Neste domingo (10), o chefe da diplomacia europeia anunciou em rede social "Convoquei hoje uma sessão conjunta do Comitê Militar da UE e do Comitê Político e de Segurança para discutir o apoio militar à Ucrânia, numa altura em que este país enfrenta ataques iminentes em Donbass e no Sul".

Na sexta-feira (8), em visita à Kiev, a Presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, e Josep Borrell prometeram ao Presidente ucraniano, Volodymyr Zelensky, mais dinheiro para compra de armamentos, nomeadamente 500 milhões de euros para o Mecanismo Europeu de Apoio à Paz, fundo que já tem um bilhão de euros para este fim.

Ainda na sexta-feira, o Primeiro-Ministro do Reino Unido Boris Johnson anunciou que Londres enviará à Ucrânia ajuda militar adicional no valor de US$ 130 milhões, incluindo mais mísseis antiaéreos Starstreak e 800 mísseis anti-tanque.

Os vendedores de armamentos não podem se queixar de falta de empenho dos governos ocidentais em alongar o conflito.

"A OTAN e a UE estão unidas em solidariedade com o povo ucraniano", comentou Stoltenberg em rede social neste domingo, após ser comunicado da promessa de von der Leyen destinar mais recursos para compra de armamentos pela Ucrânia.

Moscou tem dito repetidamente que o fornecimento de armas ocidentais só serve para prolongar o conflito e alertou que as forças russas poderão atingir tais entregas.

Instrutor britânico da OTAN ensina militares de regimento neonazista ucranianio a utilizar armamento anti-tanque NLAW (Next Generation Light Anti-tank Weapon) comprado do Reino Unido
Instrutor britânico da OTAN ensina militares de regimento neonazista ucranianio a utilizar armamento anti-tanque NLAW (Next Generation Light Anti-tank Weapon) recebido do Reino Unido

O presidente ucraniano até agora se absteve de declarar guerra contra a Rússia, tornando possível para a Ucrânia manter o trânsito de gás russo – cerca de 40% do gás exportado da Rússia para a Europa passa pelos gasodutos da antiga União Soviética na Ucrânia, que encontra nessa atividade sua principal fonte de renda.

O produto russo continua a ser bombeado normalmente para os países da Europa, fornecendo energia para suas populações, indústrias e demais atividades econômicas. Também continuam as entregas de óleo diesel e outros derivados.

Ainda assim, as mais de 6.000 sanções contra a Rússia incluem punições contra pessoas jurídicas e físicas – até mesmo premiados autores, cientistas, intelectuais, artistas e esportistas; o confisco de bens; o cancelamento de registros de aviões; e o congelamento das reservas em moeda estrangeira do banco central do país.

As nações europeias, historicamente mais cautelosas em impor sanções, lideraram o caminho, superando até mesmo os EUA.

Ordem pública e segurança nacional

A falha no planejamento da transição para a "energia verde" deixou grande parte da Europa em risco de apagões. No final de setembro de 2021, cinco meses antes da intervenção militar da Rússia na Ucrânia, as autoridades alemãs já estavam ensinando a população a aquecer suas casas com velas e a se acostumar a “cozinhar sem eletricidade”.

O conflito na Ucrânia expôs não apenas a dependência alemã do gás e petróleo russos, mas também as grandes somas de capital de empresas da Rússia investidas nas refinarias, gasodutos, oleodutos e outras infraestruturas de gás da Alemanha;

As subsidiárias alemãs das gigantes russas Gazprom e Rosneft são atores-chave no cenário energético da maior economia da Europa.

No início de abril de 2022, o governo alemão deu o passo sem precedentes de assumir o controle da subsidiária alemã da Gazprom. O Ministro da Economia, Robert Habeck, do Partido Verde alemão, justificou o movimento radical dizendo que serviu à "ordem pública e à segurança nacional".

Apenas a instalação de armazenamento de gás Rehden da Gazprom, na Baixa Saxônia, representa cerca de 20% da capacidade total de armazenamento de gás da Alemanha. A instalação era propriedade do grupo alemão BASF até 2015, quando foi vendida para a Astora, uma subsidiária da Gazprom. A Astora tem instalações adicionais de armazenamento em Jemgum, na fronteira com a Holanda, e em Haidach, Áustria. A Gazprom Germania também tem uma participação em uma grande instalação de armazenamento de cavernas de sal perto de Hamburgo.

