O Ministro dos Recursos Naturais do Canadá, Jonathan Wilkinson, disse ao jornal The Globe and Mail que será concedida à Siemens uma permissão para embarcar para a Alemanha os equipamentos retidos da Gazprom.

"O Canadá concederá uma permissão de tempo limitado e revogável para a Siemens Canada permitir o retorno das turbinas Nord Stream 1 reparadas para a Alemanha, apoiando a capacidade da Europa de acessar energia confiável e acessível à medida que continua a se afastar do petróleo e gás russos", relatou o jornal canadense neste sábado (9).

O ministro observou que "sem um necessário fornecimento de gás natural, a economia alemã sofrerá dificuldades muito significativas e os próprios alemães estarão em risco de não conseguir aquecer suas casas à medida que o inverno se aproxima".

A liberação ocorre após anúncio da intercessão de Berlim junto ao governo canadense para permitir o retorno dos equipamentos.

O Ministro da Economia alemão Robert Habeck, líder dos Verdes, pediu e obteve o retorno da turbina do Canadá para a Alemanha dando sinais claros de querer enviá-la de volta para a Rússia.

"Se há um problema legal para o Canadá, peço que a turbina seja enviada não para a Rússia, mas para nós. Somos forçados a pedir com o coração pesado", disse Habeck. "Precisamos das capacidades da Nord Stream para preencher o armazenamento de gás".

O diário britânico The Guardian enfatizou que a decisão corre o risco de colocar a Ucrânia em fúria, que havia instado o governo canadense a não devolver a turbina, afirmando que tal concessão violaria a integridade das sanções contra a Rússia.

Mas a Alemanha está ameaçada de mais redução de volume de gás russo por Moscou se a turbina, que pertence à Gazprom, não for devolvida.

O gasoduto Nord Stream, que corre sob o Mar Báltico e fornece gás russo para a Europa, conecta a estação compressora de Portovaya, na Rússia, a um terminal em Greifswald, no nordeste da Alemanha, fornecendo ao mercado da União Europeia cerca de 55 bilhões de metros cúbicos de gás natural por ano.

Para a Alemanha, o Nord Stream é o principal gasoduto de abastecimento com gás russo.

O atraso no retorno pela Siemens Canada, e falhas nas bombas, levaram o Nord Stream a operar com apenas três das oito unidades de compressão de gás, limitando o fluxo a 40% da capacidade máxima das duas linhas do gasoduto russo.

O fluxo do Nord Stream será completamente interrompido durante a manutenção anual do gasoduto, entre 11 e 21 de julho, período acordado entre todas as partes e definido com grande antecedência.

"A paz social está em grande perigo"

Vonovia, o maior proprietário residencial da Alemanha, deu o passo sem precedentes de reduzir a temperatura do aquecimento central de seus inquilinos para 17ºC entre 23h e 6h, gerando economia de 8% nos custos, uma prévia do que pode acontecer no inverno na nação mais rica e avançada da Europa.

De acordo com o jornal britânico Financial Times, a Alemanha está racionando água quente e reduzindo ou desligando a iluminação dos logradouros públicos, à medida que o impacto de sua crise energética começa a se espalhar, da indústria a escritórios, de centros de lazer a residências.

Tais medidas podem se tornar rotineiras nas próximas semanas.

Helmut Dedy, chefe da Associação Alemã de Cidades, disse que a "sociedade inteira" deve agora reduzir seu consumo de energia, economizando no verão "para que tenhamos apartamentos quentes no inverno".

"Cada quilowatt-hora que economizamos ajuda a encher um pouco mais o armazenamento de gás", disse ao apelar aos conselhos municipais para que o país tome medidas emergenciais. Entre as sugestões, desligar os semáforos à noite; desligar água quente em prédios dos conselhos, museus e centros esportivos; ajustar os condicionadores de ar; e parar de iluminar prédios históricos.

Clientes residenciais também estão tomando medidas, reativando fogões a lenha e lareiras. As vendas de lenha, pelotas de madeira e carvão, bem como de botijões de gás e cartuchos, aumentaram.

"A situação é mais do que dramática", disse Axel Gedaschko, chefe da federação de empresas de habitação (GdW). "A paz social da Alemanha está em grande perigo".

Os preços da energia já aumentaram para os consumidores entre 70% e 200%, totalizando custos anuais adicionais entre 1.000 e 2.700 euros para uma pessoa e entre 3.800 e 5.000 euros para quatro pessoas, em comparação com 2021.

As despesas podem aumentar ainda mais como resultado de uma lei que tramita no parlamento alemão. A nova regra permitirá ao governo impor uma taxa emergencial a todos os consumidores de gás. Ela foi proposta para evitar que os importadores de gás se tornem insolventes, um cenário que os ministros temem que possa causar um colapso de todo o setor.

A Uniper, o maior importador de gás russo na Alemanha, já está em negociações com autoridades sobre um resgate que pode chegar a 9 bilhões de euros. O gás natural de gasoduto comprado no mercado à vista (spot) custa 2-3 vezes mais que o adquirido em contratos de longo prazo. O gás liquefeito, ao menos 10 vezes mais.

Alexey Miller, chefe da Gazprom, afirmou em 16 de junho, no painel Global Oil and Gas Market: Then and Now no Fórum Econômico Internacional de São Petersburgo, que foi uma demanda dos reguladores europeus abandonar contratos de longo prazo, que garantiam fornecimentos e preços. "É o mercado – o mercado à vista (spot) e de bolsa de valores – que colocará tudo em seu devido lugar”, defendiam.

