O esquerdista mexicano Andres Manuel Lopez Obrador e o presidente brasileiro de direita Jair Bolsonaro desafiam o consenso científico, subestimam riscos e ignoram os conselhos dados à população pelas autoridades de saúde.

Os dois sexagenários mostraram que governam para eleitores fiéis, avalia Sabino Bastidas, diretor da Pensar Diferente, uma consultoria política na Cidade do México.

“Os dois homens negaram o fenômeno. Ambos hesitaram em tomar decisões. Ambos desafiaram a ciência”, disse Bastidas.

Líderes globais consideram a pandemia de coronavírus (SARS-CoV-2) o maior desafio que o planeta enfrenta desde a Segunda Guerra Mundial.

Contudo, em 10 de março, em Miami, Bolsonaro rotulou a pandemia de "fantasia" exagerada pela grande imprensa.

No último fim de semana, o presidente do Brasil descreveu os esforços para acelerar a quarentena em São Paulo como "histeria". Bolsonaro argumentou que as restrições eram uma “reação exagerada” que poderia causar danos desnecessários à economia.

Bolsonaro apareceu em público usando uma máscara facial. Ao menos 24 integrantes da comitiva presidencial da última viagem aos EUA estão infectados com coronavírus.

A ausência total de medidas da "imunidade do rebanho" explicaria a total falta de preparo e planejamento do Ministério da Saúde e do Governo Doria.

Simplesmente, não existem leitos, respiradores, kits de teste, reagentes e ... médicos. Não existiria nem mesmo álcool para uso hospitalar nas unidades médicas não fosse o socorro da Unica e de um grupo de empresários.

O Ministério atualmente anda ocupado em adquirir respiradores "fusquinha" e comprar kits de teste. Fala-se também em comprar equipamentos usados de outros países e diplomar acadêmicos de Medicina antes de terminarem o curso.

O moradores de São Paulo devem agradecimentos ao Prefeito Bruno Covas por ter ignorado a "imunidade do rebanho" de David Uip, e à Promotoria de SP, por ter cobrado explicações dos governantes sobre a falta de medidas de contenção da pandemia.

O Dr. David Uip, Coordenador do Centro de Contingência do Coronavírus, notoriamente contrário à realização de testes de coronavírus, inclusive os realizados por organizações privadas, também criticava à busca de assistência médica.

"Se todo mundo que tossir e tiver febre procurar a rede pública, não tem sistema que aguenta. Nem no Brasil e nem no mundo".

Na prática, no instante em que o infectologista apresentou tosse e ligeira febre, correu para um hospital privado e fez o teste do coronavírus.

Obrador

O Presidente do México tem outra perspectiva da pandemia: a proteção divina manterá o povo mexicano seguro.

Enquanto autoridades mexicanas de saúde e aliados politícos pedem que as pessoas fiquem em casa e evitem contato físico, Lopez Obrador apertou a mão de dezenas de apoiadores no sul do México e publicou um vídeo pedindo às pessoas que continuem saindo.

“Aproveitem, levem suas famílias aos restaurantes”, movimentando a economia do país e “não se deixando levar pelos alardes extremistas”, disse. “Sigam com sua vida normal e fiquem tranquilos que o presidente dirá quando não for seguro”.

O presidente mexicano se vangloria de ter um trevo para “dar sorte” e se recusa a declarar uma quarentena.

“Eu respeito a decisão de outros países, mas não precisamos disso".

Lopez Obrador argumenta que ele deve manter o ânimo das pessoas e que suspender atividades atinge os mexicanos mais pobres, seu núcleo eleitoral. Os críticos dizem que essas são as pessoas mais expostas ao vírus.

"(Lopez Obrador) nunca vai dizer 'eu cometi um erro'. Nunca", disse Polimnia Romana Sierra, ex-assessora do presidente mexicano.

Sua autoconfiança e obstinação eram uma grande virtude quando ele estava na oposição, porque lhe permitiu derrotar o que muitos consideravam probabilidades intransponíveis de conquistar a presidência em sua terceira tentativa, disse.

Mas desafiar a ciência e invocar poderes superiores para proteger o México é "altamente irresponsável", disse Sierra.

"Porque ele é o exemplo que milhões de mexicanos seguirão", disse. “O México é um país paternalista; sempre respeitaremos o presidente".

