A construção de uma ponte de 19 quilometros ligando a Crimeia ao sudoeste da Rússia vinha sendo considerada desde o final do século 19. O Governo Putin construiu 18 das 25 pontes mais extensas da Rússia. Foto: Divulgação

Por mais de um século, vários grupos tentaram ligar os dois lados do Estreito de Kerch, do czar imperial russo Nicolau II ao arquiteto nazista Albert Speer.

Em 2014, Vladimir Putin começou a concretizar o que originalmente era um projeto russo-ucraniano. Engenheiros russos projetaram duas pontes paralelas com 19 km de extensão, uma para o tráfego de automóveis, ônibus e caminhões, e a outra para o transporte ferroviário de carga pesada. Custo estimado da obra: US$ 3,7 bilhões. A construção foi iniciada em maio de 2015.

Em maio de 2018, Putin inaugurava a ponte rodoviária dirigindo um caminhão.

Nesta segunda-feira (23), o presidente russo posou triunfante na cabine da primeira locomotiva a trafegar na ponte.  

"Com o trabalho, talento, determinação e mente única, vocês provaram que a Rússia é capaz de executar grandes projetos de infraestrutura de nível mundial. É a maior ponte não só da Rússia, mas também da Europa", discursou o Presidente para uma multidão de operários da construção.

A ponte mais extensa da Europa é a Vasco da Gama, em Lisboa. Somados os viadutos, a ponte portuguesa totaliza 17,2 km.

Putin disse aos trabalhadores que apenas três vezes em 145 anos a rota ferroviária de São Petersburgo a Sevastopol (Crimeia) havia sido interrompida: durante a Revolução Russa, a Segunda Guerra Mundial, e em 2014.

As pontes tem capacidade diária de 40 mil veículos e 47 trens em cada sentido.

O primeiro trem de passageiros para Sevastopol, distante 2,500 km de São Petersburgo, partiu nesta segunda-feira com 530 pessoas a bordo. O serviço regular de passageiros com embarque em Moscou começará amanhã (24).

A ponte ferroviária será aberta para trens de carga em junho de 2020.

O governo da Rússia tem ativamente promovido o turismo na ensolarada península, um grande destino de férias na época da União Soviética.

"Em 1783, a Imperatriz Catarina, a Grande, concedeu terras à nobreza russa para que estabelecesse magníficas propriedades ao longo da montanhosa costa sul, que rivaliza em beleza com o Amalfi. A partir de então, a Crimeia passou a ser o lugar favorito para as férias da elite russa, preferência que os turistas soviéticos conservaram no século XX"

El País

Apesar da infraestrutura antiga e sanções impedindo os turistas de usar cartões bancários internacionais e redes de celulares bloqueadas, a Crimeia, com seu clima, suas praias e vinhedos, sua história e variedade de culturas, atrai mais de 500 mil turistas a cada ano.

Reunificação ou Anexação?

A Crimeia fez parte do território da Rússia por 170 anos, de 1783 a 1954.

Estrategicamente localizada, a península deu à Rússia influência militar no Mar Negro e no Mediterrâneo.

"A Crimeia era a linha tectônica que separava a Rússia do mundo muçulmano, divisão religiosa sobre a qual se assentou a formação do Império Russo. A partir de Sevastopol, a frota do mar Negro podia impor a vontade do czar ao Império Otomano, assegurando o controle da Rússia  sobre os estreitos que conduzem ao Mediterrâneo", explica o El País.

Em 1954, o governo soviético transferiu a República Autônoma Socialista Soviética da Crimeia da República Socialista Federativa Soviética da Rússia para a República Socialista Soviética da Ucrânia. Não são conhecidos os motivos da transferência.

Na década de 1950, a população da Crimeia - 1,1 milhão - era aproximadamente 75% de etnia russa e 25% de etnia ucraniana.

Com a dissolução da União Soviética, a região tornou-se República Autônoma da Crimeia, parte do Estado recém-independente da Ucrânia. Para Putin, “milhões de russos foram dormir em um país e acordaram vivendo em outro”.

A Crimeia entrou em decadência após ingressar na Ucrânia, em 1992. Centenas de instituições educacionais em cidades e vilarejos fecharam e o setor agrícola despencou por não ter apoio. As estradas foram danificadas e não havia iluminação nas ruas.

Em 2014, 95,5% dos votos foi pela península retornar à Federação Russa.

A Rússia sustenta que o plebiscito foi realizado em total conformidade com o direito internacional.

Decorridos cinco anos, caminhões e máquinas de construção estão em toda parte da península, principalmente em Sevastopol, que foi declarada a terceira e mais nova cidade federal da Rússia.

Reação da OTAN

Em resposta ao avanço da OTAN (em azul), a Rússia realizou em 2018 as maiores manobras militares desde 1981, mobilizando 300 mil soldados e contingentes da China e da Mongólia.
Em resposta ao avanço da OTAN (em azul), em setembro de 2018 a Rússia mobilizou 300 mil soldados e contingentes da China e da Mongólia no maior exercício militar desde 1981 .

O representante da União Europeia para a Política Externa e de Segurança, Josep Borrell, disse que a ligação ferroviária Rússia-Crimeia constitui "uma nova violação da soberania e integridade territorial" ucraniana por parte de Moscou.

Ele também destacou que a ponte que sustenta a ligação ferroviária "limita a passagem de navios" pelo Estreito de Kerch até os portos ucranianos no Mar de Azov.

