Zarka disse nesta segunda-feira (3) que as esperanças de que a cepa mais fraca do Ômicron poderia infectar rapidamente a população sem sobrecarregar o sistema hospitalar são cientificamente inválidas, relata o Times of Israel (ToI).

O epidemiologista exortou à população a fazer o que puder para evitar a infecção, enfatizando que os hospitais israelenses correm risco de sobrecarga, por uma combinação de variantes do coronavírus SARS-CoV-2 somada à gripe sazonal.

“Não temos política de infecção em massa. A imunidade do rebanho não tem base científica”, disse Zarka em uma entrevista coletiva. “No momento, estamos enfrentando uma onda combinada, com a variante Delta ainda ativa, e alguns pacientes hospitalizados estão sofrendo disso”.

Ele enfatizou que os casos de Ômicron continuarão aumentando.

“Não podemos evitar que o vírus se espalhe. Estamos trabalhando para diminuir a morbidade, para proteger as pessoas, especialmente aquelas em risco”.

Os comentários de Salman Zarka foram feitos um dia depois que o Primeiro-Ministro Naftali Bennett especulou que Israel poderia chegar a 50.000 casos diários, devido à incapacidade de impedir a disseminação da variante Ômicron.

No domingo anterior, o diretor do Ministério da Saúde, Nachman Ash, disse que uma crescente taxa de infecção poderia eventualmente colocar Israel em uma situação de imunidade coletiva, embora a um custo altíssimo.

“A tendência é de alta – definitivamente haverá um aumento”, disse Ash. “Veremos números maiores. Onde isso vai parar? É difícil saber. O preço da imunidade coletiva são muitas infecções, e isso pode acabar acontecendo. Os números precisam ser altos para alcançar a imunidade do rebanho, é algo que é possível. Mas não queremos alcançá-lo por meio de infecções. Queremos que isso aconteça como resultado da vacinação de muitas pessoas”.

O Times of Israel lembra que o Prof. Eran Segal, do Instituto Weizmann, estimou que 2 a 4 milhões de pessoas – de uma população de 9,5 milhões, acabarão infectadas pela variante Ômicron, mas o número de complicações graves simultâneas não ultrapassaria o recorde atual de 1.200 hospitalizações.

Em contraposição, pesquisadores do Instituto Gertner e do Instituto de Tecnologia Technion-Israel apresentaram vários cenários ao Ministro da Saúde Nitzan Horowitz, funcionários do Ministério da Saúde e gerentes de hospitais, o mais extremo dos quais tinha 99% da população de Israel infectada por Ômicron.

Em uma aparente resposta às previsões de Bennett e outros, Horowitz disse que tais “cenários apocalípticos” eram injustificados e serviam apenas para assustar o público, relata o Times of Israel.

Os defensores da imunidade de rebanho afirmam que aqueles infectados com Ômicron são os mais protegidos contra uma nova infecção pela cepa, e se uma porcentagem suficiente da população tiver adquirido essa imunidade natural, isso levará ao fim do surto – pelo menos até que uma nova variante surja ou até que a resposta imune ao vírus diminua.

A estratégia guarda semelhança com a política adotada pela Suécia nos estágios iniciais da pandemia, com o objetivo de manter a economia aberta e, ao mesmo tempo, manter as populações vulneráveis isoladas. Especialistas estão sugerindo cada vez mais que a política poderia funcionar melhor agora, com a maioria das pessoas vacinadas e uma variante menos agressiva ao organismo.

Horowitz e outros membros do gabinete procuram manter as restrições ao mínimo, em favor da proteção da economia, enquanto Zarka advoga a favor da imposição de novos lockdowns e restrições severas.

“Na situação em que nos encontramos, restrições leves não ajudarão. Podemos ir em direção a restrições muito significativas, como o primeiro lockdown, porque outras restrições não reduzirão as infecções. Portanto, não estamos recomendando restrições no momento apenas para dizer que as solicitamos”, disse Zarka nesta nesta segunda-feira, relatou o Times of Israel.

"Nosso objetivo é equilibrar a detecção rápida de casos verificados, especialmente entre grupos de alto risco, aos quais podemos oferecer os novos medicamentos que adquirimos, enquanto, ao mesmo tempo, permitir o máximo de vida normal possível”, disse Zarka.

Evolução da média movel de 7 dias de infecções diárias por SARS-CoV-2 em Israel
Evolução da média movel de 7 dias de infecções diárias por SARS-CoV-2 em Israel

Zarka também se opôs à Ministra da Educação, Yifat Shasha-Biton, depois que ela insistiu que o programa "sala de aula verde", que permitia que os alunos permanecessem frequentando a escola após serem expostos ao vírus, deveria ser renovado e reprovou a recusa do Ministério da Saúde em aprovar a extensão.

“Enquanto a Ômicron estiver por perto, não haverá uma 'sala de aula verde'”, decretou Zarka.

“Nossa primeira prioridade é a saúde das crianças, antes de trazê-las para a escola para aprender”, disse. “Esperamos que a onda passe rapidamente e possamos voltar a aprender fisicamente”.

Israel registrou mais de 6.500 novas infecções nesta segunda-feira, a maior taxa diária em meses, de acordo com dados do Ministério da Saúde. Mais de 100 cidades em todo o país estão agora operando sob seus protocolos mais rígidos, forçando alunos não vacinados a ficar em quarentena se entraram em contato com um colega de turma infectado, mesmo testando negativo para o vírus.

