Atualização 08/09 - O estudo de Fase 3 da vacina Covid-19 da AstraZeneca foi suspenso em todos os países participantes devido a suspeita de reação adversa grave em um participante no Reino Unido.

O voluntário no estudo do Reino Unido recebeu um diagnóstico de mielite transversa, uma síndrome inflamatória que afeta a medula espinhal.

O mecanismo da mielite transversa em geral é desconhecido, mas alguns casos ocorrem após infecção viral ou vacinação, sugerindo uma reação autoimune. A inflamação tende a envolver a coluna vertebral difusamente em um ou mais níveis, afetando todas as funções da medula.

O momento do diagnóstico, e se está diretamente relacionado à vacina da AstraZeneca/Oxford, ainda é desconhecido.

Os ensaios clínicos da vacina experimental estão sendo realizados no Reino Unido, Brasil, África do Sul e Estados Unidos.

Desde o lançamento da vacina Sputnik V, desenvolvida por cientistas do Centro Gamaleya de Moscou, a Rússia recebeu pedidos que totalizam 1 bilhão de doses.

No entanto, enfrentou críticas e questionamentos de farmacêuticas e de alguns países, especialmente de envolvidos em desenvolvimento ou fabricação de suas próprias vacinas.

Na sexta-feira (4), os resultados dos ensaios clínicos de Fase I e Fase II da Sputnik V foram publicados na revista The Lancet (Safety and immunogenicity of an rAd26 and rAd5 vector-based heterologous prime-boost COVID-19 vaccine in two formulations: two open, non-randomised phase 1/2 studies from Russia), permitindo uma melhor avaliação da vacina desenvolvida pelos cientistas russos.

Mecanismos de proteção

  • Os anticorpos neutralizam um vírus antes de entrar numa célula.
  • Os linfócitos T (células T, células imunológicas) induzem a autodestruição de células invadidas por vírus, bactérias intracelulares, danificadas ou cancerígenas.

Os estudos sobre os mecanismos de proteção contra SARS-CoV-2 ainda estão em sua fase inicial. Segundo Nota Técnica da Sociedade Brasileira de Imunologia (SBI), "de uma maneira geral é bem aceito que a resposta imune efetora contra as infecções virais envolve os anticorpos neutralizantes, que se ligam ao vírus no espaço extracelular e bloqueiam sua entrada nas células hospedeiras".

"Além dos anticorpos, existem os linfócitos T CD8 (citotóxicos), que destroem as células infectadas após detectarem os antígenos virais em suas superfícies. Já os linfócitos T CD4 (auxiliares) são fundamentais para os dois tipos de mecanismos efetores".

"A queda de anticorpos circulantes é um processo natural em grande parte das infecções uma vez que a carga viral seja controlada ou completamente eliminada pela ação do sistema imune", explica a Nota.

"A questão mais importante é definir qual é a especificidade dos anticorpos protetores (neutralizantes) e por quanto tempo eles se mantêm na nossa circulação, em níveis suficientemente elevados para controlar a infecção viral".

"Existem evidências de que após a queda de anticorpos específicos, e mesmo em indivíduos que nunca tiveram Covid-19, estão presentes linfócitos T específicos para proteínas do SARS-CoV-2, talvez pela similaridade com proteínas de outros coronavírus circulantes. A pergunta que fica é se estes linfócitos T pré-existentes contribuem para a resistência à reinfecção ou nova infecção com SARS-CoV-2, acelerando uma nova resposta de anticorpos ou atuando diretamente nas células infectadas", continua a nota da sociedade científica.

Veja também: Células imunológicas para resfriado comum podem reconhecer o vírus da Covid

"O grande desconhecido no momento é quais parâmetros de imunidade oferecem o indicador mais fiel de verdadeira imunidade protetora contra infecções futuras", afirma o imunologista Danny Altmann, Professor do Imperial College de Londres.

Tecnologia

As vacinas de primeira geração utilizam os microrganismos íntegros, quer sejam inativados (“mortos”) ou atenuados (“enfraquecidos”). As inativadas são mais seguras mas induzem uma resposta de curta duração. As vacinas inativadas das empresas chinesas Sinovac (privada) e Sinopharm (estatal) estão sendo testadas pelo Instituto Butantan, do Governo do Estado de São Paulo, e em negociação com o TecPar, do Governo do Paraná, respectivamente.

