O Departamento de Defesa (DoD) dos Estados Unidos foi notificado de que as ações do submarino nuclear são avaliadas como uma violação do Direito Internacional.

A Rússia entregou uma nota ao adido militar dos EUA em conexão com o incidente do submarino americano detectado próximo das Ilhas Kuril, disse o Ministério da Defesa russo em comunicado neste sábado (12).

"Em 12 de fevereiro, um representante do escritório do adido militar para questões de defesa na Embaixada dos EUA em Moscou recebeu uma nota na Direção Principal da Cooperação Militar Internacional do Ministério da Defesa da Rússia em conexão com a violação da fronteira da Rússia pelo submarino da Marinha dos EUA".

O ministério disse ser imperioso os EUA tomarem medidas para afastar tais situações no futuro. O representante do DoD foi informado de que as ações provocativas do navio da Marinha dos EUA representaram uma ameaça à segurança nacional da Rússia.

Segundo os militares russos, um submarino da classe Virginia foi detectado neste sábado às 10h40 (horário de Moscou) perto da ilha Iturup das Ilhas Kuril.

Submarinos da classe Virginia são armados com mísseis de cruzeiro e anti-navio, assim como torpedos Mark 48. A Marinha dos EUA os destaca como empregando o mais recente em "tecnologia furtiva, de coleta de informações e sistemas de armas". Custando cerca de US$ 3,5 bilhões cada para serem construídos, os navios são frequentemente usados para vigilância, reconhecimento e coleta de informações.

A tripulação da fragata Marechal Shaposhnikov usou meios apropriados e o submarino recuou das águas territoriais russas, disse o ministério.

Oficiais da Marinha dos EUA negaram categoricamente as afirmações.

“Não há verdade nas alegações russas de nossas operações em suas águas territoriais”, disse o Capitão Kyle Raines, porta-voz do Comando Indo-Pacífico dos EUA, em um comunicado. “Não comentarei sobre a localização precisa de nossos submarinos, mas voamos, navegamos e operamos com segurança em águas internacionais”.

Questionado se houve contato entre os dois navios em águas internacionais, Raines disse que não houve nenhum encontro entre as duas forças.

Um porta-voz do Pentágono, solicitado pela AFP para comentar, disse apenas: "Estamos cientes das reportagens da imprensa sobre um suposto incidente naval no Pacífico. Não podemos confirmar os detalhes desses relatos neste momento".

Na segunda-feira (7), o governo japonês expressou objeção às manobras militares russas programadas nas Ilhas Kuril, disse o Secretário-Chefe do Gabinete japonês, Hirokazu Matsuno, após Moscou ter informado Tóquio sobre os exercícios de disparo perto da ilha Kunashir na terça-feira (8). Mais de 20 navios de guerra foram enviados para os mares perto das ilhas.

"A este respeito, protestamos contra a Rússia através de canais diplomáticos. O fortalecimento da presença militar russa nos Territórios do Norte é inaceitável e contradiz a posição do governo", disse Hirokazu Matsuno em coletiva de imprensa.

O Primeiro-Ministro Fumio Kishida enfatizou o diálogo com a Rússia para marcar a reivindicação do Japão às ilhas disputadas, que ficam no extremo sul do arquipélago Kuril e são conhecidas como Territórios do Norte no Japão.

"É extremamente lamentável que 76 anos após a guerra, a questão dos Territórios do Norte não tenha sido resolvida e um tratado de paz entre o Japão e a Rússia não tenha sido acordado", disse Kishida. “Perseverarei nas conversas sobre as ilhas”.

"Acreditamos que a ausência do tratado de paz em nossas relações é absurda", disse o presidente russo Vladimir Putin à sessão plenária do Fórum Econômico Oriental de setembro. Ele disse que a Rússia queria uma normalização completa das relações com o Japão, mas, em alusão ao grande contingente de tropas dos EUA no território japonês, disse que "deve haver garantias contra surpresas da possível implantação das forças armadas americanas, muito menos sistemas de mísseis, perto de nossas fronteiras".

A cautela do Japão em manter boas relações com a Rússia decorre de seus laços econômicos e energéticos com Moscou, que são menos extensos do que os de outro aliado hesitante dos EUA, a Alemanha, mas ainda significativos.

Em uma coletiva de imprensa, o presidente Biden disse que os EUA não irão permitir a operação do Nord Stream 2 – um gasoduto para transportar gás natural da Rússia para a Alemanha – se Moscou invadir a Ucrânia. O chanceler alemão expressou apoio, mas não disse explicitamente que o projeto seria interrompido.

Enquanto a Alemanha depende do produto russo para 50% de seu consumo, o Japão importa da Rússia apenas 10% de suas necessidades de gás natural.

