Mais tarde, Putin se reuniu com os líderes da DPR e da LPR, Denis Pushilin e Leonid Pasechnik, e assinaram acordos bilaterais sobre amizade, cooperação e ajuda mútua entre a Rússia e as duas repúblicas da região de Donbass.

A cerimônia foi realizada no Salão de Santa Catarina do Kremlin, que sediou a reunião do Conselho de Segurança Russo. Nesta reunião, os membros do Conselho de Segurança pediram o reconhecimento da independência da DPR e da LPR.

A medida levanta a questão se Putin está reconhecendo os territórios que a DPR e a LPR realmente detêm, ou a área muito maior que reivindicam, usando tropas russas para anexar essas terras.

As repúblicas de Donetsk e Lugansk declararam independência da Ucrânia em 2014, depois que nacionalistas apoiados pela administração Obama derrubaram o governo democraticamente eleito no golpe de estado de Maidan.

Nenhum país reconheceu a independência de Donetsk ou de Lugansk, proclamadas após referendos.

A Rússia mantém forças militares terrestres em Donbass desde 2014. Com o reconhecimento de Donetsk e Lugansk, poderá também usar força aérea. Mapa: © RGloucester/Wikimedia
A Rússia mantém forças militares terrestres em Donbass desde 2014. Com o reconhecimento de Donetsk e Lugansk, poderá também usar força aérea. Mapa: © RGloucester/Wikimedia

Nos últimos 8 anos, Moscou se recusou a reconhecer as duas repúblicas alegando que era um assunto interno da Ucrânia e precisava ser resolvido através dos acordos de Minsk, que estabeleceram um armistício em 2015.

Minsk I foi assinado pela Rússia e Ucrânia em setembro de 2014 e previu trocas de prisioneiros, entregas de ajuda humanitária e retirada de armas pesadas das linhas de frente. Violações de ambos os lados derrubaram o acordo.

O acordo de Minsk II foi feito em fevereiro de 2015. Suas disposições incluíam o "diálogo" de Kiev com os separatistas, uma anistia para seus militares e uma reforma constitucional para dar maior autonomia às regiões ucranianas.

Um potencial Minsk III poderia incluir demandas para federalizar abertamente a Ucrânia, algo que tornaria suas regiões semi-independentes em seus assuntos internos, como o uso da língua russa ou laços mais próximos com a Rússia.

O Primeiro-Ministro da Hungria, Viktor Orban, há anos também vinha pedindo maior autonomia para cerca de 150.000 húngaros étnicos que vivem na região da Transcarpathia, no sudoeste da Ucrânia.

As tensões aumentaram depois que Kiev proibiu o uso de "línguas regionais", incluindo russo e húngaro, em escolas públicas e documentação, enquanto outras minorias étnicas na Ucrânia expressaram preocupação com o uso de suas línguas.

Nesta segunda-feira, em longo discurso televisado, Putin descreveu a Ucrânia como uma criação soviética, uma nação "fraterna" tornando-se uma "colônia" do Ocidente e caindo sob o domínio de um governo "russofóbico", hostil a Moscou e negando direitos humanos básicos a russos étnicos e falantes russos.

Putin disse que o processo de Minsk falhou e que a Ucrânia "não está interessada em soluções pacíficas – eles querem iniciar uma Blitzkrieg [ataques rápidos e de surpresa, evitando que as forças inimigas tenham tempo de organizar a defesa]".

Após a assinatura dos decretos, Putin enviou tropas russas adicionais para regiões na área fronteiriça de Donbass, em uma operação de "manutenção da paz".

Putin alertou que a Rússia responsabilizá a Ucrânia por qualquer "derramamento de sangue" na região.

As tropas russas permanecerão por tempo indefinido nas duas repúblicas, segundo os termos dos acordos firmados com o Kremlin, nos quais a Rússia defenderá as fronteiras dos Estados separatistas.

Sanções

A Casa Branca disse que Joe Biden emitirá uma Ordem Executiva proibindo novos investimentos, comércio e financiamento por entidades dos EUA nas regiões de Donetsk e Luhansk. A Secretária de Imprensa Jen Psaki disse que a ordem também permitirá  impôr sanções às pessoas que operam nas duas repúblicas.

Um porta-voz de Olaf Scholz disse que o chanceler alemão "condenou" o reconhecimento de Donetsk e Luhansk como Estados independentes, acrescentando que a medida estaria "completamente em desacordo com o acordo de Minsk sobre uma solução pacífica do conflito no leste da Ucrânia".

Em reuniões separadas na semana passada com Olaf Scholz e Emmanuel Macron, Putin já havia informado aos dois líderes da decisão da Rússia de reconhecer a independência de Donetsk e Luhansk.

Ursula von der Leyen, presidente da Comissão Europeia, e Charles Michel, presidente do Conselho Europeu, disseram que o reconhecimento da Rússia foi "uma violação flagrante do direito internacional" e disse que a União Europeia "reagirá com sanções contra os envolvidos neste ato ilegal", relata o Financial Times.

A OTAN, que agora defende que os territórios ucranianos com maioria étnica russa devem permanecer na Ucrânia, é a mesma OTAN que em 1999 bombardeou a Sérvia, para que esta abrisse mão de 20% do seu território onde estava uma maioria albanesa (Kosovo).

Os mercados responderam com alarme. O índice russo Moex fechou em baixa de 10,5%, sua queda mais acentuada desde que a Rússia anexou a Crimea em 2014.

* Com informações da TASS, Financial Times, RT

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