As vacinas de segunda geração são compostas por um fragmento de um patógeno, obtido por processos bioquímicos ou por tecnologia recombinante. Inclui-se neste grupo os vetores virais não replicantes expressando um antígeno alvo do agente etiológico da doença em questão.

Os adenovírus não replicantes se encontram como as vacinas mais avançadas para Covid-19.

Adenovírus não replicantes

Vírus são seres acelulares formados por uma capa constituída por vários tipos de proteínas que envolve e protege uma ou mais moléculas de ácido nucleico (DNA, RNA, ou ambos). Sem contar com metabolismo próprio, os vírus necessitam de uma célula pertencente a outro organismo que lhe sirva de hospedeiro para dar prosseguimento ao processo de replicação do material genético.

Cada tipo de vírus consegue infectar um grupo específico de células. Elas são selecionadas de acordo com a capacidade de combinar as moléculas de proteínas do vírus com as substâncias químicas presentes na superfície das células que se prestarão ao papel de hospedeiras.

Os adenovírus humanos infectam preferencialmente as células das vias aéreas e causam doenças como gripes e resfriados, conjuntivite, bronquite, pneumonia e algumas enfermidades do trato intestinal.

Existem 51 serotipos divididos em 6 sub-grupos (A-F) de adenovírus humanos.

A tecnologia das vacinas experimentais consiste em fabricar, através de engenharia genética, um "coronavírus fake", um vetor contendo um gene do SARS-CoV-2 criado a partir de um adenovírus, preparando o sistema imunológico para identificar e combater o coronavírus real em caso de contágio.

Um vetor é um vírus que não pode se replicar e é usado para transportar material genético de outro vírus.

Um vetor é um vírus que não possui gene responsável pela replicação e é usado para transportar material genético de outro vírus. Um gene que codifica a proteína S dos spikes do SARS-COV-2 é inserido em cada vetor. Os spikes formam a "coroa" da qual o coronavírus recebe o nome. O SARS-COV-2 usa essas pontas para entrar em uma célula. Fonte/arte: © Gamaleya Center, RDIF
Um vetor é um vírus que não possui gene responsável pela replicação e é usado para transportar material genético de outro vírus. Um gene que codifica a proteína S dos spikes do SARS-COV-2 é inserido em cada vetor. Os spikes formam a "coroa" da qual o coronavírus recebe o nome. O SARS-COV-2 usa essas pontas para entrar em uma célula. Fonte/arte: © Gamaleya Center, RDIF
Ilustração do mecanismo de entrada do SARS-CoV-2 na célula e da ação dos anticorpos neutralizantes
Ilustração do mecanismo de entrada do SARS-CoV-2 na célula e da ação dos anticorpos neutralizantes

A estratégia, comum a todas as formulações, é, por manipulação genética, inativar os genes necessários para a replicação do adenovírus e incluir no seu genoma o gene que codifica a proteína ​spike do SARS-CoV-2, utilizada na ligação do novo coronavírus com as células humanas.

O resultado é um vírus que têm a capacidade de invadir as células hospedeiras, expressar suas proteínas, incluindo a ​spike, mas que não replica, e portanto não infecta novas células e não se dissemina no organismo.

Quando a dose contendo uma carga desses vírus é injetada no corpo humano, na vacinação, eles invadem células sadias que tem afinidade, induzindo uma resposta imune ao adenovírus específico e, principalmente, à proteina spike, uma "assinatura" do coronavírus SARS-CoV-2.

Segundo a nota da SBI, "estes vetores são sabidamente ótimos indutores dos linfócitos citotóxicos, mas não são muito eficientes na indução de uma resposta de anticorpos. Porém, não sabemos qual é a duração de uma resposta imune induzida por estes vetores virais".

Uma outra limitação desta formulação é uso de uma segunda dose, "uma vez que o vetor vacinal induz resposta imune contra o próprio vetor, e não só contra a proteína ​spike, e desta forma a potência da segunda dose é limitada pelos anticorpos neutralizantes contra o próprio adenovírus".

"Isso levanta uma grande questão sobre o uso do mesmo adenovírus em uma segunda dose de reforço da resposta imune, e também na dose anual, se for necessário", destaca a Nota Técnica da SBI.

