Dias após a intervenção russa na Ucrânia, a empresa comercial de foguetes e satélites de Elon Musk, a SpaceX, enviou ao país um carregamento de estações Starlink, alegadamente para fortalecer a comunicação ucraniana contra as forças de Putin.

Blaine Curcio, fundador do grupo especializado de pesquisa em tecnologia espacial Orbital Gateway, disse que "alarme significativo na China" foi causado porque a SpaceX e a Starlink são consideradas uma parte fundamental do "complexo industrial militar espacial dos EUA", relata o jornal britânico Financial Times.

Os especialistas chineses suspeitam que além de apoiar a comunicação, a Starlink pode estar interagindo com drones e, usando big data e reconhecimento facial, desempenhando um papel maior nas operações militares da Ucrânia contra a Rússia.

Por meio de uma constelação de milhares de pequenos satélites, a Starlink oferece acesso banda larga à Internet, com baixa latência, a dispositivos no ar, no mar, em altas montanhas, florestas, no deserto ou em áreas remotas.

Embora um programa civil, os satélites da Starlink possuem capacidades militares, como a interconexão com caças da Força Aérea dos EUA e a separação entre dados classificados e não classificados, e a empresa tem um forte histórico militar, com alguns dos locais de lançamento construídos dentro da Base Aérea de Vandenberg.

Foto postada por um funcionário do governo ucraniano em rede social após receber as estações Starlink. ©  Mykhailo Fedorov/rede social
Foto postada por um funcionário do governo ucraniano em rede social após receber as estações Starlink. Foto © Mykhailo Fedorov/rede social
Os estrategistas militares de Pequim temem um cenário onde milhares de satélites da SpaceX são lançados para vigiar a China ou, mais sensivelmente, apoiar Taiwan.

Em dezembro, diplomatas chineses protestaram nas Nações Unidas que satélites da SpaceX se aproximaram da estação espacial da China, forçando-a a manobrar.

A China Military Online, uma publicação oficial do Exército Popular de Libertação (PLA), expôs no mês passado as ligações da SpaceX com o Pentagono, incluindo contratos comerciais, e enfatizou o potencial da Starlink de "aumentar a capacidade de combate dos militares dos EUA".

"Em 2019, a SpaceX recebeu fundos da Força Aérea dos EUA para testar a qualidade da conexão dos satélites Starlink com aeronaves militares; em maio de 2020, o Exército dos EUA assinou um acordo com a SpaceX sobre o uso da banda larga da Starlink para transmitir dados através de redes militares; em outubro de 2020, a SpaceX ganhou um contrato de US$ 150 milhões para desenvolver satélites de uso militar; em março de 2021, anunciou seu plano de trabalhar com a Força Aérea dos EUA para novos testes com o Starlink", enumera um artigo de opinião da China Military Online.

Em setembro do ano passado, a base aérea americana de Ramstein, na Alemanha, recebeu 15 estações Starlink durante a evacuação do Afeganistão.

"O 86º Communications Squadron (CS) forneceu recursos comerciais de Internet usando o Starlink para agências federais como o Departamento de Segurança Interna (DHS) e o Departamento de Estado", disse o Capitão da Força Aérea dos EUA Hector Valladares, possibilitando a conexão aos seus sistemas para "vetar e processar evacuados".

A publicação do exército chinês, no entanto, ressalta o uso militar dos satélites.

Em março deste ano, caças Lockheed Martin F-35 Lightning II da Força Aérea dos EUA realizaram testes usando serviços da Startlink, obtendo taxas até 30 vezes maiores do que as conexões tradicionais, observa o artigo.

O Tenente-Coronel Maxwell Cover, comandante da 388ª OSS, disse em um comunicado à imprensa que "uma enorme parte das operações ágeis de combate está em reforçar as comunicações [...]. Essas equipes estão nos ajudando a desenvolver uma melhor conectividade para as enormes quantidades de dados que precisamos passar pelo ALIS [Autonomic Logistics Information System]".

Cover disse que os atuais sistemas militares de comunicações por satélite não são suficientes para operar em locais remotos e essa é a razão pela qual eles estão avaliando várias redes de satélites para determinar qual é a melhor.

O artigo chinês observa que "de acordo com especialistas, uma aeronave não tripulada (UAV) equipada com um dispositivo Starlink pode servir como uma plataforma de retransmissão tática para enviar dados para caças, o que significa que um operador pode comandar um grande número de UAVs para realizar tarefas ao mesmo tempo".

Sargento Caleb Frisbie, do 242º Esquadrão de Comunicações de Combate, configurando a antena da Starlink para demonstração do Agile Battle Labs. Foto: © Todd Cromar/United States Air Force
Sargento Caleb Frisbie, do 242º Esquadrão de Comunicações de Combate, configurando a antena da Starlink para demonstração do Agile Battle Labs. Foto: © Todd Cromar/United States Air Force

Claramente, as aplicações militares do programa Starlink darão aos americanos uma vantagem sobre o futuro campo de batalha.

"Os satélites Starlink poderão ser montados com dispositivos de reconhecimento, navegação e meteorológicos para aumentar a capacidade de combate em áreas como sensoriamento remoto de reconhecimento, retransmissão de comunicações, navegação e posicionamento, ataque e colisão, e abrigo espacial", diz o artigo.

A publicação alerta que a SpaceX "controla toda uma cadeia industrial independente, integrando fabricação de satélites, construção de estações terrestres, lançamento e recuperação de foguetes e operação e serviços de satélites [...] e integrada com condução não pilotada, IoT, dados em nuvem e cidades inteligentes, ela se expandirá para uma nova indústria e cadeia de valor, dará origem a uma gigantesca biosfera Starlink e monopolizará o futuro mercado de aplicações espaciais. Monopólio e hegemonia são irmãs gêmeas".

"Há uma boa chance de que o Starlink seja aproveitado pelos EUA obcecados pela hegemonia para trazer o mundo para outro caos ou calamidade", acrescentou.

Em abril, o Instituto de Rastreamento e Telecomunicações de Pequim, grupo de pesquisa ligado ao PLA, recomendou o desenvolvimento de métodos físicos para derrubar satélites Starlink e lógicos para corromper seu sistema operacional. Na avaliação dos pesquisadores militares, a Starlink "representa uma ameaça para a China".

Musk estima que a SpaceX, avaliada em US$ 100 bilhões, gastará até US$ 30 bilhões na expansão da constelação de satélites Starlink.

Com uma posição de comando no mercado espacial comercial — previsto para valer cerca de US$ 40 bilhões por ano até 2030 — a SpaceX tornou-se uma parte importante do império em expansão de Musk e uma fonte crescente de discórdia na China, à medida que start-ups privadas chinesas e grupos estatais, incluindo GalaxySpace e China Aerospace Science and Technology Corporation, estão correndo para implantar suas próprias constelações em órbita baixa.

Estações terrestres Starlink montadas com proteção contra intempéries. Foto: © SpaceX
Estações terrestres Starlink montadas com proteção contra intempéries. Foto: © SpaceX

* Com informações do Financial Times

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