O parlamento japonês confirmou na quarta-feira (16) Yoshihide Suga como o novo Primeiro-Ministro do país. Ele substituiu Shinzo Abe, que anunciou sua renúncia no mês passado por motivos de saúde, após quase oito anos no cargo.

Suga prometeu dar prioridade ao combate à pandemia e impulsionar a economia, prosseguindo a combinação de políticas "Abenomics" de seu predecessor, de afrouxamento monetário, estímulo fiscal e reformas estruturais.

A expectativa é que o novo Primeiro-Ministro evitará um aperto fiscal vigoroso, embora as medidas de resposta à pandemia do governo Abe tenham aumentado ainda mais a dívida pública líquida do Japão – cerca de 150% do PIB, a mais alta entre os países desenvolvidos.

“Se o governo continuar gastando no ritmo atual, o Japão poderá em breve enfrentar a questão de como financiar de forma sustentável seu enorme déficit fiscal”, disse Yasuhide Yajima, economista-chefe do Instituto de Pesquisa NLI.

O presidente do Banco do Japão (BoJ), Haruhiko Kuroda, indicado por Abe, disse nesta quinta-feira (17) que a autoridade monetária trabalhará em estreita colaboração com a nova administração do país.

Kuroda ressaltou a eficácia do estímulo monetário no apoio à economia. "Os mercados financeiros não estão mais tensos como antes, embora ainda haja algum nervosismo", disse Kuroda, em uma entrevista coletiva após uma reunião de dois dias para definição de políticas, um dia após a definição do gabinete de Suga.

A reunião de política monetária ocorreu em meio à incerteza persistente sobre o impacto da pandemia que levou a economia japonesa a encolher um recorde de 28% a uma taxa anualizada no segundo trimestre de 2020.

A ênfase de Suga na proteção do emprego poderá estimular o BoJ a prestar mais atenção ao mercado de trabalho na condução da política monetária – mesmo que o emprego não faça parte do mandato oficial do BoJ.

Por lei, cabe ao BoJ alcançar a estabilidade de preços e do sistema financeiro, mas não tem uma meta de crescimento de empregos como o Federal Reserve (Fed) dos EUA. Contudo, à medida que a pandemia esmaga a economia, o BOJ desvinculou suas medidas de política monetária da meta de inflação, de 2%.

“Nosso principal objetivo é nossa meta de inflação. Mas obviamente também estamos nos esforçando para alcançar crescimento econômico saudável, incluindo condições de emprego”, disse Kuroda.

No final da reunião, o BoJ manteve as taxas de juros de curto prazo em -0,1% e sinalizou taxas de longo prazo próximas de 0%.

Outros bancos centrais também estão atuando fortemente para aumentar o apoio às suas economias em dificuldades. O Fed indicou na quarta-feira que as taxas de juros ficarão próximas de zero pelo menos até 2023. Um afrouxamento prolongado pelo Fed exercerá pressão de baixa sobre o dólar, fazendo o iene subir, reduzindo a competitividade das exportações japonesas.

Hoje, o dólar fechou em ¥ 104,76 no Japão (08:00 UTC), ante ¥ 105,24 na quarta-feira. O euro caiu para ¥ 123,52, ante ¥ 124,83.

“Tendo desempenhado o papel de bombeiro como chefe de gabinete de Abe, Suga pode pressionar o BoJ se o iene subir” e prejudicar a economia dependente das exportações do Japão, disse à Reuters Ryutaro Kono, economista-chefe do BNP Paribas para o Japão.

“Mas o BoJ achará difícil cortar as taxas de juros, pois isso prejudicaria os bancos regionais e arriscaria provocar uma crise de crédito”.

No entanto, após a reunião de política monetária, o BoJ manteve as medidas de apoio ao financiamento corporativo, incluindo o fornecimento de recursos baratos para bancos que concedem empréstimos sem juros a empresas em dificuldades no âmbito de um programa governamental, e decidiu que continuará comprando títulos do governo de instituições financeiras sem estabelecer um limite e fundos negociados em bolsa a um ritmo anual de US$ 114 bilhões.

O presidente do BoJ defendeu que os programas de empréstimos de emergência "precisam ser mantidos" para garantir que as empresas obtenham o financiamento de que precisam e que os mercados financeiros permaneçam estáveis.

"Evitamos uma situação em que as empresas quebrassem devido a problemas de financiamento. Não houve um grande aumento nas falências de empresas. Os aumentos no desemprego também são limitados", disse Kuroda.

O BoJ atualizou sua avaliação da economia, dizendo que "a atividade econômica foi retomada gradualmente e está acelerando seu ritmo de crescimento", mas destacou que "os lucros corporativos e o sentimento dos negócios se deterioraram, e o investimento fixo das empresas está em uma tendência de declínio".

"A economia do Japão começou a se recuperar com a retomada gradual da atividade econômica, embora permaneça em situação grave devido ao impacto do novo coronavírus no país e no exterior", disse Kuroda.

O banco central japonês disse em julho que a economia estava em uma "situação extremamente severa".

Abenomics

Questionado sobre sua avaliação da Abenomics, Kuroda disse que a combinação de políticas foi um "grande sucesso", citando um aumento no número de empregos e uma saída da deflação que o país experimentou entre 1998 e 2013.

Embora as políticas de Abe tenham ajudado na superação da estagnação deflacionária do Japão, o histórico geral da Abenomics não é impressionante. Entre 2013 e 2019, o crescimento anual do PIB japonês foi em média de apenas 1 por cento e excedeu 2 por cento em apenas dois dos oito anos de governo Abe.

Além disso, os dados do BoJ mostram que o crescimento sob a Abenomics resultou principalmente de aumentos nos insumos de capital e trabalho, ao invés de ganhos de produtividade.

Ao contrário da visão convencional de que a economia japonesa enfrenta fortes ventos contrários devido ao envelhecimento da população e redução da força de trabalho, o número de pessoas empregadas continuou a crescer ao longo dos anos Abe, porque mais mulheres ingressaram na força de trabalho. Mas com a taxa de participação feminina na força de trabalho do Japão agora mais alta do que a dos Estados Unidos, essa tendência pode não continuar por muito mais tempo.

Para o Japão sustentar sua posição global, Suga precisará buscar uma ampla gama de reformas estruturais – reformas regulatórias e do mercado de trabalho são consideradas essenciais para aumentar o crescimento econômico do Japão.

* Com informações Nikkei, The Japan Times, Kyodo News, Reuters

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