Vários governos estão procurando maneiras de contornar a escassez de vacinas covid-19, incluindo o adiamento da segunda aplicação e a diluição de doses.

O objetivo é aumentar o número de pessoas com imunidade pelo menos parcial, reduzindo potencialmente a carga sobre os sistemas de saúde. O risco, alertam especialistas, é tornar o vírus da covid-19 resistente às vacinas.

Em meados de dezembro passado, Putin observou que o governo russo estava estudando inocular uma só dose da Sputnik V, em vez de duas, para alcançar uma parcela maior da população e mais rapidamente.

“Uma possibilidade é criar uma versão light da vacina. Isso significaria dar uma só injeção. Seria de menor duração, o nível de proteção seria menor, mas ainda chegaria a 85%. E assim poderíamos produzir dezenas de milhões imediatamente”, conjecturou o líder da Rússia.

A campanha de imunização russa continua aplicando as duas doses em intervalo de 21 dias, mas os fabricantes descobriram que a produção da segunda dose da Sputnik V é menos estável, o que está gerando um excedente do primeiro componente.

No mês passado, a Rússia despachou 300.000 doses da Sputnik V para a Argentina, sua primeira grande remessa internacional da vacina, consistindo apenas do primeiro componente, excedente do lote, informou a Reuters.

Nesse contexto, surge o produto comercial Sputnik Light, uma vacina de dose única posicionada como uma solução temporária e eficaz para países que estão com altas taxas de infecção do vírus da covid-19.

O anúncio do ensaio russo com apenas a 1ª dose da Sputnik V coincide com a publicação na New England Journal of Medicine do artigo Interim Results of a Phase 1–2a Trial of Ad26.COV2.S Covid-19 Vaccine, abordando o teste da vacina contra o coronavírus da Johnson & Johnson em cerca de 800 voluntários, sugerindo que o medicamento é seguro, provavelmente eficaz e com efeitos colaterais mínimos, após uma única dose.

Os pesquisadores – na Holanda, Estados Unidos e Bélgica –  testaram a vacina da Johnson & Johnson em um grupo de pessoas com 65 anos ou mais e em um grupo de 18 a 55 anos. A vacinação induziu anticorpos neutralizantes – esperados para impedir o vírus de infectar as células – em 90% de todos os participantes até o 29º dia após a primeira dose da vacina e em todos eles até dois meses após a primeira dose. Os níveis desses anticorpos permaneceram estáveis por pelo menos 71 dias.

Em rede social, uma conta oficial da vacina Sputnik V apontou o artigo como confirmação da segurança e eficácia da tecnologia utilizada por ambas vacinas.

"A vacina J&J simplificada é apenas a primeira metade da Sputnik V. A J&J usa a 1ª dose da Sputnik V (vetor Ad26), também chamada de Sputnik V Light. Os dados da J&J confirmam a segurança e eficácia da Sputnik V Light, da Sputnik V e da plataforma de vetor adenoviral humano".

A estratégia comum é modificar um adenovírus humano, que têm a capacidade de invadir uma célula hospedeira, para expressar a proteína ​spike do coronavírus SARS-CoV-2, causador da covid-19, sem disseminar o adenovírus no organismo.

Os adenovírus humanos infectam preferencialmente as células das vias aéreas e causam doenças como gripes e resfriados, conjuntivite, bronquite, pneumonia e algumas enfermidades do trato intestinal.

Existem 51 serotipos divididos em 6 sub-grupos (A-F) de adenovírus humanos.

O Instituto Gamaleya informou que a Sputnik V obteve eficácia de 91,4% usando dois vetores de adenovírus, serotipos 26 (Ad26) e 5 (Ad5), injetados com intervalo de 21 dias. Ainda não foram publicados os dados e resultados dos ensaios de fase 3.

A vacina da J&J utiliza o adenovírus serotipo 26 (Ad26). Uma vacina eficaz de dose única tem vantagens logísticas óbvias, mas a farmacêutica está estudando se uma segunda dose aumenta a eficácia ou durabilidade da resposta imunológica.

Dan Barouch, Professor de Medicina e de Imunologia da Escola de Medicina da Universidade Harvard, e seus colegas desenvolveram para a J&J/Jansen-Cilag sete variantes de uma vacina Ad26 para o coronavírus. A sétima versão provou ser mais poderosa do que as outras: cinco dos seis macacos que a receberam não tinham nenhum vírus detectável. O sexto tinha apenas níveis baixos em seu nariz.

Para avaliar o feito da J&J, no ensaio da vacina da Oxford/AstraZeneca, todos os macacos vacinados foram infectados e não houve diferença na carga viral em comparação com os animais não vacinados – a vacina covid britânica não forneceu imunidade esterilizante ao ataque do vírus, o padrão-ouro para qualquer vacina.

A Johnson & Johnson espera divulgar no fim do mês detalhes dos ensaios de fase 3 e solicitar autorização de uso emergencial em seguida.

"A Companhia antecipa o anúncio dos principais dados da fase 3 para a vacina candidata de dose única da Janssen no final de janeiro de 2021; no entanto, como este teste depende de eventos de doenças, o momento é aproximado", disse a Johnson & Johnson em um comunicado.

"Se a vacina de dose única se mostrar segura e eficaz, a Companhia espera apresentar um pedido de Autorização para Uso de Emergência junto à Food and Drug Administration dos EUA logo em seguida, com outros pedidos regulatórios em todo o mundo a serem feitos posteriormente", diz o comunicado.

A Johnson & Johnson foi contratada para entregar 100 milhões de doses ao governo dos EUA, caso a vacina obtenha autorização da FDA.

Na Europa, a vacina da J&J/Jansen-Cilag será vendida aos países da União Europeia por US$ 8,50 a dose. A Sputnik V com duas doses custa US$ 20.

A Rússia apresentará um pedido formal à União Europeia no mês que vem para a aprovação da Sputnik V. Os resultados dos ensaios de fase 3, revisados por pares, serão publicados em breve e demonstrarão sua alta eficácia, garante Kirill Dmitriev, CEO do Russian Direct Investment Fund –  um dos principais fundos soberanos do mundo, que está financiando o desenvolvimento e fabricação da vacina.

Alexander Gintsburg, chefe do Instituto Gamaleya, espera que as vacinas, incluindo o Sputnik V, ajudem a controlar a pandemia, mas não espera que o coronavírus simplesmente desapareça.

O  instituto já está trabalhando em uma solução que permitirá integrar vacinas contra a covid-19 às vacinas contra a gripe sazonal.

“O ensaio clínico está em nossos planos para o início do próximo ano”, disse Gintsburg.

* Com informações RDIF, Reuters, CNN, El País

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