A escassez de trabalhadores e a inflação são as duas maiores preocupações da hotelaria portuguesa, podendo impactar a retomada aos níveis de 2019, ano em que Portugal registrou a melhor performance turística de sua história.

Apesar dos turistas estarem regressando ao país, os empresários do setor temem não conseguir atender a elevada procura que se antevê para os meses de verão.

A Associação da Hotelaria de Portugal (AHP) pede ao governo a agilização da contratação de estrangeiros e a redução da carga fiscal.

Na semana passada, o Ministro das Finanças, Fernando Medina, garantiu que os acordos de mobilidade de trabalhadores com outros países, como são exemplos a Índia ou Marrocos, se encontram "em estado avançado", estando em negociação acordos com a Tunísia, Moldávia, Uzbequistão, Geórgia e Filipinas, de forma a responder à falta de pessoal em vários setores econômicos de Portugal.

Medina também lembrou que entrou em vigor em 1º de janeiro um acordo sobre a mobilidade entre os Estados-membros da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP) – Angola, Brasil, Cabo Verde, Guiné-Bissau, Guiné Equatorial, Moçambique, Portugal, São Tomé e Príncipe e Timor-Leste.

A vice-presidente da AHP, Cristina Siza Vieira, pede uma resposta mais rápida e eficiente para trazer os imigrantes.

"É necessário agilizar os procedimentos e ter uma via verde para a imigração. Foi feito este acordo com a CPLP e, neste momento, ainda está empacado por aí, não sei aonde nem porque é que não se tem agilizado o suficiente. Os outros países também se estão a mexer para ter um pacote para cativar imigrantes".

Cristina Siza Vieira aponta ainda a redução dos impostos como medida essencial e urgente para ajudar as empresas da hotelaria a contratar.

"É fundamental o Estado olhar para esta situação. Estamos quase numa situação de pleno emprego, recrutar mais gente vai custar mais. O Estado tem de aliviar a carga fiscal na contratação. É muito pesado contratar em Portugal. Os salários estão a subir, claramente estão, mas esta não é a única solução".

A inflação recorde é outra preocupação dos hotéis com o verão à porta. Para a vice-presidente da AHP, será inevitável refletir esses custos nos preços.

"A inflação é refletida sobre consumidor. Os preços aumentariam sempre, mais que não fosse, pela razão da inflação. Daí os hoteleiros dizerem que o peço médio será superior porque não há outro remédio. Isto, aliado aos custos salariais e à procura do mercado, vai fazer com que os preços subam. Se os preços subirem entre 8% e 10% não estranharia", assegura Cristina Siza Vieira.

Atualização 15/06/2022

Nesta quarta-feira (15), o governo português aprovou um regime de facilitação para a emissão de vistos em Portugal para os Cidadãos da Comunidade dos Países de Língua Oficial Portuguesa (CPLP).

Em coletiva de imprensa, a Ministra Adjunta e dos Assuntos Parlamentares, Ana Catarina Mendes, disse que vai passar "a haver uma facilitação da emissão" no âmbito da concessão dos vistos de curta duração de estada temporária e vistos de residência para cidadão abrangido pelo acordo da CPLP.

"O consulado pode consultar diretamente o sistema de informação Schengen. Em consequência do âmbito da concessão do visto de estada temporária e visto para cidadão estrangeiro dispensa-se agora o parecer prévio do Serviço de Estrangeiros e Fronteiras que a lei atribui", explicou a ministra.

Para o cidadão abrangido pelo acordo CPLP e que já se encontre em Portugal, a proposta de lei prevê "a possibilidade de requerer a autorização de residência temporária em território nacional" e os titulares do visto de estada temporária ou que tenham entrado legalmente em Portugal podem requerer no país a autorização de residência CPLP, disse Ana Catarina Mendes.

Cristina Siza Vieira disse à Lusa que as medidas aprovadas para a facilitação de imigração são "fundamentais" para o setor hoteleiro.

"É o primeiro passo para implementar o acordo de mobilidade no âmbito da CPLP", apontando que a simplificação "no âmbito do perímetro da CPLP era fundamental e deveria apenas verificar-se aquelas condições básicas, uma promessa de contrato de trabalho, a prova de residência e o certificado de registo criminal limpo".

A vice-presidente da AHP ressaltou que para este verão as medidas "poderão estar no terreno, mas a vinda dos cidadãos da CPLP é que pode não ser tão rápida".

Para mitigar a falta de trabalhadores no setor, a executiva disse que o "custo de um trabalhador para a empresa é pesadíssimo", devendo o Estado repensar a questão.

A AHP acredita que "ainda há muito a fazer por parte das empresas" e que a solução também pode passar pela adaptação do trabalho aos colaboradores, apesar das dificuldades que isto pode trazer para as cadeias hoteleiras.

"O salário é um indicador de referência, mas também há um certo 'glamour' que um chef tem e um garçom não. Estas, às vezes, são funções transitórias, o que também traz muitas dificuldades para as empresas", ponderou Cristina Siza Vieira.

Em nota à Lusa, a Confederação do Turismo de Portugal (CTP) disse congratular-se "com a medida anunciada pelo Governo de criação do visto para a procura de trabalho, que permite aos estrangeiros entrarem e permanecerem no nosso país durante seis meses, e a eliminação do regime de quotas para a imigração".

No entanto, alertou o presidente da CTP, Francisco Calheiros, "para que esta medida seja efetiva é necessário que as estruturas da administração pública que terão responsabilidades nesta matéria estejam devidamente desburocratizadas e que sejam céleres na tomada de decisão, por forma a evitarem-se os problemas que existiram, por exemplo, com a emissão excepcional de vistos aos cidadãos ucranianos oriundos do conflito armado".

* Com informações do Diário de Notícias, Lusa

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