Na semana passada, o governo reverteu alguns dos requisitos de quarentena para pessoas vacinadas com 3 doses, temendo que as regras pudessem afetar dezenas de milhares e levar a um lockdown de fato. De acordo com as novas regulamentações, pessoas totalmente vacinadas infectadas podem sair da quarentena assim que testarem negativo para o vírus.

Quarta dose

Ainda nesta segunda-feira, Israel começou a oferecer a qualquer pessoa com mais de 60 anos uma quarta dose da vacina Pfizer/BioNTech contra o coronavírus, expandindo o reforço duplo que anteriormente incluía apenas residentes mais idosos com sistema imunológico comprometido e alguns profissionais de saúde.

A iniciativa coloca Israel na vanguarda das estratégias agressivas de vacinação.

“Ômicron não é Delta”, disse Bennett, em uma entrevista coletiva no final do domingo (2). “É um jogo completamente diferente”.

Críticos disseram que pesquisas ainda são necessárias para saber se uma quarta dose da vacina será eficaz. Cerca de 6,4 milhões dos 9,3 milhões de habitantes de Israel receberam ao menos a primeira dose, 5,8 milhões a segunda e mais de 4,1 milhões a terceira, de acordo com o Ministério da Saúde.

Em uma entrevista ao The Telegraph nesta segunda-feira, o professor Sir Andrew Pollard, Presidente do Joint Committee on Vaccination and Imunization (JCVI) do Reino Unido e Diretor do Oxford Vaccine Group (que desenvolveu a vacina covid da AstraZeneca), disse que a prioridade deve ser dirigida aos vulneráveis no futuro, em vez de aplicar reforços a todos os maiores de 12 anos.

Pollard defendeu que não adianta tentar impedir todas as infecções e que "em algum momento, a sociedade terá de se abrir", e alertou contra seguir Israel e Alemanha, que autorizaram uma quarta dose para todos com mais de 60 anos.

“Sabemos que as pessoas têm anticorpos fortes por alguns meses após a terceira vacinação, mas são necessários mais dados para avaliar se, quando e com que frequência aqueles que são vulneráveis precisarão de doses adicionais”.

“Não podemos vacinar o planeta a cada quatro ou seis meses. Não é sustentável ou acessível. No futuro, precisamos focar nos vulneráveis”, ponderou o chefe da JCVI.

Rebanho

Em agosto, Sir Andrew Pollard afirmou que a imunidade de rebanho não era uma possibilidade porque o vírus da covid infecta pessoas vacinadas. Mesmo se todas as crianças fossem imunizadas, a transmissão não seria interrompida, destacou.

Na época, em reunião com parlamentares britânicos, Pollard disse que "antes de mais nada, precisamos nos concentrar agora, não no que pode impedir novas variantes, porque não acho que tenhamos qualquer forma de controlar isso. Precisamos nos concentrar em pensar sobre como evitar que as pessoas morram ou sejam hospitalizadas".

O cientista da Universidade de Oxford lembrou que "mais de quatro bilhões de doses de vacinas" já foram administradas em todo o mundo, uma quantidade "suficiente para evitar quase todas essas mortes e, ainda assim, elas continuam".

Casedemic

Com o tempo, haverá uma mudança de testes comunitários de infecções leves para testes clínicos de pessoas que não se sentem bem – o foco deve ser a melhoria do tratamento para as pessoas gravemente doentes no hospital, defendeu Pollard.

"Acho que à medida que olhamos para a população adulta daqui para frente, se continuarmos a perseguir os testes da comunidade e estivermos preocupados com esses resultados, vamos acabar em uma situação em que estaremos constantemente aplicando doses de reforço para tentar lidar com algo que não é administrável", disse Pollard em agosto.

"É preciso passar para testes conduzidos clinicamente, nos quais as pessoas desejam ser testadas, tratadas e gerenciadas, em vez de muitos testes comunitários. Se alguém não está bem, deve ser testado, mas para seus contatos, se estiverem bem, faz sentido eles estarem na escola e sendo educados".

Para Paul Hunter, professor da Universidade de East Anglia, especialista em doenças infecciosas e assessor da Organização Mundial da Saúde (OMS), é hora de mudar a forma como os dados são coletados e registrados.

"Precisamos começar a deixar de apenas relatar infecções, ou apenas relatar casos positivos admitidos no hospital, para realmente começar a relatar o número de pessoas que estão doentes por causa do vírus", disse o especialista em agosto de 2021.

"Caso contrário, estaremos nos assustando com números muito altos que, na verdade, não se traduzem em carga de doenças", acrescentou Hunter.

Um número crescente de cientistas entende que é hora de aceitar que não há maneira de impedir a propagação do vírus por toda a população, e monitorar pessoas com sintomas leves não ajuda mais.

O Primeiro-Ministro Boris Johnson disse nesta segunda-feira que a Grã-Bretanha "tem que seguir o Plano B", em vez de impor novas restrições, ainda que o sistema de saúde venha a enfrentar pressões "consideráveis" por várias semanas.

Porcentagem de pacientes covid em Londres em ventilação pulmonar. Arte: © The Telegraph
Porcentagem de pacientes covid em Londres em ventilação pulmonar. Arte: © The Telegraph
Dissociação de casos vs hospitalizações e mortes na atual onda Ômicron em Londres em comparação com a onda Alfa anterior. Arte: © Paul Mainwood
Dissociação de casos vs hospitalizações e mortes na atual onda Ômicron em Londres em comparação com a onda Alfa anterior. Arte: © Paul Mainwood

* Com informações do Times of Israel, Washington Post (WAPO), The Telegraph

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