Os voos marcam uma mudança na posição da Rússia em relação ao Afeganistão, embora o Ministério das Relações Exteriores russo tenha declarado que não fechará sua embaixada no país.

Nesta quarta-feira (25), o Kremlin disse que a situação está muito tensa no Afeganistão, citando a presença do Estado Islâmico e do Talibã, e avaliou que a ameaça terrorista é "muito alta", em linha com observadores internacionais.

O Ministério da Defesa da Rússia disse que evacuou mais de 500 pessoas, incluindo russos e cidadãos da Bielo-Rússia, Quirguistão, Tajiquistão, Uzbequistão e Ucrânia.

Os quatro aviões já retornaram e pousaram no aeroporto de Chkalovsky, próximo de Moscou. O primeiro a chegar, trouxe cerca de 100 pessoas, a maioria cidadãos russos de origem afegã. Os aviões fizeram escala no Tajiquistão e no Quirguistão.

Uma das aeronaves transportou os cidadãos do Tajiquistão evacuados para o campo de aviação na cidade de Hissor, no oeste do país, e dois aviões pousaram com cidadãos quirguizes a bordo na base militar de Kant, no Quirguistão.

A operação russa acontece após a decisão do Presidente dos EUA Joe Biden de manter o plano de retirada de todas as tropas americanas restantes até 31 de agosto, desafiando a pressão internacional de aliados europeus e outros para permitir mais tempo para a evacuação de estrangeiros e afegãos em risco.

Líderes do Talibã continuam a enfatizar que as tropas americanas devem partir e que os voos de evacuação devem cessar até o final do mês.

“As tropas estrangeiras devem retirar-se dentro do prazo. Isso abrirá o caminho para a retomada dos voos civis”, disse Suhail Shaheen, porta-voz do Talibã, em rede social após uma reunião com diplomatas alemães em Doha, na quarta-feira.

A Rússia já admitiu cerca de 1.000 afegãos, incluindo portadores de passaportes russos, residentes permanentes e estudantes universitários, de acordo com um grupo da diáspora afegã em Moscou.

A Organização do Tratado de Segurança Coletiva (CSTO) é uma aliança militar intergovernamental na Eurásia formada por um grupo de nações da ex-União Soviética: Rússia, Armênia, Bielorrússia, Cazaquistão, Quirguistão e Tajiquistão. © Wadsam
A Organização do Tratado de Segurança Coletiva (CSTO) é uma aliança militar intergovernamental na Eurásia formada por um grupo de nações da ex-União Soviética: Rússia, Armênia, Bielorrússia, Cazaquistão, Quirguistão e Tajiquistão. © Wadsam

Ameaça regional

A Rússia vê a ex-Ásia Central soviética como parte de seu flanco defensivo ao sul e teme a disseminação do islamismo radical. Moscou já reforçou sua base no Tajiquistão e vem realizando exercícios militares há mais de um mês no país.

Na quarta-feira, o ministério da defesa russo disse que está empregando tanques T-72 nas montanhas do Tajiquistão, os quais praticaram disparos contra alvos móveis de longo alcance, informou a agência de notícias Interfax.

Putin anteriormente criticou as ações dos EUA e seus aliados e os acusou de deixar o Afeganistão no caos, representando uma ameaça potencial à segurança da Rússia e de seus aliados na Ásia Central que fazem fronteira com o país devastado pela guerra, onde grupos poderão usar a turbulência para desestabilizar nações vizinhas.

“Há o perigo de que terroristas e diferentes grupos que encontraram refúgio no Afeganistão usem o caos deixado por nossos colegas ocidentais e tentem lançar uma expansão em países vizinhos”, disse Putin. “Isso representará uma ameaça direta ao nosso país e aliados”.

O Kremlin disse que Putin conversou com o presidente chinês Xi Jinping sobre a evolução da situação. Os líderes enfatizaram a importância de evitar que a instabilidade no Afeganistão se espalhe para as regiões vizinhas e disseram que intensificarão os esforços diplomáticos, bilateralmente e por meio da Organização de Cooperação de Xangai, um órgão de segurança asiático liderado por Moscou e Pequim.

Tajiquistão

Em um desenvolvimento significativo, o Tajiquistão traçou uma linha vermelha clara contra o Talibã e que Dushanbe não reconhecerá o governo formado por meio de opressão.

A questão foi levantada durante a reunião do presidente tadjique Emomali Rahmon e do Ministro das Relações Exteriores do Paquistão, SM Qureshi.