"No que diz respeito aos instrumentos de negociação à vista e bolsa de valores, na verdade alertamos contra eles e dissemos: 'Por que fazer isso, considerando que o gás, ao contrário do petróleo, não está entre os produtos tradicionalmente negociados em bolsa?' O resultado é que todas essas plataformas spot e de negociação são ineficazes".

"Eles fizeram o que acharam necessário", disse Miller, "mas nós os avisamos. Dissemos: 'É excepcionalmente arriscado parar de usar contratos de longo prazo'".

"Por isso, se falamos de inflação e volatilidade de preços, elas decorrem das decisões que foram anunciadas e colocadas em prática. Bem, eles têm o resultado e eles têm que aceitá-lo. Eles conseguiram o que lutaram", apontou o executivo.

"E o que a inflação e a volatilidade dos preços criam? Eles criam demanda por empréstimos. Em particular, empréstimos de curto prazo. Mas isso cria a necessidade dos bancos aumentarem sua volatilidade. E já vemos que alguns bancos estrangeiros têm algumas dificuldades em conceder tais empréstimos. Talvez, depois de um tempo, eles não tenham mais essa possibilidade, considerando tanta volatilidade e choques de preços", ponderou Miller.

Atualização 10/07/2022

A Siemens disse neste domingo (10) que a decisão do Canadá de permitir que uma turbina fosse enviada de sua instalação canadense para a Alemanha foi um primeiro passo necessário para devolvê-la ao gasoduto russo, e que tem como objetivo transportá-la para o seu local de operação o mais rápido possível.

"A decisão política de exportação é um primeiro passo necessário e importante para a entrega da turbina. Atualmente, nossos especialistas estão trabalhando intensamente em todas as aprovações formais e logística", disse a Siemens Energy em comunicado. "Entre outras coisas, isso envolve procedimentos de controle de exportação e importação legalmente exigidos. Nosso objetivo é transportar a turbina para seu local de operação o mais rápido possível".

Não ficou claro quanto tempo levará para a turbina ser devolvida.

As autoridades do Canadá disseram que devolverão a turbina à Europa após reparos, tendo feito uma isenção das sanções.

Um porta-voz do governo alemão disse que a Alemanha saudou "a decisão de nossos amigos e aliados canadenses".

A decisão foi tomada após negociações com a Alemanha, que recebeu menos gás devido às sanções do Canadá contra a Gazprom.

Apesar da permissão especial para a turbina, o Canadá disse que ampliará as sanções contra o setor energético russo para incluir a fabricação industrial.

As novas sanções do Canadá "serão aplicadas ao transporte terrestre e de dutos e à fabricação de metais e equipamentos de transporte, computadores, equipamentos eletrônicos e elétricos, bem como de máquinas", disse o governo canadense em um comunicado.

O governo do Canadá também impôs sanções à agência de notícias TASS e às emissoras russas – Channel One, RT, NTV e a holding de mídia VGTRK, de acordo com regulamentos publicados no site do Ministério das Relações Exteriores canadense na sexta-feira (8). A lista inclui a diplomata Maria Zakharova, porta-voz do Ministério das Relações Exteriores da Rússia, e dezenas de jornalistas russos.

A ministra canadense das Relações Exteriores, Melanie Joly, disse no sábado (9) em um comunicado que "o Canadá está inabalável em seu apoio à soberania e integridade territorial da Ucrânia ... O Canadá não cederá em pressionar o regime russo".

A gigante russa de gás Gazprom disse em 14 de junho que havia sido forçada a cortar o fornecimento de gás planejado via Nord Stream porque a Siemens estava atrasando o retorno de uma unidade compressora de gás e falhas das bombas. A Siemens disse que era impossível devolver uma das turbinas do Nord Stream à Alemanha após reparos em Montreal por causa das sanções anti-russas do Canadá.

Como resultado, apenas três unidades foram utilizadas para bombear gás na estação compressora de Portovaya e o fluxo de gás através do gasoduto equivalia a apenas 40% de sua capacidade. Assim, o fornecimento de gás para a Alemanha reduziu drasticamente.

Atualização 11/07/2022

A decisão do Canadá de devolver uma turbina para o gasoduto Nord Stream não viola as sanções da UE contra a Rússia, disse Tim McPhie, porta-voz da Comissão Europeia (CE) para ações climáticas e energia, nesta segunda-feira (11).

O retorno da turbina não viola as sanções da UE contra a Rússia porque não cobrem os equipamentos de trânsito de gás, acrescentou.

"O regime de sanções da UE não afeta tecnologias ligadas ao transporte de gás natural", explicou.

"Tomamos nota da decisão do Canadá de devolver essa turbina à Alemanha após a manutenção que estava sendo realizada no Canadá. Então, com o retorno dessa peça uma das desculpas que estão sendo usadas pela Rússia para a redução do fluxo de gás no Nord Stream foi removida", ressaltou.

O porta-voz observou que a situação com a interrupção das entregas de gás através do gasoduto Nord Stream, a partir desta segunda-feira, é "claramente grave" e que a CE espera a retomada do fornecimento após a parada para manutenção técnica, prevista para durar 10 dias.

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