Malone aborda ambos os tópicos no artigo Has Omicron shifted receptor binding specificity away from deep lung tissue?, postado na quarta-feira (15).

"Com base nos relatos atuais, o Ômicron parece estar associado a três características amplas: escape da vacina, aumento da replicação viral e redução da doença", escreve o pesquisador.

"Em contraste, a variante dominante anterior (Delta) também está associada ao escape da vacina, ao aumento da replicação viral e ao aumento da gravidade da doença em comparação com as variantes dominantes que circularam anteriormente".

Malone observa que o Ômicron não é uma mutação das variantes existentes.

"Por que as parcelas evolutivas mostram que o Ômicron representa um ramo separado dos vírus circulantes atualmente? Como poderia tantas mutações que conferem resistência à vacina de repente aparecer?".

"Botsuana (e África do Sul em geral) não tem uma taxa de vacinação muito alta, então por que uma cepa de vírus resistente a vacinas se desenvolveria nesta região?", indaga Malone. "Muitas e muitas perguntas.  Muito poucas respostas".

O médico explica que a alta taxa de mutações observadas com o SARS-CoV-2 ocorre independentemente do estado vacinal, pois são uma consequência de não existir um segundo conjunto de RNA que possa ser usado para identificar quando a polimerase (enzima que produz novos genomas virais de RNA) cometeu um erro.

O resultado é que cada célula infectada libera um "enxame" de partículas virais, muitas das quais são diferentes umas das outras.

"A questão não é se as mutações virais ocorrem com ou sem vacinação, mas sim quais pressões naturais de seleção estão presentes para selecionar quais vírus sobrevivem, infectam outras células e fazem mais cópias de si mesmos", destaca.

Cada geração de vírus produz um grande número de descendentes em um período muito curto. E cada vez que o enxame de vírus "pula" de uma pessoa para outra, os membros do enxame que fazem o salto encontram um novo hospedeiro.

Basicamente, qualquer obstáculo para o vírus infectar uma pessoa, replicar e saltar para outro hospedeiro levará o vírus a evoluir para escapar desse obstáculo. O que se sabe sobre o Ômicron é que tem muitas novas mutações associadas ao aumento da resistência aos efeitos dos anticorpos induzidos por vacinas.

"E se Ômicron for a consequência da pressão evolutiva para se replicar e infectar de forma mais eficiente, talvez para competir com a Delta? Ou como consequência da passagem entre os hospedeiros humanos e animais? E se o que realmente aconteceu é que Ômicron evoluiu para mudar o local onde ele se replica em nosso corpo? E se ele evoluiu para se replicar mais em nossas vias respiratórias superiores, e menos na parte profunda de nossos tecidos pulmonares?", conjectura Malone.

"Alguma coisa assim já aconteceu antes, talvez com outros vírus respiratórios do RNA?  Como, digamos, influenza A?  Com certeza sim.  Em geral, cepas de influenza pandêmicas mais graves são frequentemente associadas a mutações de ligação de receptores que lhes permitem infectar tecidos pulmonares mais profundos, enquanto cepas de influenza que causam menos doenças infectam partes superiores do nosso trato respiratório.  No entanto, vírus que geralmente infectam pulmão profundo podem ser menos infecciosos para outros", pondera o pesquisador.

Na quarta-feira (15), o comunicado à imprensa HKUMed finds Omicron SARS-CoV-2 can infect faster and better than Delta in human bronchus but with less severe infection in lung, divulgado  pela Faculdade de Medicina da Universidade de Hong Kong (HKUMed), forneceu as primeiras informações sobre como a nova variante infecta o trato respiratório humano.