Segundo a agência estatal Khovar, Rahmon disse que “o Tajiquistão não reconhecerá nenhum outro governo formado neste país pela opressão, sem levar em consideração a posição de todo o povo afegão, especialmente de todas as suas minorias” e “frisou que os tadjiques têm um lugar digno no futuro governo do Afeganistão".

Durante a reunião, o presidente tadjique apontou que "as evidências mostram claramente que o Talibã está abandonando suas promessas anteriores de formar um governo provisório com a ampla participação de outras forças políticas no país e se preparando para estabelecer um emirado islâmico".

Os comentários têm peso, já que os tadjiques são uma das principais etnias do Afeganistão, junto com os pashtuns, os uzbeques e os hazaras.

"Condenando veementemente todas as formas de ilegalidade, assassinato, pilhagem e perseguição ao povo afegão, especialmente tadjiques, uzbeques e outras minorias nacionais", disse o Presidente. “É necessário estabelecer um governo inclusivo com a participação de todas as minorias nacionais, especialmente os tadjiques no Afeganistão, que representam mais de 46% da população”.

Ele também alertou que a "indiferença da comunidade internacional à situação atual no Afeganistão pode levar a uma guerra civil prolongada".

Atualização 26/08/2021

A Chanceler Angela Merkel deve ignorar a linha do Presidente dos EUA Joe Biden de que todas as evacuações devem terminar até 31 de agosto.

Merkel disse ao parlamento alemão nesta quinta-feira (26) que o fim da ponte aérea não deve significar o fim dos esforços de proteção aos afegãos que foram deixados em uma situação de emergência com a tomada do Talibã.

“É por isso que estamos trabalhando intensamente em todos os níveis para descobrir como podemos proteger aqueles que nos ajudaram”, acrescentou.

Há preocupações generalizadas de que a violência vá explodir à medida que o prazo para retirada das tropas estrangeiras se aproxima.

Novas imagens mostram combatentes do Talibã iniciando operações com um helicóptero americano UH-60 Blackhawk na província de Kandahar.

“Tudo o que não foi destruído agora é do Talibã”, disse uma autoridade dos EUA. As últimas filmagens foram feitas após a divulgação de dezenas de fotos de combatentes posando com sofisticados armamentos americanos. O custo do equipamento militar deixado para trás é estimado em mais de £ 13 bilhões.

Atualização 26/08/2021

O Japão continuou os esforços nesta quinta-feira (26) para evacuar seus cidadãos e funcionários locais que trabalham em sua embaixada e outras organizações japonesas no Afeganistão, disseram as autoridades, em meio ao caos no aeroporto internacional de Cabul.

O Japão já enviou três aviões de transporte das Forças de Autodefesa (SDF) para Islamabad, no vizinho Paquistão, base de operação da missão que envolve a evacuação de cerca de 500 pessoas do Afeganistão.

Uma aeronave da SDF pousou no aeroporto de Cabul duas vezes na tarde desta quinta-feira, mas não conseguiu evacuar as pessoas em fuga do país, pois não conseguiram chegar ao aeroporto.

Diplomatas japoneses foram evacuados para Dubai na semana passada depois que a embaixada em Cabul foi fechada em 15 de agosto, mas alguns japoneses que trabalham para organizações internacionais permanecem retidos no Afeganistão.

Atualização 26/08/2021

O aeroporto de Cabul foi alvo de duas explosões por homens-bomba do Estado Islâmico. De acordo com o último relatório, as explosões mataram 103 pessoas, incluindo 13 soldados americanos. O Talibã condenou os ataques e prometeu punir os responsáveis.

Atualização 27/08/2021

A Rússia está seriamente preocupada com a forma como a situação no Afeganistão está se desenvolvendo e condena veementemente os ataques terroristas em Cabul, disse o porta-voz presidencial Dmitry Peskov à imprensa nesta sexta-feira (27).

"Condenamos esses ataques terroristas da maneira mais veemente. Os relatos sobre pesadas baixas são notícias muito tristes, é claro. Lamentavelmente, bastante corretos foram os prognósticos pessimistas de que o caos no Afeganistão certamente será usado pelos grupos e organizações terroristas entrincheirados lá, em em primeiro lugar, o Estado Islâmico (proibido na Rússia) e seus derivados", disse Peskov. "Isso gera mais tensões no Afeganistão. O risco é muito grande para todos. E, é claro, esse continua sendo um motivo de nossa séria preocupação".

* Com informações da TASS, WION, Financial Times, Interfax, The Japan Times

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