"A União Europeia espera que a Rússia garanta uma passagem livre e desimpedida pelo Estreito de Kerch, de acordo com o direito internacional", disse o chefe da diplomacia europeia, 19 meses após inaugurada a ponte rodoviária.

Borrell tem motivos mais concretos para protestar, como o fato da linha férrea ter sido construída para suportar 'cargas pesadas' e velocidades acima de 90 km/h, o que permite, por exemplo, o transporte rápido e em grande volume de itens militares, suprimentos e tropas para a península.

Ele reiterou o apoio total da UE à independência, soberania e integridade territorial da Ucrânia, e recordou que a UE "não reconhece, nem reconhecerá, a anexação ilegal da Crimeia pela Rússia".

O tom ácido contrasta com o momento de melhoria das relações entre os dois vizinhos.

O Presidente Volodymyr Zelensky se encontrou com Putin no início deste mês para sua primeira reunião de cúpula internacional com o objetivo de resolver o conflito no leste da Ucrânia.

Por sua vez, Rússia e Ucrânia alcançaram entendimento sobre a renovação de um acordo de trânsito de gás. A Rússia vai enviar à Europa 65 bilhões de metros cúbicos de gás natural em 2020, e outros 40 bilhões nos quatro anos seguintes, através de dutos que cruzam a Ucrânia.

O acordo ainda prevê o pagamento de US$ 2,9 bilhões pela gigante russa Gazprom à ucraniana Naftogaz para encerrar uma disputa comercial datada de 2014.

A renovação do acordo assume especial importância após a aprovação pelos Estados Unidos de sanções contra empresas que participem da construção do gasoduto Nord Stream 2, ligando diretamente Rússia a Alemanha e outros países europeus. Com a medida americana, a empresa suíça Allseas anunciou que suspenderá as atividades do empreendimento.

Não é segredo a pretensão dos EUA exportar gás liquefeito para a Europa. Bolívia e Brasil também tem interesse naquele mercado.

Economia

O que é irônico, dado que os riscos das manchetes geopolíticas na Rússia de Putin foram tão sombrios em 2019 quanto a qualquer momento nas últimas duas décadas como presidente, é que o rublo e a bolsa de valores da Rússia obtiveram o melhor desempenho do mundo em 2019.

O rublo valorizou 17% em relação ao dólar.

O índice MSCI russo, que acompanha as 23 maiores empresas russas de capital aberto, subiu 44% desde o início do ano, de acordo com Cole Akeson, analista do Sberbank. O índice RTS subiu 40%. No conjunto, as ações russas superaram a maioria das ações de mercados emergentes e acompanharam o S&P 500 (+37%).

A relação dívida / PIB da Rússia é de apenas 20%.O PIB per capita PPP (Purchasing Power Parity) da Russia em 2018 foi estimado em 29.260 dolares pelo FMI.

A relação dívida pública / PIB do Brasil está próxima de 80%. O PIB per capita PPP brasileiro em 2018 foi de 16.754 dolares.  

Sanções internacionais

Desde 2014, os EUA e a União Europeia impuseram algumas das mais rigorosas sanções econômicas às empresas russas na história moderna.

As sanções da União Europeia proíbem "todos os investimentos estrangeiros" na Crimeia, bem como os serviços "relacionados a atividades de turismo, inclusive no setor marítimo, e nos setores de transporte, telecomunicações, energia e exploração de petróleo, gás e minerais".

Contudo, autoridades russas afirmam que empresas da UE e dos EUA estão operando na Crimeia apesar das sanções.

Os proprietários de marcas famosas de vinhos e bebidas alcoólicas continuaram suas operações na Crimeia usando empresas da UE depois que o bloco impôs sanções em 2014.

“Esta região tem um alto potencial de ser uma região de vinícolas. Nossa colheita deste ano foi de mais de 20 toneladas de uvas, o dobro do que produzimos há cinco anos. Muitas plantações de uva foram financiadas. Se você provar o vinho de Sevastopol, ficará agradavelmente surpreso com sua qualidade”, disse o Governador Mikhail Razvozhaev ao The Citizen.

Vinhos produzidos na região podem ser encontrados por US$ 10 a garrafa. Foto: Dave Proffer
Vinhos produzidos na região podem ser encontrados por até US$ 10 no comércio local. Foto: Dave Proffer

Após a anexação, um dos maiores produtores de álcool da Ucrânia, Alef-Vinal, dividiu seus negócios em segmentos ucraniano e russo. A empresa envia seus vinhos para o mercado russo a partir de quatro instalações, todas localizadas na Crimeia, enquanto a divisão ucraniana diz que seus produtos são vendidos fora da Rússia.

No resort de Yalta, no sul da Crimeia, o Hotel Sevastopol oferece aos hóspedes uma piscina externa, academia e quartos com vista para o Mar Negro. Embora o proprietário formal do hotel seja uma empresa registrada na Rússia, seu principal beneficiário é uma empresária ucraniana que o controla por meio de uma cadeia europeia.

Em junho de 2019, o governo russo permitiu que informações sobre as empresas da Criméia fossem ocultadas no registro público oficial, caso fossem atingidas por sanções estrangeiras ou mantivessem filiais ou outras entidades afiliadas na península.

* Com informações e dados de Mark Kramer/Wilson Center, The Citizen, El País