A Fitch diz que três dos títulos elegíveis vencem em 22 de abril, com período de carência de 30 dias. Se não houver acordo nesse intervalo, a agência acredita que existe um alto risco de que esses pagamentos não sejam realizados.

Na quinta-feira (16), o Ministro da Economia da Argentina, Martín Guzmán, apresentou um plano unilateral para a reestruturação da dívida externa do país.

“Propomos alterar a estrutura de títulos para uma que envolva um período de carência de 3 anos. Nada seria pago em 2020, 2021 e 2022, uma taxa média de 0,5% seria paga em 2023 e iriam crescendo a níveis que são sustentáveis”, afirmou Guzmán, sem especificar o prazo para os novos títulos. Também propôs corte de 62% dos juros dos títulos (US$ -38 bilhões) e redução de 5,4% no valor do principal (US$ -3,6 bilhões). A nova taxa média proposta seria de 2,33%.

Guzmán, em entrevista coletiva, disse que o governo ainda não havia alcançado um "entendimento" sobre o que seria sustentável com os obrigacionistas, que teriam cerca de 20 dias a partir do lançamento formal antes do fechamento da proposta.

"Tentamos entender as preferências dos credores, [portanto] a proposta implica uma redução maior nos juros do que no capital", disse o Ministro da Economia.

"Hoje não podemos pagar nada", acrescentou.

"É isso o que a Argentina pode cumprir. Não assinamos cheques ou papéis em branco que não poderemos cumprir", disse o presidente Alberto Fernández, que foi acompanhado pela ex-presidente e atual vice-presidente e senadora Cristina Fernández de Kirchner e um grupo de governadores, bem como o prefeito da cidade de Buenos Aires, Horacio Rodríguez Laretta.

Os investidores, diante da dura proposta de reestruturação, advertiram que levará ao nono calote do país se o governo se recusar a melhorar seus termos.

Não ficou claro se a tentativa do governo argentino de evitar todas as obrigações de dívida pelos próximos três anos e reduzir os pagamentos de juros representou uma proposta final ou apenas o começo de negociações.

"Se for uma proposta de pegar ou largar, não haverá acordo", alertou um credor internacional próximo às negociações.

Sem o governo explicar como planeja pagar a dívida, que diz "insustentável", analistas dizem que não há perspectiva de acordo.

“A Argentina continua buscando o alívio máximo da dívida sem articular um plano credível de como a dívida será paga no futuro”, disse Walter Stoeppelwerth, diretor da Portfolio Personal Inversiones, de Buenos Aires.

Sebastián Brown, economista-chefe do Deutsche Bank para a América Latina, descreveu a proposta "hardball" – que incluiu uma redução drástica nas taxas de juros para uma média de apenas 2,3%, em comparação com a média atual de cerca de 6,6% – como "muito desagradável para os credores".

Jared Lou, gerente de portfólio da William Blair Investment Management, descreveu os termos como "lixo". Ele alertou contra uma repetição da experiência de reestruturação da Argentina após o não cumprimento de 2001, observando semelhanças entre a proposta de quinta-feira (16) e a proposta de 2005, o que levou a uma batalha legal amarga com os obrigacionistas que não foi resolvida até 2016.

“Se eles acham que funcionará novamente, esqueçam. Eles precisarão oferecer algo melhor que isso, especialmente se acharem que precisam de acesso ao mercado”, disse Lou.

Para Michael Hugman, gerente de portfólio da Investec Asset Management em Londres, é compreensível que o choque do coronavírus provavelmente tenha aumentado a necessidade de alívio da dívida, mas precisa ser refletido de maneira justa.

Ele compara a redução "agressiva" dos cupons aos níveis aplicados em alguns países africanos que participaram do programa de alívio da dívida dos Países Pobres Altamente Endividados (PPAE). "É difícil argumentar que a Argentina precisa do mesmo tipo de tratamento", disse.

Dadas as apostas, um investidor em mercados emergentes disse que acredita que o governo argentino "piscará".

* Com informações do Financial Times, Buenos Aires Times, MercoPress

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