à pandemia. Mantivemos a democracia. Temos pessoas de confiança. Eu acho que há uma série de benefícios em não ter um lockdown severo e mais deles virão conforme fizermos pesquisas sobre isso no futuro”.

Um ano atrás, Giesecke previu que os habitantes de uma democracia se cansariam rapidamente do lockdown e que a prisão domiciliar de longo prazo não era uma opção viável. Mas, como se viu, o lockdown permaneceu muito popular entre a maioria da população em toda a Europa durante a maior parte do período.

“As pessoas estavam dispostas a abrir mão de mais liberdade do que eu pensava. Isso me preocupa – existem muitas regras democráticas e liberdades que foram restringidas. Acho que pode ser um dos resultados perigosos desta pandemia”.

Em Lockdown isn’t working, Martin Kulldorff e Jay Bhattacharya entendem o lockdown como uma forma da sociedade transferir os riscos da pandemia para os trabalhadores de menor renda.

"A atual estratégia de lockdown protegeu jovens estudantes de baixo risco e profissionais que podem trabalhar em casa. Em contraste, as pessoas mais velhas de alto risco da classe trabalhadora foram forçadas a trabalhar, arriscando suas vidas. Com os danos colaterais dos lockdowns prejudicando desproporcionalmente as pessoas de baixa renda houve um golpe duplo contra a classe trabalhadora".

"Nós transferimos 'com sucesso' o risco da classe profissional para a classe trabalhadora, com a nossa política atual de lockdown", escrevem Kulldorff e  Bhattacharya.

Giesecke lamenta também a recente legislação na Suécia que torna os lockdowns constitucionalmente possíveis no futuro. “Há uma nova lei – uma lei pandêmica – que dá ao governo mais poder do que antes e restringe parte da liberdade da população sueca ... Em certa medida, ela transferiu o poder do parlamento, o que é uma coisa nova na Suécia, pelo menos em tempos de paz”.

Velho Normal

Perguntado sobre o futuro, Giesecke especulou sobre vários cenários:

“O vírus pode sofrer mutação e se tornar menos patogênico do que é agora. Pode ser que volte com uma nova forma a cada outono. E pode ser que todos tenhamos que tomar uma nova vacina covid todo ano, feita sob medida para uma cepa".

"Mas o vírus está aqui para ficar – não vamos nos livrar dele”.

O que não quer dizer que a pandemia seja o prenúncio de um “novo normal”, ou seja parte de um “grande reset”.

Giesecke está confiante de que o velho normal retornará.

“Se você for vacinado com duas doses e esperar o número certo de semanas, então ... você deve ser capaz de viver como vivia antes da pandemia. Esta doença às vezes é vista como algo sobrenatural, místico – mas é uma doença viral como todas as outras doenças. Mais perigosa do que algumas delas, mas não é única. Portanto, uma vacina adequada usada corretamente protege você e significa que você não infecta outras pessoas também ... Nenhuma vacina é 100% eficaz, mas não temos essa discussão sobre qualquer outra vacina”.

No término da entrevista, Sayers pergunta se Giesecke se arrepende de ter entrado no debate tão publicamente e de se tornar uma figura tão controversa.

“Espero ter feito algumas coisas úteis para a população sueca. Se foi útil para mim ou não ... a discussão na Suécia foi muito politizada e muito divisiva”.

Giesecke teve uma longa e prestigiosa carreira no topo da medicina internacional e acredita que a história o julgará com bondade.

“Acho que acertei na maioria das coisas”.

* Com informações de Freddie Sayers/UnHeard, The Spectator

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