Vacinas

Diferentes tipos de adenovírus estão sendo utilizados nas vacinas candidatas que usam vetores virais não replicantes:

  • CanSino - adenovírus serotipo 5 (Ad5)
  • AstraZeneca/Oxford - adenovírus de chimpanzé
  • Janssen (Johnson & Johnson) - adenovírus serotipo 26 (Ad26)
  • Gamaleya (Sputnik V) -  adenovírus serotipos 5 e 26

CanSino

Segundo a nota da ABI, "o estudo clínico fase I realizado com adenovírus 5 codificando a ​spike demonstrou que após dose única esta vacina induziu tanto resposta de anticorpo quanto resposta celular contra o antígeno do SARS-CoV-2. A resposta de anticorpos induzida por esta vacina em pacientes com exposição prévia ao adenovírus 5 foi afetada de forma moderada. O estudo foi ampliado e tolerabilidade e imunogenicidade foram confirmados no ensaio fase II. Esta vacina [CanSino] é hoje aprovada para uso limitado na China".

O estudo utilizou doses com 50 bilhões e 100 bilhões de partículas virais/ml.

AstraZeneca/Oxford

O estudo clínico realizado com adenovírus de chimpanzé demonstrou que "após a primeira dose a indução da uma resposta de anticorpos foi moderada, ficando abaixo daquela detectada em indivíduos convalescentes. Após a segunda dose, em um número pequeno de indivíduos [10], a resposta de anticorpos aumentou para níveis equiparáveis aos dos indivíduos infectados convalescentes", diz a nota.

Jansen-Cilag

Dan Barouch, Professor de Medicina e de Imunologia da Escola de Medicina da Universidade Harvard e um dos desenvolvedores da vacina Covid da divisião farmacêutica da Johnson & Johnson, disse em junho que os esforços visam uma vacina que previne infecções.

Em março, o Dr. Barouch e seus colegas desenvolveram sete variantes de uma vacina Ad26 para o coronavírus. Eles fizeram pequenas alterações no gene spike para ver se conseguiam fazer com que as células fizessem mais cópias da proteína viral. Eles também testaram variantes que tornariam a proteína do pico mais estável, o que pode levar a uma resposta imunológica mais forte.

A sétima versão provou ser mais poderosa do que as outras: cinco dos seis macacos que a receberam não tinham nenhum vírus detectável. O sexto tinha apenas níveis baixos em seu nariz.

“O fato de podermos proteger com uma única dose animais foi uma surpresa bastante positiva para nós”, disse o Dr. Paul Stoffels, diretor científico da Johnson & Johnson, ao NYT.

Foi essa vacina de melhor desempenho que a Johnson & Johnson usou para iniciar seu teste de segurança em humanos.

Para o Professor Dan Barouch, os preventivos bem-sucedidos também devem impedir a transmissão.

Vacinas eficazes podem permitir que algumas células sejam infectadas, mas controlam o crescimento do vírus antes que ele possa ser transmitido a outras pessoas, defende Barouch.

O estudo da fase III terá a participação de 60 mil voluntários -- 7 mil no Brasil, distribuídos nos estados de São Paulo, Rio Grande do Sul, Rio de Janeiro, Paraná, Minas Gerais, Bahia e Rio Grande do Norte. A empresa planeja testar doses simples e duplas.

Gamaleya (Sputnik V)

A vacina Sputnik V, desenvolvida pelo Instituto Gamaleya, usa uma tecnologia única de adenovírus humano de dois vetores.

Após a primeira injeção, o vetor (adenovírus sem capacidade de replicar e carregando material do SARS-CoV-2) invade uma célula sadia, causando reação do sistema imune. Na segunda aplicação, um vetor com um adenovírus diferente causa uma nova reação do sistema imunológico, reforçando a defesa do organismo. Fonte/arte: © Gamaleya Center, RDIF
Após a primeira injeção da vacina, o vetor (adenovírus sem capacidade de replicar e carregando material do SARS-CoV-2) invade uma célula sadia, causando reação do sistema imune. Na segunda aplicação, 3 semanas após a primeira, um vetor com um adenovírus diferente causa uma nova reação do sistema imunológico, reforçando a defesa do organismo. Fonte/arte: © Gamaleya Center, RDIF

"Nossa tecnologia emprega dois vetores adenovirais humanos diferentes, Ad5 e Ad26, para uma primeira e uma segunda injeção. Essa tecnologia ajuda a superar a imunidade pré-existente aos adenovírus. A Rússia se beneficiou com a modificação para Covid-19 de uma plataforma de vacina de dois vetores existente desenvolvida em 2015 para a febre Ebola, que passou por todas as fases de testes clínicos e foi usada para ajudar a derrotar a epidemia de Ebola na África em 2017", explica Kirill Dmitriev, CEO do Russian Direct Investment Fund –  um dos principais fundos soberanos do mundo, com um capital de US$ 10 bilhões sob sua gestão, que está financiando o desenvolvimento e fabricação da vacina Sputnik V.

