A notícia de que um número crescente de casos de um tipo muito específico e raro de evento de coagulação do sangue foi identificado no Reino Unido coloca em questão a visão de que o fenômeno foi puramente observado na Europa continental.

Segundo o Financial Times, a MHRA esclareceu que não tinha observado nenhuma das mesmas reações em indivíduos que receberam a vacina BioNTech / Pfizer.

Em outubro do ano passado, Kate Bingham, ex-chefe da UK Vaccine Taskforce, em entrevista ao Financial Times observou que a vacinação de pessoas saudáveis, que são muito menos propensas a ter resultados graves com Covid-19, "poderia causar-lhes algum dano (freak harm)", um risco potencialmente significativo na análise de risco-benefício de vacinar toda a população com medicamentos pouco testados.

Em março, mais de duas dúzias de países suspenderam o uso da vacina da AstraZeneca.

Em seu relatório preliminar de 18 de março, o comitê de segurança da Agência Europeia de Medicamentos (EMA) concluiu que “a relação causal com a vacina não está comprovada, mas é possível e merece uma análise mais aprofundada”.

Depois disso, a maioria dos vários países europeus que haviam suspendido a droga retomou a vacinação com o imunizante da AstraZeneca.

Nos países nórdicos, no entanto, as autoridades permaneceram cautelosas, utilizando a vacina apenas em pessoas idosas, onde é maior o risco da covid-19.

Suécia e Finlândia agora usam a vacina da AstraZeneca apenas para a população com mais de 65 anos.

Na Islândia, apenas pessoas com mais de 70 anos receberão a vacina britânica.

Dinamarca e Noruega prolongaram a suspensão da vacina AstraZeneca até meados de abril.

"Observamos a revisão da EMA, mas as coisas parecem diferentes na Noruega", disse Sara Sofie Viksmoen Watle, médica sênior do Instituto Norueguês de Saúde Pública, destacando as altas taxas de incidentes graves e suspeitos no país após as inoculações da AstraZeneca.

"Pode haver o risco de subnotificação de outros países, onde os hospitais estão sobrecarregados devido ao coronavírus", alerta Watle, acrescentando que novos casos ainda podem aparecer em outros países.

A principal condição que causa o alarme é chamada de trombose do seio venoso cerebral (cerebral venous sinus thrombosis - CVST), uma complicação potencialmente fatal que ocorre no cérebro quando um coágulo de sangue se forma nos seios venosos, impedindo que o sangue seja drenado. Como resultado, as células sanguíneas podem se romper e vazar para os tecidos cerebrais, formando uma hemorragia.

Segundo o site da Johns Hopkins Medicine, a CVST é uma forma rara de AVC. Afeta cerca de 5 pessoas em 1 milhão a cada ano. Os sintomas incluem dores de cabeça, visão embaçada, desmaios, perda de controle de uma parte do corpo e convulsões.

Nos casos preocupantes, a CVST é combinada com um problema chamado trombocitopenia, em que o paciente também apresenta níveis anormalmente baixos de plaquetas, resultando em sangramento intenso.

Até 24 de março, a MHRA recebeu 22 notificações de CVST, e oito de outros eventos de trombose juntamente com nível baixo de plaquetas, de indivíduos que receberam a vacina AstraZeneca. Oito pessoas morreram.

Na Noruega, as autoridades de saúde relataram pelo menos seis desses casos, quatro dos quais morreram.

Na Alemanha, foram notificados 31 casos, incluindo 29 mulheres com idades entre 20 e 63 anos e dois homens com 36 e 57 anos. Nove deles morreram.

Já a Agência Dinamarquesa de Medicamentos está lidando com dois incidentes, um deles fatal. Uma outra morte está sendo investigada.

"Esses incidentes são altamente incomuns e altamente suspeitos. Em minha opinião, há uma grande probabilidade de causalidade", disse a Professora Lone Simonsen, da Universidade Roskilde, uma das maiores especialistas em pandemia da Dinamarca.

Dados recentes da Europa sugerem que o risco de coágulos sanguíneos ligados à vacina da AstraZeneca é agora potencialmente tão alto quanto um em 70.000, muito maior do que o risco de um em um milhão que se acreditava antes.

