A votação de quarta-feira (2) da ONU sobre a entrada da Rússia na Ucrânia dividiu a África pela metade, entre países que se recusam a tomar partido entre a Rússia e o Ocidente e outros que veem Moscou como o agressor imperialista.

O bloco africano de 54 membros representou 17 dos 35 países que se abstiveram de votar a resolução da Assembleia Geral pedindo à Rússia que "retire imediatamente, completamente e incondicionalmente todas as suas forças militares" do território ucraniano. Estes incluem democracias como Senegal e África do Sul, regimes militares apoiados pela Rússia como Mali e Sudão, e Estados frágeis como a República Centro-Africana e o Zimbábue. Outras oito nações africanas – Burkina Faso, Camarões, eSwatini, Etiópia, Guiné, Guiné-Bissau, Marrocos e Togo – não participaram da votação.

Na região Ásia-Pacífico, apenas Japão, Cingapura e Coreia do Sul concordaram com sanções contra Moscou.

A China se recusou a chamar  operação militar russa de invasão. A Índia se absteve de uma resolução do Conselho de Segurança da ONU para condenar a incursão. O governo de Mianmar disse que a Rússia havia "feito sua parte para manter sua soberania" e que entrar na Ucrânia era "a coisa certa a fazer". E no Vietnã, Putin está sendo carinhosamente chamado de "Tio Putin".

A influência da Rússia na Ásia é mínima em comparação com a dos Estados Unidos, embora tenha crescido nos últimos anos com a venda de armas.

A Rússia vendeu caças para a Indonésia, Malásia e Mianmar, mas seu maior cliente no Sudeste Asiático é o Vietnã.

O Vietnã comprou bilhões de dólares em artilharia russa, aeronaves e submarinos, transformando seus militares em uma das forças de combate mais capazes da região. De 2000 a 2019, 84% das importações de armas do Vietnã vieram da Rússia, de acordo com o Instituto Internacional de Pesquisa da Paz de Estocolmo.

Em uma pesquisa global do Pew Research Center em 2017, mais da metade dos entrevistados no Vietnã e nas Filipinas disseram confiar em Putin.

O Vietnã se absteve de apontar a Rússia como um agressor e convocou "todas as partes relevantes a exercer contenção".

"Sou um grande fã do Tio Putin porque ele sempre toma ações drásticas", disse Tran Trung Hieu, um cineasta independente em Hanói, usando o mesmo termo de respeito que a população usa para Ho Chi Minh, o revolucionário que liderou o movimento de independência no Vietnã.

O presidente das Filipinas, Rodrigo Duterte, chamou Putin de "herói favorito". Na segunda-feira (28), o país condenou a invasão mas não nomeou a Rússia.

Na Índia, Moscou tem sido vista como um parceiro militar confiável há décadas. Nova Délhi é o segundo maior importador mundial de armas russas, que responde por cerca de metade de seus suprimentos militares. Quando Putin visitou Nova Délhi no final do ano passado, a Rússia detalhou a venda de um sistema de defesa antimísseis de US$ 5,4 bilhões para o país.

A Índia tomou o cuidado de não condenar a Rússia sobre a Ucrânia. Moscou usou repetidamente seu poder de veto no Conselho de Segurança da ONU para bloquear resoluções críticas da Índia sobre a Caxemira, um território disputado que a Índia compartilha com o Paquistão. Por sua vez, a Índia se absteve de uma resolução da organização condenando Moscou por sua anexação da Crimeia em 2014.

"De que lado está a Índia?", disse Pankaj Saran, ex-embaixador da Índia na Rússia. "Estamos do nosso lado. As explosões cíclicas do antagonismo da Guerra Fria são cansativas".

Apesar da forte oposição dos Estados Unidos, o Ministro das Relações Exteriores da Índia, Hash Shrinla, disse que a Rússia já começou seu plano de entregar um sistema de defesa antimísseis terra-ar S-400 de longo alcance para o país. A Índia também chegou a um entendimento com a Rússia para produzir conjuntamente pelo menos 600.000 rifles de assalto AK-203 e assinou um acordo de cooperação militar de 10 anos.

