"Dada a guerra em larga escala e os laços de algumas estruturas políticas com este Estado [Rússia]", as atividades dos partidos de oposição serão postas em espera "pelo período da lei marcial", anunciou o Presidente Volodymyr Zelensky neste domingo (20).

"Qualquer atividade de políticos visando a divisão e colaboração não será bem sucedida, mas, em vez disso, será enfrentada com uma resposta dura", acrescentou.

Em janeiro, o Ministério das Relações Exteriores do Reino Unido disse que Murayev era o homem que o Kremlin queria colocar no comando da Ucrânia em vez de Zelensky. No entanto, a alegação foi negada por autoridades em Moscou e pelo próprio político, que disseram que era "bobagem e estupidez".

O partido Opposition Platform – For Life disse que a suspensão foi "ilegal" e prometeu desafiá-la. "Em vez de diálogos políticos e tentativas de buscar compromisso e formas de unir o país, as autoridades estão confiando em ataques, intimidações, repressão e represálias contra seus oponentes", disse o partido, instando seus parlamentares e ativistas a continuar trabalhando.

Shariy reagiu sugerindo que Zelensky só estava realmente procurando banir dois partidos – supostamente referindo-se ao seu próprio e ao Opposition Platform – enquanto os demais só foram adicionados à lista para que o presidente pudesse evitar "críticas e zombarias" por atacar descaradamente seus oponentes.

De acordo com a agência de notícias ucraniana UNIAN, as suspensões incluiram também o Bloco de Oposição; Partido de Oposição de Esquerda; União de Esquerdistas; Derzhava; Partido Socialista Progressista da Ucrânia; Partido Socialista da Ucrânia; Socialistas; e o Bloco Volodymyr Saldo.

O ex-presidente da Rússia Dmitry Medvedev comentou sarcasticamente em rede social: "O presidente mais democrático da Ucrânia moderna deu mais um passo em direção aos ideais ocidentais da democracia", e acrescentou "ele proibiu completamente qualquer atividade dos partidos de oposição na Ucrânia".

Zelensky assinou também um decreto neste domingo para fundir todos os canais de TV nacionais em um único serviço estatal, que chamou de "política de informação unificada" – efetivamente encerrando a operação de TV privada no país e dando ao seu governo o monopólio das notícias.

Non-handshakable

Desde o início de fevereiro, o canal de TV ucraniano NASH, um dos afetados pelo novo decreto, vinha sendo piqueteado por organizações de ultranacionalistas, supremacistas brancos e neonazistas ucranianos, parte importante do apoio do governo Zelensky. Eles exigiam o fechamento do canal de TV e usaram violência para obstruir o funcionamento, agredindo jornalistas e funcionários do canal.

Em 4 de fevereiro, em uma reunião de gabinete, Zelensky instruiu os presentes a encontrar fatos ou condições para fechar o canal. Deve-se notar que a NASH não pertence a nenhum dos oligarcas ou políticos da Ucrânia. A partir de 2021, o canal passou a ser de propriedade do coletivo de trabalho.

"Os eventos em torno da NASH TV podem estar ligados a possíveis eleições parlamentares antecipadas. Afinal, no caso de seu possível fechamento, o flanco sudeste do país permanecerá sem cobertura da mídia. Isso dará ao partido governista de Zelensky, O Servo do Povo, mais chances de obter mais votos", avaliou o New Europe em 9 de fevereiro, semanas antes da intervenção militar russa na Ucrânia.

O presidente do Clube da Imprensa de Bruxelas, Colin Stevens, declarou: "Para nós, o princípio da liberdade de expressão é crucial. A prática de fechamento extrajudicial da mídia não é aceitável na Europa. Se algum recurso de informação violar a lei, deve ser comprovado em tribunal, deve haver procedimentos legais. Caso contrário, verifica-se que qualquer mídia com uma posição com a qual o governo não concorda pode ser fechada. Esse tipo de situação pode tornar Zelensky 'non-handshakable', já que ele é o fiador da Constituição. E o direito à liberdade de expressão é um dos direitos cruciais em qualquer constituição europeia".

Colin Stevens parece ter esquecido o passado recente.