"Os pesquisadores descobriram que o Ômicron infecta e multiplica 70 vezes mais rápido que a variante Delta e o SARS-CoV-2 original em brônquios humanos, o que pode explicar por que o Ômicron pode transmitir mais rápido entre humanos do que variantes anteriores. O estudo também mostrou que a infecção por Ômicron no pulmão é significativamente menor do que o SARS-CoV-2 original, que pode ser um indicador de menor gravidade da doença. Esta pesquisa está atualmente sob revisão por pares para publicação", diz a nota da HKU.
© Michael Chan Chi-wai et al, Universidade de Hong Kong
© Michael Chan Chi-wai et al, Universidade de Hong Kong

A HKUMed foi pioneira no uso de culturas ex vivo do trato respiratório para investigar muitas infecções emergentes por vírus desde 2007, como a gripe aviária, coronavírus da Síndrome Respiratória do Oriente Médio (MERS). Agora, esta técnica foi aplicada para entender por que a variante Ômicron pode diferir na transmissão e gravidade da doença de outras variantes do SARS-CoV-2 original.

Os pesquisadores da HKUMed "descobriram que a nova variante Omicron se replica mais rápido do que o vírus SARS-CoV-2 original e a variante Delta no brônquio humano – 24 horas após a infecção, a variante Ômicron se replicou cerca de 70 vezes mais que a variante Delta e o vírus SARS-CoV-2 original. Em contraste, a variante Ômicron se replicou menos eficientemente (mais de 10 vezes menos) no tecido pulmonar humano do que o vírus SARS-CoV-2 original, o que pode sugerir menor gravidade da doença", diz a nota.

"É importante notar que a gravidade da doença em humanos não é determinada apenas pela replicação do vírus, mas também pela resposta imune hospedeira à infecção, o que pode levar à desregulação do sistema imunológico inato, ou seja, "tempestade de citocinas", observou o Dr Michael Chan Chi-wai, líder da pesquisa. "Observa-se também que, ao infectar muito mais pessoas, um vírus muito infeccioso pode causar doenças mais graves e morte, embora o vírus em si possa ser menos patogênico. Portanto, juntamente com nossos estudos recentes mostrando que a variante Ômicron pode escapar parcialmente da imunidade de vacinas e infecções passadas, a ameaça global da variante Ômicron provavelmente será muito significativa".

"Mas e se o que está acontecendo com o Ômicron não é tanto impulsionado por anticorpos dirigidos contra o Spike RBD, mas por seleção para mudar a região do trato respiratório que ele infecta? Ou talvez, esta variante tenha saltado para frente e para trás entre humanos e outras espécies, e ao fazê-lo tem acumulado mutações que têm explorado diferenças sutis no receptor ACE2", especula Malone.

"Algo que sempre me fascinou sobre a evolução viral é a existência de ilhas evolutivas. Regiões de otimização genética que podem não ser a melhor solução, mas que podem exigir alterações genéticas menos adaptativas para um determinado ambiente antes de serem capazes de chegar a uma nova 'ilha' genética que seja mais próxima do ideal. Uma vez que uma população (enxame) de vírus é capaz de fazer a ponte entre as barreiras evolutivas para chegar a uma nova 'ilha', então eles têm uma espécie de explosão evolutiva que pode resultar em muitas mudanças em um curto período de tempo à medida que evoluem para se adaptar ao novo ideal dessa 'ilha'. Talvez o que estamos vendo com o Ômicron seja a consequência genética de uma dessas explosões evolutivas", escreve Malone.

"É por isso que essa nova descoberta da equipe da Universidade de Hong Kong é tão significativa. Porque indica que o que pode ser mais importante sobre Ômicron pode não ser a capacidade de escapar da imunidade induzida pela vacina, mas que mudou seu alvo de tecido preferido para infecção e replicação para as vias aéreas superiores em vez de pulmão profundo.  Isso poderia explicar por que é mais infeccioso, se replica em níveis mais altos, e ainda causa doenças menos graves", conclui Robert Malone. "Vamos esperar que esse seja o nosso melhor presente neste Natal".

