Kate Bingham disse ao Financial Times que vacinar todos no país “não vai acontecer”, acrescentando: “Só precisamos vacinar todos em risco”.

Seus comentários foram feitos após Boris Johnson ter advertido neste domingo (4) que o país enfrentará um inverno turbulento.

Chamando a si mesmo de um “amante da liberdade”, Johnson exortou os britânicos a viver “sem medo, mas com bom senso”.

O governo britânico pretende vacinar cerca de 30 milhões de pessoas, em comparação com uma população do Reino Unido de cerca de 67 milhões, se uma vacina bem-sucedida contra a Covid-19 for encontrada.

“Não haverá vacinação para menores de 18 anos. É uma vacina apenas para adultos, para pessoas com mais de 50 anos, com foco em profissionais de saúde, cuidadores de lares de idosos e os vulneráveis”, explicou Bingham.

Bingham disse ao FT que a política de vacinação será voltada para aqueles "em maior risco" e observou que a vacinação de pessoas saudáveis, que são muito menos propensas a ter resultados graves com Covid-19, "poderia causar-lhes algum dano (freak harm)", um risco potencialmente significativo na análise de risco-benefício de vacinar toda a população com medicamentos pouco testados.

A política de não vacinar crianças, jovens e adultos saudáveis, e restringir a imunização apenas aos grupos mais vulneráveis, segue a estratégia das autoridades de saúde da Suécia, que consideram as novas vacinas insuficientes para encerrar a pandemia e entendem que a população deverá se manter em alerta contra o vírus, especialmente com boa higiene e distanciamento, por muito tempo ainda.

A orientação mais recente do Comitê Conjunto de Vacinação e Imunização do Reino Unido, publicada na semana passada, afirma que os programas de vacinação com base na idade são geralmente mais fáceis de administrar, recomendando que adultos mais velhos que vivem em lares de idosos e os trabalhadores dessas instalações devem ocupar o topo da lista de prioridades, seguidos de todos os adultos de 80 a 50 anos.

Bingham disse que se alguma vacina se mostrar 95 por cento eficaz, o que é considerado improvável, pode fazer sentido vacinar de forma mais ampla, mas qualquer decisão sobre isso será tomada mais tarde.

Segundo apurou o FT, especialistas em saúde pública avaliam que o fato de muitos britânicos acreditarem que uma vacina seria administrada a toda a população aponta para a falta de clareza nas mensagens do governo sobre o que o público poderia esperar.

“Não foi realmente comunicado com clareza ao público”, disse Devi Sridhar, professora de saúde pública global na Universidade de Edimburgo.

Sridhar entende que o governo deveria ter divulgado o processo de prioridade, argumentando, por exemplo, que os idosos desprovidos precisam ser vacinados antes de outros que possuem uma renda maior.

"A melhor forma de proteção [contra o vírus] é ser rico", disse a professora.

David Nabarro, enviado especial da Organização Mundial da Saúde (OMS), disse ao FT que lidar com a crise do coronavírus “não será o caso de todos serem vacinados”.

“Haverá uma análise definitiva de quem é a prioridade da vacina, com base em onde moram, sua ocupação e sua faixa etária”, disse Nabarro.

“Não estamos fundamentalmente usando a vacina para criar imunidade da população, estamos apenas mudando a probabilidade das pessoas serem lesionadas ou sofrerem”.

É amplamente aceito que qualquer vacina contra a Covid-19 apenas limitará os danos causados pela doença, não prevenindo a transmissão do vírus.

* Com informações do The Financial Times (FT)

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