Em fevereiro de 2021, Zelensky ordenou o bloqueio dos ativos e de canais de TV e de mídia, proibiu o uso de radiofrequências dentro da Ucrânia e determinou o término de serviços de retransmissão de oito empresas de comunicação que faziam oposição ao seu governo.

Na capital, foram fechadas as estações ZIK, NewsOne e 112 Ucrânia de propriedade de Taras Kozak, parlamentar do Opposition Platform – For Life. Os três veículos emitiram uma declaração conjunta descrevendo as proibições como um "acerto de contas com a imprensa inconveniente". Kozak ainda foi nomeado em um apêndice do decreto, com seus ativos, operações de negociação e transferência de direitos autorais bloqueados por cinco anos.

As emissoras tiveram suas licenças revogadas e ficaram proibidas de voltar ao ar também por cinco anos. O produtor-geral da 112 Ucrânia, Artem Marchevsky, disse que os canais sustentavam "cerca de 1.500 empregos" e que as sanções foram aplicadas "sem qualquer decisão judicial, qualquer investigação, sem qualquer razão convincente".

O chefe da União Ucraniana de Jornalistas, Nikolay Tomilenko, disse: "A privação de acesso à mídia ucraniana para uma audiência de milhões sem um tribunal ... é um ataque à liberdade de expressão."

A porta-voz de Zelenskiy, Iulia Mendel, disse: "Esses meios de comunicação se tornaram uma das ferramentas de guerra contra a Ucrânia, por isso estão bloqueados para proteger a segurança nacional".

Após o fechamento dos canais de TV, nenhuma das acusações foi provada.

A estatal alemã de notícias Deutsche Welle na época chamou Zelensky de "satirista que virou presidente".

Como presidente, o ator e comediante celebridade regrediu para fantoche do governo americano e refém de organizações extremistas armadas diretamente pela OTAN, a mesma estratégia que no passado produziu as facções mais perigosas do Oriente Médio.

"Após a eleição de Zelenskyy em 2019, a extrema direita o ameaçou de afastamento do cargo, ou mesmo de morte, se ele negociasse com líderes separatistas de Donbas e seguisse o Protocolo de Minsk. Zelenskyy havia concorrido à eleição como um "candidato à paz", mas sob ameaça, ele se recusou a sequer falar com os líderes de Donbas, a quem ele descartou como terroristas", relata o site Salon em Are there really neo-Nazis fighting for Ukraine?

Quando setores da imprensa mencionam a "coragem" ucraniana no enfrentamento aos militares russos, o crédito deve-se menos ao exército regular do país e mais aos altamente treinados batalhões extremistas e milícias, que atraem fanáticos neonazistas e ultranacionalistas, inclusive do exterior, em busca de uma Ucrânia apenas de brancos e sem imigrantes, ironicamente o oposto dos objetivos declarados da União Europeia.

O documentário Ukraine on Fire (2016), de Igor Lopatonok, que contou com a participação de Oliver Stone, fornece uma perspectiva histórica para as divisões profundas na região.

"Coberto pela mídia ocidental como uma revolução popular, foi na verdade um golpe de estado roteirizado e encenado por grupos nacionalistas e pelo Departamento de Estado dos EUA. O jornalista investigativo Robert Parry revela como ONGs políticas e empresas de mídia financiadas pelos EUA surgiram desde os anos 80 substituindo a CIA na promoção da agenda geopolítica da América no exterior", descreve o IMDB.

Instrutor da OTAN ensina militares de regimento neonazista ucranianio a utilizar armamento anti-tanque NLAW (Next Generation Light Anti-tank Weapon) recebido do Reino Unido
Instrutor da OTAN ensina militares de regimento neonazista ucranianio a utilizar armamento anti-tanque NLAW (Next Generation Light Anti-tank Weapon) recebido do Reino Unido

Atualização 16/04/2022

"Um dos jornalistas mais proeminentes da Polônia, Konstanty Gebert, disse que está deixando o que muitos consideram como o jornal de registro do país depois que exigiu que Gebert descrevesse o controverso Batalhão Azov da Ucrânia como 'extrema-direita' em vez de 'neonazista'", escreveu neste sábado (16) Glenn Greenwald.

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