A agência de notícias russa RIA informou que o decreto, emitido na noite desta terça-feira (8) e com vigor até 31 de dezembro de 2022, introduz medidas econômicas especiais no comércio exterior para "garantir a segurança da Federação Russa e o funcionamento ininterrupto da indústria", proibindo as exportações de certos produtos, commodities e matérias-primas.

As mercadorias que serão proibidas de exportar serão determinadas pelo gabinete russo, disse o decreto.

A lista de países sujeitos à proibição deverá ser apresentada em dois dias.

O decreto veio horas depois do presidente Biden anunciar que os EUA proibiriam as importações de petróleo russo e a União Europeia dizer que terá como objetivo reduzir as importações de gás natural russo em dois terços este ano. O governo britânico também disse nesta terça-feira que estará eliminando as importações russas de petróleo até o final de 2022 e está explorando opções para acabar com as importações russas de gás completamente.

A Rússia é o terceiro maior produtor de petróleo do mundo e o maior exportador de gás natural.

Essencialmente, Biden suspendeu a importação de 200 mil barris por dia de petróleo russo (3% do consumo americano). A Rússia produz diariamente mais de 11 milhões de barris de petróleo, dos quais são exportados 5 milhões por dia.

Os EUA compram petróleo russo em parte para operar refinarias que precisam de diferentes graus de petróleo, com maior teor de enxofre. Nos últimos anos, o petróleo russo preencheu parte da lacuna criada pelas sanções à Venezuela e ao Irã, que prejudicaram o fluxo de tipos similares de petróleo desses países para refinarias na Costa do Golfo e de outras regiões americanas.

A Rússia também é um dos maiores fornecedores de grãos do mundo, e de metais, como alumínio, níquel e paládio. Uma proibição abrangente das exportações poderá acabar com os mercados globais de commodities.

Urânio

A energia nuclear é responsável por 20% da eletricidade gerada nos EUA. No entanto, o país depende extensivamente da Rússia e seus aliados para o fornecimento de combustível de urânio para alimentar os reatores nucleares.

Como a Rússia é um grande fornecedor de urânio para o mundo, o conflito em curso colocou a indústria de energia nuclear em alerta.

O preço do urânio saltou 20% apenas nas últimas duas semanas e está pairando em torno do máximo de 10 anos.

O governo americano excluiu o mineral russo das proibições de importação, após o lobby da indústria de energia nuclear dos EUA interceder para não sancionar as exportações de urânio da Rússia.

Brasil

Em 2021, as empresas russas forneceram quase 10 milhões de toneladas de fertilizantes no valor de cerca de US$ 3,5 bilhões ao mercado brasileiro.

A russa Rosatom exporta combustível para usinas nucleares brasileiras e radioisótopos para fins médicos. A Rosatom também está interessada em participar da construção de novas unidades de energia no Brasil, incluindo usinas nucleares de baixa capacidade (Advanced Small Modular Reactors – SMRs).

Já a estatal russa VSMPO-AVISMA é a maior produtora mundial de titânio e um fornecedor-chave de peças forjadas de ligas de titânio e produtos semiacabados para a indústria aeroespacial global, incluindo Boeing, Airbus e Embraer.

Atualização 09/03/2022

De acordo com a Bloomberg, o governo Biden está considerando impor sanções à empresa estatal russa de energia atômica Rosatom – um grande fornecedor de combustível e tecnologia para usinas nucleares em todo o mundo – embora nenhuma decisão final tenha sido tomada e a Casa Branca esteja consultando a indústria de energia nuclear sobre o impacto potencial.

Rosatom é descrita como "alvo delicado" porque a empresa e suas subsidiárias representam cerca de 35% do enriquecimento global de urânio e têm acordos para enviar o combustível nuclear para países em toda a Europa, o que significa que qualquer sanção corre o risco de mergulhar a Europa na escuridão. Assim, qualquer punição também teria que isentar o trabalho que a Rosatom faz com o Irã sob os termos do acordo que limita o programa nuclear do país, que Biden está buscando reviver. Se a Rosatom for sancionada, provavelmente significa que o acordo nuclear iraniano está morto, e os preços do petróleo subirão ainda mais.

A Rússia fornece atualmente 40%-45% do urânio enriquecido do mundo.

Também não está claro o que as sanções significariam para usinas nucleares dos EUA. A Rússia foi responsável por 16,5% do urânio importado para os EUA em 2020 e 23% do urânio enriquecido necessário para alimentar os reatores nucleares comerciais dos EUA, reabastecidos a cada 18 a 24 meses. As usinas normalmente compram combustível com anos de antecedência e mantêm estoques significativos.

"Não podemos nos dar ao luxo de não ter urânio e enriquecimento russos", disse Chris Gadomski, analista da indústria nuclear da Bloomberg NEF. "O urânio russo é mais barato e os EUA não produzem urânio".

Atualização 04/04/2022

Os Estados Unidos aumentaram suas compras de petróleo russo em 43% entre 19 e 25 de março, de acordo com dados da Administração de Informações sobre Energia (EIA). Apesar da proibição da Casa Branca de importações de energia da Rússia, os EUA continuam a comprar até 100.000 barris de petróleo russo por dia.

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