Sobre a eficácia do uso do Ad5, que é um adenovírus de alta circulação e causa resfriado, o Diretor-Adjunto para Pesquisa do Instituto Gamaleya, Denis Lugonov, afirmou que a dose mais alta na primeira injeção supera a eventual imunidade que os indivíduos possam ter ao patógeno.

Dmitriev afirma que todos os participantes dos testes clínicos do Sputnik V geraram uma resposta imune humoral e celular estável.

"O nível de anticorpos neutralizantes de vírus de voluntários vacinados com Sputnik V foi 1,5 vezes maior do que o nível de anticorpos de pacientes com Covid-19 grave que se recuperaram da doença. Em contraste, a empresa farmacêutica britânica AstraZeneca demonstrou o nível de anticorpos de seus voluntários em seu ensaio clínico em um nível virtualmente igual ao nível de anticorpos daqueles que se recuperaram do coronavírus. A imunidade das células T com os dois tipos de células especiais CD4+ e CD8+ foi formada em todos os voluntários que participaram dos ensaios clínicos da vacina Sputnik V. Essas células especiais reconhecem e destroem as células infectadas pelo SARS-CoV-2 e formam a base da imunidade de longo prazo", disse Dmitriev ao Russian Today (RT), site de notícias ligado ao governo russo.

"Especialistas do Centro Gamaleya conseguiram provar a eficácia da plataforma de vetores adenovirais humanos, apesar das preocupações de que as pessoas vacinadas poderiam ter imunidade pré-existente aos adenovírus humanos. A dosagem segura ideal foi determinada, o que permitiu que uma resposta imune eficaz fosse alcançada em 100 por cento dos vacinados em testes, mesmo naqueles que tiveram uma infecção recente de adenovírus", disse o CEO do RDIF.

A preocupação com a imunidade pré-existente para infecções adenovirais foi a principal razão para o surgimento de métodos alternativos, como vetor adenoviral de macaco ou plataformas de mRNA.

"Por meio do uso de dois vetores diferentes – baseados nos serotipos de adenovírus humanos Ad5 e Ad26 – em duas aplicações separadas, é possível obter uma resposta imunológica mais eficaz. Já no caso de usar o mesmo vetor para duas injeções, o sistema imunológico lança mecanismos de defesa e passa a rejeitar a droga na segunda injeção. Assim, o uso de dois vetores diferentes na vacina Sputnik V evita um possível efeito neutralizante e proporciona uma reação imunológica mais forte e durável", defende o executivo.

Ambas as doses foram de 100 bilhões de partículas virais cada. A dose foi definida com base em resultados de estudos pré-clínicos (dados não publicados).

A vacina foi fabricada em duas formulações, congelada (Gam-COVID-Vac) e liofilizada (Gam-COVID-Vac-Lyo). A vacina congelada tem um volume de 0,5 ml (por dose) e a vacina liofilizada deve ser reconstituída em 1,0 ml de água esterilizada para injetáveis (por dose).

Segurança

Dmitriev também se manifestou sobre as críticas envolvendo o número de participantes nos ensaios clínicos.

"Superficialmente, o teste Sputnik V com 76 participantes parece menor em tamanho em comparação com 1.077 pessoas que, por exemplo, a AstraZeneca teve em seus estudos de Fase I-II. No entanto, o design do teste do Sputnik V foi muito mais eficiente e baseado em melhores suposições. A AstraZeneca realizou seu teste desde o início com um modelo de uma dose, mas essa foi uma suposição falsa, já que apenas um modelo de duas doses pode fornecer uma imunidade duradoura, como a AstraZeneca admitiu após os testes. Como resultado de suposições iniciais erradas, a AstraZeneca testou o modelo de duas doses apenas em 10 pessoas de 1.077. No geral, o número de pessoas que receberam duas injeções no estudo Sputnik V excedeu em 4 vezes o número semelhante no estudo AstraZenecba".

"Os estudos pós-registro, envolvendo mais de 40.000 pessoas, começaram na Rússia em 26 de agosto, antes que a AstraZeneca iniciasse seu teste de Fase III nos EUA com 30.000 participantes. Os ensaios clínicos na Arábia Saudita, Emirados Árabes Unidos, Filipinas, Índia e Brasil vão começar este mês", disse Dmitriev.