Na opinião de Simonsen, a taxa é muito alta e acima da taxa de incidência observada em um famoso escândalo de vacinação de 1976 nos Estados Unidos. Naquela época, descobriu-se que as pessoas vacinadas contra a gripe suína corriam um risco maior de contrair a síndrome de Guillain-Barré, uma doença neurológica rara que pode levar à paralisia e, na pior das hipóteses, à morte.

"Para mim, isso é uma bandeira vermelha", disse a epidemiologista.

Duas equipes de pesquisadores médicos na Noruega e na Alemanha descobriram, independentemente, que a vacina pode desencadear uma reação auto-imune, fazendo com que o sangue coagule no cérebro, o que ofereceria uma explicação para incidentes isolados em toda a Europa nas últimas semanas.

O especialista alemão em coagulação Andreas Greinacher, da Universidade de Greifswald, diz que a combinação altamente incomum de sintomas – coágulos sanguíneos disseminados e contagem baixa de plaquetas, às vezes com sangramento – se assemelha a um raro efeito colateral do anticoagulante heparina chamado heparina-trombocitopenia induzida (HIT).

“Nós sabemos o que fazer: como diagnosticar e como tratar”, diz Greinacher, que chama a síndrome de trombocitopenia imune protrombótica induzida por vacina (VIPIT).

A hipótese de Greinacher está sendo levada a sério.

Duas sociedades médicas alemãs divulgaram comunicados à imprensa elogiando-o por resolver o problema. Na Holanda, a Sociedade Holandesa de Medicina Interna exortou os internistas a estarem cientes dos sintomas e do curso de ação recomendado. A Sociedade Britânica de Hematologia exortou seus membros a estarem cientes de "uma área importante e emergente da prática de hemostasia e trombose" e relatar qualquer casos possíveis. O Grupo Consultivo Técnico Australiano sobre Imunização recomendou não administrar qualquer vacina covid a pessoas com histórico de HIT.

Vários pesquisadores disseram à Science que estão convencidos de que a vacina da AstraZeneca está causando o raro conjunto de sintomas. Se confirmado, pode ter consequências importantes para a vacina, que é um dos pilares da Covax, esforço da Organização Mundial de Saúde (OMS) para distribuir bilhões de doses em países de baixa e média renda, que podem ter dificuldade em identificar e tratar efeitos colaterais raros.

Atualização 03/04

Neste sábado (3), a Holanda interrompeu a administração da vacina da AstraZeneca em todas as faixas etárias. De acordo com a Reuters, o Ministro da Saúde holandês, Hugo de Jonge, disse que a suspensão é "uma medida de precaução".

Atualização 06/04

Chefe de vacinas da Agência Europeia de Medicamentos diz que existe relação causal entre vacina da AstraZeneca e trombose cerebral

“Na minha opinião, podemos falar agora, é claro que existe uma ligação com a vacina. Mas ainda não sabemos o que causa essa reação”, disse o responsável pela estratégia de vacinação da EMA, Marco Cavaleri, ao jornal italiano Il Messaggero.

O Comitê de Avaliação do Risco em Farmacovigilância (PRAC) está concluindo a primeira fase da revisão de casos de coágulos sanguíneos que convenceram alguns países europeus a suspender a vacina da AstraZeneca ou a não administrá-la a pessoas com menos de 60 anos.

Marco Cavaleri disse que “nas próximas horas, vamos dizer que existe uma conexão, mas ainda temos que entender como isso acontece”.

“Estamos tentando ter um quadro preciso do que está acontecendo, definir em detalhes essa síndrome decorrente da vacina”, disse Cavaleri.

Ele acrescentou: “Entre os vacinados, há mais casos de trombose cerebral ... entre os jovens do que poderíamos esperar”.

Atualização 14/04

Duas doses da vacina AstraZeneca Covid-19 apresentaram eficácia de apenas 10% contra infecções leves a moderadas causadas pela variante B.1.351 da África do Sul, de acordo com um ensaio clínico de fase 1b-2 publicado na terça-feira (13) no New England Journal of Medicine. Este é um motivo de grande preocupação, pois as variantes sul-africanas compartilham mutações semelhantes às outras variantes, deixando os vacinados com a vacina AstraZeneca potencialmente expostos a múltiplas variantes.

* Com informações do Financial Times, Euronews, Science, Reuters, The Local

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