"Todo o hospital, exceto os departamentos de oncologia, pediatria e hematologia, transformou-se em enfermarias da Covid", disse à Al Jazeera Rodolfo Passalacqua, diretor do departamento de oncologia do hospital Cremona. "Isso inclui especialidades importantes como cirurgia, neurocirurgia e cardiologia. Sempre que possível, tentamos contar com clínicas próximas, mas certamente há atrasos no diagnóstico e na cirurgia [para pacientes com câncer]".

Segundo Passalacqua, o hospital de Cremona costumava realizar cerca de 30 tratamentos cirúrgicos por semana em pacientes com câncer, com o objetivo de remover tumores ou uma amostra de tecido para diagnóstico, além de outros procedimentos de diagnóstico necessários antes da quimioterapia ou de outros tratamentos.

"Costumávamos tratar quatro ou cinco pacientes com câncer de estômago a cada mês, oito a dez com câncer de cólon. Não está claro o que está acontecendo com eles no momento", disse Passalacqua.

"Isso diminui as chances de recuperação. É difícil quantificar, mas nos casos em que é necessária cirurgia para tratar o câncer, atrasá-la por uma ou duas semanas faz pouca diferença, mas meses de atraso podem ser prejudiciais para o paciente".

A Lombardia é responsável por mais da metade das fatalidades causadas pelo coronavírus SARS-CoV-2 na Itália.

Saverio Cinieri, diretor interino da Associação Italiana de Oncologia Médica (AIOM), disse que sua "primeira preocupação" era com diagnóstico cirúrgico.

"Nas áreas mais sob pressão [na Itália], as salas de cirurgia tornaram-se departamentos que fornecem suporte pneumológico", disse Cinieri à Al Jazeera, acrescentando que muitos dos ventiladores usados nas salas de cirurgia foram retirados para uso dos departamentos de pneumatologia ou terapia intensiva que cuidam dos pacientes com problemas respiratórios graves.

Enquanto isso, as autoridades de saúde de toda a Europa estão aconselhando a não hospitalização de pacientes com outras doenças sempre que possível, devido ao risco de contágio em instalações médicas.

"Existem situações em que esses pacientes não recebem o mesmo nível de atendimento que normalmente receberiam, porque ir a um hospital significa que estão mais expostos ao risco de adoecer e, portanto, não é recomendado", disse Cinieri.

"Este é um problema indireto, não atribuível ao próprio coronavírus, mas à dificuldade de manter um serviço público de boa qualidade durante uma pandemia".

Cinieri estima que quando a pandemia atingir o seu pico na Itália, o sistema de saúde precisará de seis meses para se recuperar.

Aldo Pietro Maggioni, diretor da Associação Nacional de Cardiologistas de Hospitais Médicos (ANMCO) na Itália, explicou: "Na Lombardia, os hospitais estão sobrecarregados e vários leitos de terapia intensiva, geralmente dedicados a problemas cardiovasculares, foram transformados em leitos para os pacientes com COVID-19".

Maggioni ressaltou que muitos pacientes também relutam em ir ao hospital devido ao medo de infecção. "Pacientes com infarto do miocárdio (ataque cardíaco) ou insuficiência cardíaca estão retardando procurar os hospitais".

"Eles tentam evitar [ir] para a sala de emergência, superlotada por pacientes com suspeita de positividade para COVID. Dessa forma, quando eles finalmente chegam, as condições clínicas são mais graves".

’Milão não Para’

As infecções de coronavírus na Itália não atingiram ainda seu pico, disse Silvio Brusaferro, chefe do Instituto Superior de Saúde do país nesta sexta-feira (27).

As autoridades italianas afirmaram que o número de mortes ocorridas na quinta-feira foi de 919; o total de mortes atribuídas ao vírus é de 9.134 pessoas.

“Não atingimos o pico e não passamos dele”, disse Brussaferro.

"Em menos de um mês o governo italiano viu a sua preocupação mudar. Antes, o seu principal problema era como estimular a economia em meio a pandemia, agora o seu principal problema é achar um lugar para enterrar os seus mortos" Matheus Vieira

“O nosso comportamento vai influenciar em quão íngreme vai ser a queda, quando ela começar”, afirmou Brussaferro, em uma referência à aderência dos italianos às restrições ao movimento impostas pelo governo.

No dia 22 de março, durante uma entrevista à TV RAI, o Prefeito de Milão, Giuseppe Sala, afirmou que errou ao divulgar, no fim de fevereiro, um vídeo que dizia que a cidade não pode parar.

“Muitos se referem àquele vídeo que circulava com o título ’Milão não Para’. Era 27 de fevereiro, o vídeo estava explodindo nas redes, e todos o divulgaram, inclusive eu. Certo ou errado? Provavelmente, errado”, afirmou à RAI no domingo (22).

Há um mês, a maior parte das cidades italianas adotou a estratégia de isolamento social: colégios, lojas, bares foram fechados e trabalhadores ficaram em casa.

A medida de contenção foi revogada após dois dias em efeito. O Primeiro-Ministro Giuseppe Conte argumentou que o isolamento prejudicava a economia, causava caos e propagava o pânico em meio a população.

Na quarta-feira (24), Conte pediu que os países sejam rigorosos.

"Ninguém pode aceitar, muito menos a Itália, que está fazendo grandes sacrifícios para combater o vírus, que outros países não percebam a necessidade de máxima atenção preventiva", discursou Conte na Câmara dos Deputados da Itália.

* Com informações do Al Jazeera News, Matheus Vieira/Brasil247, O Globo

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