Atualização 28/12/2021

Infecções vs hospitalizações vs óbitos na África do Sul:

• As infecções atingiram 117% do pico Delta, agora caíram para 66% do pico Delta
• Hospitalizações em 60% do pico Delta
• Óbitos em 16% do pico Delta

Atualização 06/01/2022

O artigo Omicron’s feeble attack on the lungs could make it less dangerous, publicado na Nature na quarta-feira (5), relata que "evidências crescentes de estudos com animais sugerem que o Ômicron não se multiplica facilmente no tecido pulmonar".

"As primeiras indicações da África do Sul e do Reino Unido sinalizam que a variante Omicron de rápida disseminação do coronavírus SARS-CoV-2 é menos perigosa do que seu predecessor Delta. Agora, uma série de estudos de laboratório oferece uma explicação tentadora para a diferença: o Ômicron não infecta as células nas profundezas dos pulmões com a mesma rapidez com que o faz nas vias aéreas superiores", escreve o autor.

Mas o número de pessoas que ganharam proteção imunológica contra covid-19 por meio de infecção prévia, vacinação, ou ambos, torna difícil determinar se a variante Ômicron causa intrinsecamente uma doença mais branda do que as variantes anteriores.

Para obter respostas, pesquisadores utilizaram roedores e células em estudos de laboratório.

Michael Diamond, virologista da Washington University em St. Louis, Missouri, e seus colegas infectaram hamsters e camundongos com Ômicron e outras variantes para monitorar a progressão da doença.

"Após alguns dias, a concentração de vírus nos pulmões de animais infectados com Ômicron era pelo menos dez vezes menor do que em roedores infectados com outras variantes", diz o artigo da Nature. "Outras equipes também observaram que, em comparação com as variantes anteriores, a Ômicron é encontrada em níveis reduzidos no tecido pulmonar".

Diamond diz que os animais infectados com Ômicron quase mantiveram seu peso corporal, enquanto os outros perderam peso rapidamente – um sinal de que suas infecções estavam causando doenças graves.

“Cada cepa de SARS-CoV-2 infectou hamsters com muita facilidade, em níveis elevados”, diz Diamond, “e está claro que este é diferente para hamsters”.

Os pulmões são onde o coronavírus causa grande parte de seus danos, e a infecção pulmonar pode desencadear uma resposta imune inflamatória que destrói as células infectadas e não infectadas, causando cicatrizes nos tecidos e privação de oxigênio. Menos células pulmonares infectadas podem significar doença mais branda.

Experimentos de outros pesquisadores identificaram uma causa plausível para a diferença: uma proteína chamada TMPRSS2, que se projeta da superfície de muitas células nos pulmões e outros órgãos, mas está notavelmente ausente das superfícies da maioria das células do nariz e da garganta.

Variantes anteriores exploraram esta proteína para infectar células, mas os pesquisadores descobriram que a Ômicron não se liga à TMPRSS2 tão bem.

"A dificuldade de entrar nas células pulmonares pode ajudar a explicar por que a Ômicron se sai melhor nas vias aéreas superiores do que nos pulmões, diz Ravindra Gupta, virologista da Universidade de Cambridge, no Reino Unido, coautor de um dos estudos TMPRSS2", relata o artigo.

"Essa teoria também poderia explicar por que, segundo algumas estimativas, a Ômicron é quase tão transmissível quanto o sarampo, que é a referência para alta transmissibilidade, diz Diamond. Se a variante persistir nas vias aéreas superiores, as partículas virais podem achar mais fácil pegar uma carona no material expelido do nariz e da boca, permitindo que o vírus encontre novos hospedeiros, diz Gupta. Outros dados fornecem evidências diretas de que a Ômicron se replica mais facilmente nas vias aéreas superiores do que nos pulmões", diz o texto.

Os resultados mais recentes podem significar que "o vírus estabelece uma infecção mais localizada nas vias respiratórias superiores e tem menos chance de atingir e causar estragos nos pulmões”.

"Isso seria uma boa notícia – mas a resposta imunológica do hospedeiro desempenha um papel importante na gravidade da doença, e os cientistas precisam de mais dados clínicos se quiserem entender como a biologia básica do Ômicron influencia a progressão da doença em humanos", aponta o artigo da Nature.

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