O projeto para desenvolver, fabricar e operar o avião ATL-100 (Aeronave de Transporte Leve), resulta de uma joint venture entre a brasileira DESAER – Desenvolvimento Aeronáutico, e a empresa portuguesa CEiiA – Centro de Engenharia e Desenvolvimento de Produto.

Fundada por ex-engenheiros da Embraer, a DESAER está instalada na Incubaero, uma incubadora de empresas e projetos aeronáuticos da Fundação Casimiro Montenegro Filho, em São José dos Campos (SP).

Sediado em Matosinhos, no distrito do Porto, o CEiiA é o principal centro tecnológico de Portugal, com projetos nas áreas de mobilidade, incluindo a participação no Programa KC-390 da Embraer.

Segundo o centro de engenharia português, o objetivo do projeto é “o desenvolvimento e industrialização de uma aeronave ligeira de nova geração para um mercado de curtas distâncias, multi-configurável para maior flexibilidade na logística de passageiros e mercadorias, desenhada para menores custos operacionais e maior sustentabilidade, prevendo a evolução para plataforma neutra em carbono”.

O Programa ATL-100, o primeiro programa aeronáutico completo de Portugal, prevê quatro protótipos da nova aeronave que vai ser fabricada, com voos previstos no final de 2023, disse Miguel Braga, diretor do CEiiA. A expectativa é que a primeira aeronave de série seja entregue dois anos após o voo inaugural.

As atividades em Portugal serão desenvolvidas no Parque do Alentejo de Ciência e Tecnologia, em Évora, onde o CEiiA tem escritórios, com a participação de mais de 30 empresas e universidades portuguesas e do exterior.

“Com este programa, queremos reforçar de forma definitiva aquele que é o polo aeronáutico nacional em Évora, com o desenvolvimento de um programa completo e inovador que nos permite criar um novo integrador a partir de Portugal, para a industrialização e operação de aeronaves de nova geração”, disse Miguel Braga.

O investimento global estimado é da ordem de 164 milhões de dólares, obtidos de fundos comunitários locais e de investidores estrangeiros, somados às injeções de capital da joint venture.

"Os 20 milhões de euros que temos neste momento é para a fase de desenvolvimento que vai acontecer" em Évora, onde a meta é "ter 50 engenheiros a trabalhar em permanência e dedicados em exclusivo ao desenvolvimento do Programa até ao final do ano", explicou Miguel Braga.

A localização da fábrica ainda está em estudos, estando em consideração as cidades de Beja, onde existe um aeroporto, e Ponte de Sor, que possui um aeródromo.

"É inevitável olharmos para Beja, é ainda mais inevitável olharmos para Ponte de Sor" porque "conhecemos muito bem o projeto que a Câmara de Ponte de Sor tem posto a funcionar, ao longo dos anos, em redor do seu aeródromo", afirmou Miguel Braga, ressaltando que a fábrica e a linha de montagem têm de ficar "em cima de uma pista" e com "as condições técnicas para este tipo de aeronave".

A aeronave projetada pela DESAER surge como sucessora do Bandeirante, criado nos anos 60 pela Embraer.

Dimensões de diferentes aeronaves de mesmo porte. Fonte/arte: © DESAER
Dimensões de diferentes aeronaves de mesmo porte. Fonte/arte: © DESAER 

O ATL-100 é um avião bimotor de asa alta, tradicional, empenagem convencional, estrutura semi-monocoque com seção central da fuselagem em material metálico, não pressurizado, superfícies de comando, rampa traseira, partes não estruturais em material composto, trem de pouso (triciclo fixo) reforçado, podendo operar a partir de pistas curtas e não pavimentadas.

Os motores turboélice PT6A-65B da Pratt & Whitney Canada e Catalyst da GE Aviation estão sendo considerados para propulsar a aeronave.

A DESAER também está em negociações com a Collins Aerospace e AEL Sistemas sobre o fornecimento dos componentes de aviônicos e comunicações da aeronave.

Miguel Braga posiciona o avião, que em duas horas pode ser transformado de transporte de passageiros (19) para cargueiro (2.500 kg), e vice-versa, como sendo "uma alternativa para zonas menos desenvolvidas do ponto de vista de infraestrutura, na África ou na América do Sul".

O modelo é projetado para voar à velocidade máxima de 430 km/h, com média de cruzeiro de 380 km/h, e terá uma autonomia de aproximadamente 1.600 km, ou cerca de 570 km totalmente carregado.

Facilidade de movimentação e transporte de até 3 containers LD3. © DESAER
Facilidade de movimentação e transporte de até 3 containers LD3. © DESAER

Um dos atrativos do ATL-100 é a porta traseira com uma rampa de acesso, possibilitando movimentar cargas sem apoio de equipamentos em aeroportos com pouca infraestrutura ou em pistas rústicas de propriedades rurais, por exemplo.

O preço de venda do avião é estimado em US$ 5,5 milhões.

"Estamos negociando a venda de sete aeronaves com a Avinter, empresa aérea regional do Uruguai. Há ainda o interesse de forças armadas estrangeiras. Já tivemos conversas com duas forças aéreas de países da América do Sul e uma da Europa”, disse ao Airway o sócio-fundador da DESAER Evandro Filemo.

Versão militar

A partir de 2022, a DESAER planeja desenvolver a versão militar para funções como transporte de tropas, logística, ajuda humanitária, busca e salvamento, patrulha marítima, ligação e observação, evacuação médica, vigilância e segurança de fronteiras, e operações especiais.

As configurações de transporte de tropas tem capacidade para 19 assentos normais ou para acomodar 12 paraquedistas (PQD) equipados e 2 controladores.

A partir de 2023, os modelos Embraer Bandeirante da Força Aérea Brasileira (FAB) vão começar a atingir o limite operacional e deverão ser desativados e substituídos até 2025. Até lá, se tudo correr como o planejado pela joint venture, o ATL-100 deve estar pronto para ser demonstrado à FAB.

Configurações do ATL-100 como avião de passageiros, cargueiro, ou transporte militar. Fonte/arte: © DESAER
Configurações do ATL-100 como avião de passageiros, cargueiro, ou transporte militar. Fonte/arte: © DESAER 

* Com informações da DESAER, Jornal de Negócios, Airway

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