Contudo, as tradings japonesas Mitsui e Mitsubishi têm uma participação combinada de 22,5% em um projeto de petróleo e gás na ilha russa Sakhalin.

"Estou muito preocupado com os danos à atividade econômica e com as opiniões dos investidores se forem impostas sanções à Rússia", disse o diretor financeiro da Mitsubishi, Kazuyuki Masu, na semana passada, segundo o Wall Street Journal.

Uma pesquisa do jornal japonês Nikkei no final de janeiro mostrou uma divisão uniforme entre pessoas que achavam que o Japão deveria se alinhar com os EUA em quaisquer sanções contra a Rússia relacionadas à crise da Ucrânia e aqueles que achavam que o Japão deveria seguir seu próprio curso.

O embaixador da Rússia no Japão disse na semana passada que Moscou consideraria quaisquer sanções impostas sobre a crise da Ucrânia como equivalentes ao rompimento das relações.

O recém-chegado embaixador dos EUA no Japão criticou o embaixador russo e disse que Washington apoiava a reivindicação japonesa para o território disputado.

A porta-voz do Ministério das Relações Exteriores da Rússia, Maria Zakharova, culpou na terça-feira (8) os EUA pelo que ela chamou de "manter as reivindicações territoriais artificiais do Japão contra a Rússia à tona, a fim de impedir os dois países de realizarem cooperação em larga escala e de longo prazo".

Disputa

Os Territórios do Norte das Ilhas Kuril foram ocupados pela União Soviética em 1945 mas são reivindicados pelo Japão até os dias atuais. Mapa: Global Security
Os Territórios do Norte das Ilhas Kuril foram ocupados pela União Soviética em 1945 mas são reivindicados pelo Japão. Mapa: Global Security

Para a Rússia, as Ilhas Kuril são despojos de guerra, ocupadas em 1945 pela União Soviética (URSS).

Para o Japão, as ilhas são território roubado, perdido para a agressão soviética e interferência ocidental. Mais de 75 anos após o fim da Segunda Guerra Mundial, os dois países permanecem em um impasse sobre os Territórios do Norte das Ilhas Kuril.

O Japão reivindica as ilhas Iturup, Kunashir, Shikotan e Habomai, conhecida na Rússia como Southern Kurils, citando o tratado bilateral de 1855 sobre comércio e fronteiras e, portanto, a URSS não tinha o direito de capturá-las.

Em 1956, a União Soviética e o Japão assinaram uma declaração conjunta na qual Moscou concordou em considerar a possibilidade de transferir as ilhas Habomai e Shikotan para o Japão após a conclusão de um tratado de paz, enquanto as ilhas Kunashir e Iturup não foram mencionadas no documento em que a União Soviética esperava pôr fim à disputa.

Negociações subsequentes nunca resultaram em um tratado de paz. Uma séria oposição surgiu dos Estados Unidos, que acredita-se ter ameaçado endurecer o processo de retorno de Okinawa sob a soberania japonesa se o Japão concordasse com a transferência de apenas duas das quatro Ilhas Kuril.

A Rússia construiu instalações militares nas duas maiores ilhas nos últimos anos. Sistemas de mísseis antiaéreos foram adicionados no final de 2020 ao lado de lançadores de mísseis implantados alguns anos antes. Cerca de 3.500 soldados russos estão estacionados lá, de acordo com o Ministério da Defesa japonês.

Uma pesquisa de 2016 mostrou que 80% dos russos se opunham ao retorno das ilhas disputadas ao Japão.

Um fator importante para a Rússia manter as ilhas é a estratégia militar: canais em águas profundas entre as Kuril permitem aos submarinos russos um corredor para o Oceano Pacífico.

Com a perspectiva dos Estados Unidos estabelecerem um posto militar nas Kuril se forem devolvidas ao Japão, é improvável que a Rússia concorde com a entrega das ilhas disputadas.

Uma solução é a chamada "duas ilhas mais alfa", na qual o Japão receberia as ilhas Shikotan e Habomai (e seus campos de pesca), além de mais uma concessão ainda a ser definida da Rússia. Em troca, o Japão renunciaria às reivindicações para as duas ilhas maiores e militarizadas, Kunashir e Iturup. O "alfa" pode incluir direitos de pesca para o Japão perto das duas ilhas maiores ou os direitos dos cidadãos japoneses para visitar e fazer negócios nas ilhas disputadas.

Se a Rússia e o Japão puderem encontrar um "alfa" aceitável para ambos os lados, um tratado de paz pode ser assinado e a Segunda Guerra Mundial pode, finalmente, terminar formalmente para os dois países.

* Com informações da TASS, Global Security, ANI, Sputnik, Wall Street Journal

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