Questionado sobre como a vacina Sputnik V se tornou elegível para registro de uso de emergência, Kirill Dmitriev disse ao RT que a plataforma baseada em vetores adenovirais humanos provou ser a mais segura ao longo de décadas, com mais de 250 estudos clínicos e 75 publicações científicas internacionais.

"Os cientistas forneceram dados convincentes sobre a segurança do uso de vacinas e medicamentos adenovirais humanos em todo o mundo com base em estudos desde 1953. De acordo com registros, mais de 10 milhões de militares dos EUA receberam vacinas adenovirais humanas desde 1971. Um tratamento contra o câncer, Gendicina, baseado em vetores adenovirais humanos, foi administrado a mais de 30.000 pessoas na China no decorrer de 15 anos. Os ensaios clínicos de vacinas baseadas na tecnologia de vetor adenoviral humano, usando os mesmos vetores do Sputnik V, já envolveram mais de 25.000 pessoas em todo o mundo. Desde 2015, mais de 3.000 pessoas receberam vacinas baseadas em vetores adenovirais humanos contra a febre Ebola e a Síndrome Respiratória do Oriente Médio (MERS), criadas no Centro Gamaleya", disse Dmitriev.

"Portanto, a Rússia registrou a vacina porque tinha uma plataforma de entrega de adenovírus humano, previamente aprovada, segura e eficiente para outras doenças".

"Desde o registro do Sputnik V na Rússia, outros países também anunciaram planos de seguir a abordagem russa para o registro de uso de emergência de suas vacinas. A vacina da Sinovac Biotech recebeu uma aprovação semelhante na China", ponderou o CEO.

"O governo do Reino Unido e o chefe da Food and Drug Administration (FDA) dos Estados Unidos, Stephen Hahn, sinalizaram o potencial de registro rápido para fabricantes de vacinas britânicos e americanos, respectivamente, apesar de suas reservas anteriores", acrescentou Kirill Dmitriev, ressaltando que "as vacinas de adenovírus de macaco e mRNA nunca foram usadas e aprovadas antes e sua pesquisa está atrasada em pelo menos 20 anos em relação à comprovada plataforma baseada em vetores adenovirais humanos".

"Existem muitas vantagens na tecnologia de mRNA, que podem desempenhar um papel importante no futuro, mas as verificações de segurança de longo prazo ainda não estão entre essas vantagens", disse.

"A falha fatal das vacinas mRNA e aquelas baseadas em vetores adenovirais de macacos [AstraZeneca/Oxford] é que mesmo os ensaios de Fase III não respondem a perguntas sobre os riscos de longo prazo, enquanto tais questões sobre vacinas baseadas em vetores adenovirais humanos foram respondidas com sucesso", destacou Dmitriev.

"Acreditamos ser importante conscientizar as pessoas sobre os riscos envolvidos na aprovação de soluções novas e não testadas, como mRNA ou plataformas baseadas em vetores de adenovírus de macaco. Nós apreciamos a 'garantia de segurança', planejada pelas empresas farmacêuticas para ser anunciada em breve, mas esperamos que ela se comprometa não apenas a garantir resultados em curto prazo, mas também se comprometa a garantir que não haja riscos aumentados de câncer e infertilidade em longo prazo devido às vacinas", provoca Dmitriev.

"A pior pandemia em um século tem todos nós em busca urgente de soluções. Mas esperamos que nossos críticos sigam os mesmos padrões de rigor, segurança e transparência que exigem para a vacina russa. Afinal, precisamos enfrentar a pandemia em conjunto, com total transparência e sem vieses".

A Sputnik V será testada no Brasil. O Governo do Paraná já assinou contrato e outras unidades federativas estão negociando com o fundo russo.

Eficácia

Na sexta-feira (4), a porta-voz da Organização Mundial de Saúde (OMS), Margaret Harris, disse  que nenhuma das candidatas a vacina que estão na fase III demonstrou, até agora, sinal claro de eficácia em um nível mínimo de 50%.

A OMS recomenda que as vacinas bem-sucedidas apresentem uma redução de risco estimada de pelo menos metade, com precisão suficiente para concluir que a verdadeira eficácia da vacina é superior a 30%. Isso significa que o intervalo de confiança (CI) de 95% para o resultado do ensaio deve excluir eficácia inferior a 30%.

A orientação atual da Food and Drug Administration dos EUA inclui esse limite inferior de 30% como critério para o licenciamento da vacina.