"Testes rápidos"

Os 10 milhões de “testes rápidos”, que o governo brasileiro pretende adquirir da empresa chinesa Wondfo, só detectam a infecção após o mínimo de uma semana de sintomas, pois dependem do sistema imune do paciente para identificar o vírus, explicam infectologistas.

Desenvolvidos recentemente, esses exames começaram a ser vendidos pela China no mês passado e se popularizaram. Podem ser comprados pela Internet.

O Ministério da Saúde reconhece que ainda não houve tempo para o teste da Wondfo ser validado e certificado pela OMS, e que seus parâmetros de qualidade ainda precisam ser avaliados.

Segundo alega o fabricante chinês, a “especificidade” de seu teste é de 99,5%, o que significaria que o exame produz um resultado falso-positivo com alta margem de confiança. Porém, a “sensibilidade” do teste é de 86%, implicando em risco significativo de falso-negativo, sobretudo quando o teste é usado nos primeiros dias da doença.

Em resumo, segundo a especificação informada pelo fabricante, o kit que será comprado pelo governo por intermédio da Vale detectaria quem teve a Covid-19, a sindrome respiratória causada pelo vírus SARS-CoV-2, mas o teste não seria confiável para confirmação de diagnóstico de quem está com suspeita da doença.

O uso do kit possivelmente seria considerado inadequado pelos médicos na triagem, tratamento ou confirmação de casos da doença, mas o Ministério da Saúde não pretende testar doentes com sintomas da Covid-19 que recorrem ao SUS.

Essencialmente, os kits da Wondfo atenderão a demanda na área não-clínica.

Os kits serão destinados para monitorar profissionais de saúde isolados e para uso na rede sentinela de vigilância epidemiológica, que coleta amostras de pacientes com sintomas gripais para monitorar espalhamento de epidemias. Essa rede hoje utiliza testes genéticos do tipo RT-PCR, que são o padrão-ouro para detectar a Covid-19.

Céu de Brigadeiro

Na noite de domingo (22), o Presidente Bolsonaro mandou publicar uma Medida Provisória privilegiando o grande capital, permitindo empresas não pagarem salários aos seus empregados por 4 meses, sem nada fazer pelas micro e pequenas empresas.

Pressionado pela opinião pública e pelo Congresso, o Presidente recuou na segunda-feira, mas o Ministério da Economia avisou em seguida que uma nova MP será editada.

Como resultado, as companhias aéreas deixaram seus aviões em terra e estão "negociando" licença não remunerada com seus empregados.

Nesta terça-feira (24), as ações da Gol e da Azul chegaram a valorizar 24% durante o pregão e fecharam com ganhos de cerca de 18%, as maiores altas do Ibovespa. Até a véspera, as duas aéreas acumulavam quedas de 82% e 75% em 2020.

Na terça-feira, a Azul anunciou que mais de 7,5 mil tripulantes já tinham aderido ao programa de licença não-remunerada, representando mais da metade do total da força de trabalho da empresa, e comunicou que entre 25 de março e 30 de abril espera operar apenas 70 voos diretos por dia, redução de 90% de sua capacidade total.

"As medidas de contenção e quarentena que estão sendo implementadas em todo o País estão limitando significativamente a mobilidade de nossos clientes, tripulantes e parceiros, o que torna inviável a operação de várias rotas que servimos", disse a Azul.

Já a Gol informou que reduziu a oferta de voos em aproximadamente 92% no mercado doméstico e que vai parar de operar nos mercados internacionais entre o período de 28 de março a 3 de maio, com suspensão de todas as operações regionais e internacionais regulares.

Com os aviões em terra, a Gol diz que flexibilizou as regras e procedimentos de reserva de passagens, para que os clientes com voos cancelados entre 28 de março e 3 de maio possam remarcar suas viagens sem nenhuma cobrança de taxa.

Cabe notar que o Planalto editou uma Medida Provisória que "flexibilizou" o direito do passageiro, concedendo 12 meses para as companhias aéreas fazerem o reembolso de clientes que tiveram seus voos cancelados. A MP também adia o pagamento de tarifas aeroportuárias e beneficia concessionárias de aeroportos.

Para socorrer as empresas aéreas, o Governo Federal estaria preparando mais um pacote, da ordem de R$ 10 bilhões, informa o Poder360.

Em 2019, a Azul registrou lucro de R$ 1,2 bilhão, seguida da Latam (R$ 968 milhões) e da Gol (R$ 179 milhões).

* Com informações do The Japan Times, Agência Brasil, O Globo, Poder 360

Veja também: