Como não depender das "peculiaridades do Ocidente" foi o motivo condutor da visita do ministro russo das Relações Exteriores, Sergei Lavrov, a Teerã.

Desde as sanções impostas pelos países ocidentais para punir a Rússia por sua anexação da Crimeia e sua primeira intervenção na região de Donbass, em 2014, o país tem trabalhado para superar obstáculos colocados ao seu comércio exterior.

Sob sanções há mais de 40 anos, o Irã entende as novas realidades da Rússia.

Moscou e Teerã são unânimes em apontar os Estados Unidos como os responsáveis por todos os conflitos regionais – da Ucrânia ao Oriente Médio.

"Todos os países que são afetados negativamente pela linha egoísta dos Estados Unidos e seus satélites têm uma necessidade objetiva de reconfigurar seus laços econômicos de forma a não depender das peculiaridades e caprichos de nossos parceiros ocidentais", disse Lavrov, durante uma reunião com o presidente iraniano Ebrahim Raisi, na noite de quarta-feira (22).

Swgundo o ministro russo, o presidente Vladimir Putin supervisiona pessoalmente o processo de "adaptação das esferas econômica, social, bancária e financeira às realidades que agora se formam como resultado da política agressiva e egoísta do Ocidente".

Nesse contexto, os interlocutores discutiram as perspectivas para o desenvolvimento da cooperação econômica entre Moscou e Teerã, bem como a parceria regional, incluindo no âmbito da União Econômica da Eurásia e da Organização de Cooperação de Xangai.

O tema do desenvolvimento no contexto das sanções continuou na quinta-feira, em uma reunião de Sergey Lavrov e o Ministro iraniano das Relações Exteriores, Hossein Amir-Abdollahian.

Ambos concordaram que o novo acordo de parceria estratégica seja realizado o mais rapidamente possível, intensificando a cooperação, principalmente no âmbito comercial e econômico. Teerã assinou acordos semelhantes com a China (março de 2021) e a Venezuela (junho de 2022).

Sergey Lavrov lembrou que no ano passado o crescimento do volume de negócios foi de 80%, pela primeira vez ultrapassando US$ 4 bilhões.

Teerã quer aumentar o comércio com a Rússia para US$ 40 bilhões. Como primeiro passo, foi discutida a abolição de vistos para empresários.

"Nossos planos bilaterais, que estamos considerando hoje e que já estão tomando forma concreta e estão começando a ser implementados, visam não depender de forma alguma da interferência unilateral ilegal de ninguém", disse Lavrov.

Rússia e Irã tomarão medidas conjuntas para neutralizar as sanções ocidentais, prometeu o Ministro iraniano das Relações Exteriores durante uma coletiva de imprensa após as conversações.

Projetos discutidos há anos, entre eles o fornecimento de gás e petróleo e a transição para assentamentos em moedas nacionais, incluindo a possibilidade de interconectar os sistemas de pagamento Shetab e Mir, poderão ser implementados.

"Apesar de estar sob sanções, o Irã conseguiu desenvolver uma série de indústrias, garantir sua segurança alimentar e não se afastou de suas prioridades políticas externas e internas. Ou seja, tendo recursos mais modestos do que a Rússia, conseguiu suportar sanções graves", disse o diretor de programas do Conselho de Assuntos Internacionais da Rússia, Ivan Timofeev, ao jornal Kommersant. "Mas a principal lição a ser aprendida com a experiência iraniana é que todos os acordos para levantar ou aliviar as sanções são frágeis".

"Assim que o humor e a conjuntura nos Estados Unidos mudam, toda a estrutura entra em colapso. Se os EUA trazem de volta o regime de sanções, ele é seguido por quase todos os principais negócios do mundo", acrescentou Timofeev. "As promessas de levantar ou mitigar as sanções devem ser tomadas com cuidado".

Nos últimos anos, o Irã experimentou a variabilidade da política de Washington.

Em 2015, Teerã assinou o Plano de Ação Conjunto Abrangente (JCPOA) com os cinco membros permanentes do Conselho de Segurança da ONU e a Alemanha, o que implicava o fim das sanções contra o Irã em troca de limitar seu programa nuclear.

Três anos depois, os EUA se retiraram unilateralmente do JCPOA e retomaram suas sanções contra o Irã. Teerã respondeu abandonando obrigações sob o JCPOA.

Após a mudança da administração presidencial em Washington, os Estados Unidos decidiram levantar a questão do retorno ao "acordo nuclear".

Em fevereiro deste ano, foi relatado que o novo acordo estava mais de 90% pronto, mas em março as negociações pararam. Os Estados Unidos e o Irã não concordaram com a questão do fim das sanções.

No momento, há pouca esperança para o sucesso das negociações. Como enfatizaram os ministros das Relações Exteriores da Rússia e do Irã, tudo depende da posição de Washington.

"Em relação a quase qualquer problema que esteja na agenda internacional, os EUA agem de forma absolutamente inconsistente, guiados por algumas considerações de curto prazo, olhando quais problemas surgem dentro dos próprios Estados Unidos e como você pode tentar distrair a atenção dos eleitores desses problemas domésticos", disse Latrov.

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