A Gascade, uma das maiores operadoras de rede de distribuição de gás da Alemanha, é de 50,03% de propriedade da Gazprom Germania. A empresa descreve sua rede de 3.200 quilômetros de gasodutos que fornecem gás para cidades em toda a Alemanha como "o centro do transporte europeu de gás natural".

Outras peças importantes, como o gasoduto NEL norte-europeu e o gasoduto OPAL do Mar Báltico, pertencem à empresa Wiga Transport, que por sua vez é de 49,98% de propriedade da Gazprom Germania. A Wingas, outra empresa da Gazprom Germania, também tem uma participação de mercado de cerca de 20% e desempenha um papel crucial na distribuição de gás para concessionárias, empresas industriais e usinas alemãs.

A Gazprom Germania deve permanecer sob controle do estado alemão até 30 de setembro, quando o governo deve decidir entre nacionalização ou venda a um novo proprietário.

Já a subsidiária alemã da Rosneft responde por um quarto de todas as importações alemãs de petróleo e tem uma participação majoritária na refinaria PCK em Schwedt, nordeste de Berlim. A refinaria PCK processa o equivalente a 11% do consumo total de petróleo da Alemanha.

No final de 2021, a Rosneft anunciou planos para aumentar sua participação na refinaria PCK de 54% para 92%, comprando ações do grupo anglo-holandês Shell.

O Escritório Federal do Cartel da Alemanha aprovou a transação poucos dias antes do início da intervenção militar da Rússia na Ucrânia.

A Rosneft Germany também detém significativas participações nas duas grandes refinarias de Miro (24%) e Bayernoil (29%) no sul da Alemanha.

Assim como a Gazprom para o setor de gás, a Rosneft é uma grande distribuidora no setor petrolífero, fornecendo a 4.000 grandes clientes na Alemanha, de acordo com o jornal alemão Handelsblatt.

Maior evento de sanções da história

Naturalmente, a guerra que está sendo travada pelo G7 e Bruxelas contra a Rússia não termina com o fim da crise da Ucrânia.

As medidas econômicas incapacitantes que atingiram o Irã nos últimos 10 anos foram implementadas ao longo de 10 dias contra a Rússia, diz o ex-funcionário do Departamento do Tesouro dos EUA Peter Piatetsky, que chamou de "uma guerra nuclear financeira e o maior evento de sanções da história".

Co-fundador e atual CEO da Castellum, empresa de monitoramento global que mantém dados sobre indivíduos de alto risco, entidades, embarcações e aeronaves, Piatetsky "ajudou a construir o programa de sanções dos EUA contra a Rússia, custando ao governo russo e oligarcas corruptos bilhões de dólares, sancionando bancos russos e identificando como o governo russo estava financiando separatistas na Ucrânia".

"O Presidente Obama queria punir a Rússia em resposta à sua invasão da Ucrânia na primavera de 2014, e como analista do Escritório de Inteligência e Análise do Tesouro, eu estava no lugar certo na hora certa. As sanções dos EUA contra a Rússia são as mais complexas da história dos EUA, e tiveram de ser projetadas para causar o máximo de dor à Rússia sem prejudicar a economia global", escreve Piatetsky em seu perfil da rede social F6S.

"Usando arquivos fiscais russos, registros bancários, documentos de formação corporativa, contratos governamentais e muito mais, ajudei a sancionar o círculo corrupto de amigos de Putin, identificar ativos e conexões ocultas, encontrar empresas de fachada que o governo russo usou em todo o mundo, como separatistas ucranianos receberam financiamento, desde doações de bitcoin e Western Union até transferências em dinheiro em massa", acrescenta.