A Índia é um dos grandes compradores de armas russas
A Índia é um dos grandes compradores de armas russas

As autoridades indianas também estão dispostas a ajudar a Rússia a encontrar soluções alternativas para as novas sanções, estabelecendo contas em rúpias para continuar o comércio com Moscou, semelhante ao que fez após a anexação da Crimeia.

A Indonésia, como a Índia, aumentou significativamente seus laços econômicos e de defesa com a Rússia ao longo dos anos. O comércio bilateral entre os dois países cresceu 42% em 2021. Em dezembro, Jacarta sediou o primeiro exercício marítimo conjunto entre a Rússia e a Associação das Nações do Sudeste Asiático (ASEAN).

"A Indonésia não vê a Rússia como uma ameaça à política global ou como um inimigo", disse Dinna Prapto Raharja, professora da Universidade Bina Nusantara, em Jacarta. "As sanções unilaterais limitam a chance de negociação e aumentam a sensação de insegurança para os países afetados".

Em 24 de fevereiro, Teuku Faizasyah, porta-voz do Ministério das Relações Exteriores da Indonésia, sugeriu que o país não deverá impor sanções à Rússia, argumentando que "não seguiria cegamente os passos dados por outro país".

Mesmo entre os aliados dos EUA na Ásia, a decisão de punir a Rússia revela hesitação.

A Tailândia pouco disse sobre o conflito, exceto que apoia "esforços contínuos para encontrar um acordo pacífico".

A Coreia do Sul disse que implementará sanções impostas pelos Estados Unidos e pela Europa, mas não decretará suas próprias sanções. Autoridades disseram que o país precisa "ter em mente que nossas relações comerciais com a Rússia estão crescendo". Em contraste, o Primeiro-Ministro do Japão, Fumio Kishida, foi rápido em condenar a agressão russa e anunciar sanções.

Em entrevista, Kateryna Zelenko, embaixadora da Ucrânia em Cingapura, disse que uma recusa em parar a Rússia acabará por comprometer a segurança global.

"Não penso que vamos evitar a Rússia", disse Bilahari Kausikan, ex-embaixador de Cingapura na Rússia. "Ainda é um grande país e um estado de armas nucleares".

Atualização  07/03/2022

O Primeiro-Ministro Imran Khan acusou um grupo de diplomatas estrangeiros de pressionar o Paquistão a aprovar uma resolução da ONU condenando a Rússia por sua incursão militar na Ucrânia.

Em um comício no domingo (6), Khan disparou contra uma carta de 1º de março de diplomatas que representam 22 missões, incluindo países da União Europeia (UE), juntamente com Japão, Suíça, Canadá, Reino Unido e Austrália, que pediu ao Paquistão para abandonar sua neutralidade e se juntar a eles para condenar Moscou.

"O que vocês acham de nós? Que somos seus escravos? Que o que vocês falarem, vamos fazer?", disse Khan, antes de perguntar aos embaixadores da UE se eles escreveram "tal carta para a Índia", que também permanece neutra.

Khan disse que o Paquistão havia sofrido anteriormente por apoiar a ação militar da OTAN no Afeganistão e afirmou: "Somos amigos da Rússia, e também somos amigos da América; somos amigos da China e da Europa; não estamos em nenhum campo".

O Paquistão absteve-se de votar a resolução da ONU condenando a "agressão russa contra a Ucrânia" na semana passada. Os vizinhos Índia, Bangladesh, China, Irã, Sri Lanka, Tajiquistão, Quirguistão e Cazaquistão também se abstiveram.

Atualização 04/04/2022

Os Estados Unidos aumentaram suas compras de petróleo russo em 43% entre 19 e 25 de março, de acordo com dados da Administração de Informações sobre Energia (EIA). Apesar da proibição da Casa Branca de importações de energia da Rússia, os EUA continuam a comprar até 100.000 barris de petróleo russo por dia.

* Com informações do Japan Times, New York Times, iNews

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