Como um exemplo de resultado que apenas satisfaria esses dois critérios, um ensaio randomizado com 50 casos surgindo naqueles vacinados e 100 casos surgindo naqueles que receberam placebo teria um CI de 95% que exclui apenas 30%, mas sugeriria 50% eficácia de curto prazo.

Uma vacina com eficácia de 50% pode reduzir consideravelmente a incidência de Covid-19 em indivíduos vacinados e pode fornecer imunidade de rebanho.

Portanto, embora uma eficácia muito maior que 50% fosse melhor (as autoridades de saúde dos EUA buscam vacinas com 80%, por exemplo), a eficácia de cerca de 50% representaria um progresso substancial.

Evidências confiáveis ​​também são necessárias sobre a eficácia em longo prazo, a segurança da vacina e a proteção contra Covid-19 grave. São necessários ensaios de tamanho e duração suficientes para fornecer isso para determinar se a vacina pode tornar o vírus da Covid-19 mais perigoso (disease enhancement).

Os ensaios que avaliam apenas os desfechos imunológicos não podem fornecer essa evidência, e os estudos de desafio em humanos em voluntários jovens, de outra forma saudáveis, adultos podem não fornecer evidências suficientes de segurança ou eficácia em outras populações. As avaliações de segurança em estudos multivacinas podem determinar diretamente se determinadas vacinas têm efeitos adversos não compartilhados por outras vacinas.

Segundo a Sociedade Brasileira de Imunologia, para que seu uso seja justificado, o grau de proteção alcançado por uma vacina deveria ser de pelo menos 60-70% em um ano.

"Uma vacina com eficácia de menos de 70%, pode minimizar as formas graves da doença, mas provavelmente não impactará na transmissão do vírus", pondera a sociedade científica em Nota Técnica, ressaltando que é um equívoco avaliar vacinas com base em respostas iniciais de ensaios clínicos.

"É sabido que devido a sua atividade adjuvante, uma vacina funciona como imunoestimulante e pode, nos meses iniciais, proteger indivíduos por mecanismos não relacionados com a imunidade específica mediada pelos anticorpos e linfócitos T. Além disto, existe a janela imunológica. Normalmente a resposta imune demora entre 30-60 dias para se consolidar, em especial, se uma segunda dose for necessária. Portanto, acreditamos que 12 meses seria um tempo mínimo aceitável para avaliar uma vacina contra Covid-19", diz a Nota.

A entidade alerta também para a importante distinção entre imunidade e proteção.

"Quando imunologistas falam em imunidade, normalmente refere-se à detecção de respostas imunes que indicam contato com o patógeno e geração de memória. Contudo, isso não é automaticamente um correlato de proteção. Das respostas detectadas em indivíduos infectados ou vacinados, é preciso ainda investigar quais delas conferem proteção. Mais ainda, diferentes níveis de proteção podem ser gerados em um indivíduo. Anticorpos neutralizantes, por exemplo, podem conferir imunidade esterilizante: eles bloqueiam a infecção e portanto impedem transmissão. Já linfócitos T de memória dificilmente impedem a infecção, mas são fundamentais para limitar a patologia e a gravidade da doença. No entanto, é possível que um indivíduo, mesmo com sintomas brandos da doença e com indícios de uma resposta imune, dissemine o vírus", explica a Nota Técnica da SBI.

Segundo o CEO da AstraZeneca Pascal Soriot, em entrevista à BBC, a vacina será um sucesso contra sintomas graves.

Por sua vez, a Food and Drug Administration (FDA) está considerando opções para uma vacina que apenas previna casos graves de Covid-19.

"Poderíamos considerar uma indicação relacionada à prevenção de doenças graves, desde que os dados disponíveis suportem os benefícios da vacinação", disse o porta-voz da FDA Michael Felberbaum em resposta a perguntas. "Para o licenciamento, não exigiríamos que uma vacina proteja contra a infecção".

Em outras palavras, as pessoas vacinadas poderão transmitir o vírus e também adoecer.

"As vacinas contra o coronavírus em desenvolvimento não funcionam da maneira que as pessoas pensam sobre as vacinas: elas não protegem você de ficar doente", alerta o Dr. William A. Haseltine, ex-professor da Escola de Medicina de Harvard e conhecido por seu trabalho inovador em HIV/AIDS e no genoma humano.

* Com informações da Sociedade Brasileira de Imunologia (SBI), The Lancet, RT, TASS, DrauzioVarella, Valor Econômico,

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