Com base em dados do rastreamento global de sanções da Castellum, os países mais sancionados do mundo são:

  • Rússia - O país está sujeito a mais de 6.000 diferentes restrições direcionadas, superando a soma de sanções do Irã, Venezuela, Mianmar e Cuba. As medidas punitivas implementadas até agora têm como alvo o setor financeiro russo, as reservas do Banco Central da Federação Russa, o fornecimento de energia, as grandes empresas, o Presidente Vladimir Putin, suas filhas, funcionários do governo e outros cidadãos. Os EUA e a UE prometem que mais sanções virão.
  • Irã - Uma vez o país mais sancionado do mundo, o Irã está na mira de Washington desde 1979. Teerã enfrentou 3.616 medidas punitivas contra o país apenas na última década. As sanções foram impostas principalmente sobre o controverso programa nuclear iraniano. Em 2018, os bancos do país foram cortados do sistema de pagamentos SWIFT. Em 2020, Washington impôs mais sanções contra bancos iranianos. No entanto, a economia do Irã cresceu 2,4% em 2020-21, segundo o Banco Mundial, e deve subir 3,1% em 2021-22.
  • Síria - O país devastado pela guerra, que luta contra o terrorismo internacional desde 2011, foi atingido por uma série de sanções econômicas dos EUA, da UE e de alguns Estados árabes. A maioria delas imposta após 2011. De acordo com o levantamento da Castellum, o país enfrenta 2.608 sanções.
  • Coreia do Norte - Sob sanções da ONU desde 2006 sobre seus programas de mísseis nucleares e balísticos, a lista da Castellum registra que o país mais isolado do mundo tem 2.077 sanções contra ele a partir de março. As penalidades incluem punições contra pessoas físicas e jurídicas. Este mês, os Estados Unidos impuseram novas sanções à Coreia do Norte, acusando-a de desenvolver armas de destruição em massa e programas de mísseis balísticos.
  • Venezuela - A economia da República Bolivariana tem estado sob forte pressão nos últimos anos, com a situação se deteriorando severamente depois que os EUA impuseram sanções ao país em 2019. As medidas tiveram como alvo empresas e entidades petrolíferas associadas ao governo de Nicolás Maduro, dentro e fora da Venezuela. As sanções atuais colocam o país em quinto lugar no ranking global das nações mais sancionadas, com 651 sanções, segundo a Castellum.
  • Myanmar - A nação do Sudeste Asiático enfrenta sanções dos Estados Unidos e de outros países sobre violações dos direitos humanos. Em janeiro, no aniversário de um ano do golpe militar, o Departamento do Tesouro dos EUA designou sete indivíduos e duas entidades ligadas ao regime militar. Dados da Castellum mostram que Myanmar tinha 510 sanções contra o país. No entanto, a lista foi ampliada após ação coordenada entre os Estados Unidos, Reino Unido e Canadá, que impuseram novas sanções ao país em março, com foco em altos funcionários militares.
  • Cuba - A maior ilha-nação do Caribe enfrenta 208 sanções. Cuba está sob sanções dos EUA há mais de 60 anos, que afetaram todos os aspectos da vida na ilha. As sanções impostas pelo Presidente dos EUA John F. Kennedy em 1962 visam isolar o país até que ele se mova para a "democratização e maior respeito pelos direitos humanos". Washington vem sistematicamente aumentando as medidas punitivas, enquanto empresas e bancos estrangeiros que operam em Cuba têm enfrentado duras sanções por fazer negócios lá. O regime de sanções americanas contra Cuba é um dos boicotes mais longos do mundo por um país contra outro. A nação insular que importa 80% do que consome chama de "bloqueio" a proibição comercial de seis décadas.

Atualização 11/04/2022

O Ocidente não quer uma solução diplomática do conflito na Ucrânia, empurrando Kiev a apostar no militarismo, disse o representante permanente russo da OSCE Alexander Lukashevich nesta segunda-feira (11).

"Vemos como os patronos estrangeiros das atuais autoridades ucranianas estão continuamente dissuadindo-os das vias políticas e diplomáticas", disse o Ministério das Relações Exteriores russo em uma reunião especial do Conselho Permanente da OSCE.

Depois de tais sinais "encorajadores" das capitais ocidentais, a liderança da Ucrânia "mudou sua retórica para apostar no militarismo novamente", observou.

* Com informações RT, TASS

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