O plano do Vice-Chanceler e Ministro dos Assuntos Econômicos e Proteção Climática da Alemanha, Robert Habeck (Verdes), de importar gás natural liquefeito (LNG) para garantir um fornecimento de energia estável ao país no próximo inverno está à beira do fracasso. A principal razão, conforme noticiado nesta terça-feira (5) pelo jornal alemão Bild, é a falta de petroleiros para o transporte de LNG.

Habeck declara repetidamente que o governo federal está trabalhando para reduzir a dependência do fornecimento de energia russa e que já teve algum progresso.

Uma das opções para substituir o gás russo é o fornecimento de LNG.

Como observa o jornal, a Agência Federal de Rede, o regulador da Alemanha, espera que no primeiro semestre de 2023 as importações de LNG cheguem a 13 bilhões de metros cúbicos para substituir parcialmente o gás natural da Rússia.

No entanto, devido à escassez de petroleiros para transportar GNL, este plano está à beira do colapso. A Alemanha terá que disputar não apenas o LNG, mas também o número limitado de navios tanque, com outras nações da própria Europa e com os países asiáticos, que pagam muito mais pelo gás liquefeito.

"Não há transportadores de LNG na frota mercante alemã que possam transportar LNG a longas distâncias. No total, quase 500 petroleiros de LNG estão disponíveis em todo o mundo, mas a demanda de outras regiões é alta", disse Martin Kröger, da Shipowners' Association, ao Bild.

Por sua vez, Andreas Fischer, especialista do Instituto de Economia Alemã (IW), ressaltou que "os volumes de gás liquefeito devem estar disponíveis no mercado mundial, e para isso precisamos de petroleiros apropriados, a maioria dos quais já estão vinculados a contratos de longo prazo". "Além disso, apenas um dos três terminais planejados foi aprovado até agora", acrescentou.

O Ministério da Economia alemão admitiu que "a frequência e o número de petroleiros que transportarão o LNG para os terminais não podem ser quantificados atualmente", relatou o Bild.

No sábado (2), em entrevista ao jornal Welt am Sonntag, Habeck expressou a esperança de que dois terminais flutuantes para receber gás natural liquefeito sejam usados na Alemanha até o final deste ano. No total, o governo alemão pretende usar quatro terminais flutuantes de LNG.

A estratégia verde, primeiro a gente sinaliza virtude e briga com a Rússia – e a energia a gente vê depois, está gerando uma preocupação crescente, em todos os setores da sociedade alemã, de que o país enfrentará o inverno em meio a uma gigantesca crise de gás, e as indústrias poderão ser destruídas no processo.

"A estratégia de LNG do Ministro Habeck falhou e não será capaz de substituir a quantidade de gás que precisaremos no próximo inverno em um futuro previsível. É por isso que temos que fazer tudo o que pudermos para encher as instalações de armazenamento de gás rapidamente", disse Thorsten Frei (CDU). Ele pede que as usinas a carvão sejam reiniciadas imediatamente, a fim de bombear todas as quantidades de gás disponíveis para os tanques de armazenamento.

O líder do grupo regional do CSU, Alexander Dobrindt, defende um novo modelo de preços para os cidadãos em resposta ao aumento dos preços do gás.

"Precisamos urgentemente de um preço base fixo para o gás de uso doméstico como um escudo de proteção eficaz contra a nova explosão de preços. Sem o preço base, muitas famílias na Alemanha não poderão mais pagar o aumento dos preços do gás nos próximos meses", Dobrindt disse ao Bild.

O Ministro dos Assuntos Econômicos de Brandemburgo, Jörg Steinbach (SPD), considera "quase certo" que Putin não voltará a operar o gasoduto Nord Stream após a manutenção.

O Senador Jens Kerstan, Autoridade para o Meio Ambiente, Clima, Energia e Agricultura do Estado de Hamburgo, levantou a possibilidade de limitar a água quente para as famílias. "No caso de uma escassez emergencial de gás natural, a água quente só poderá ficar disponível em determinadas horas do dia", disse Kerstan ao Welt. Uma redução geral da temperatura ambiente máxima nos domicílios também poderá ser considerada, disse o senador, acrescentando que, em caso de escassez de gás natural, não seria possível distinguir entre clientes comerciais ou domésticos em Hamburgo. "Estamos em uma crise muito pior do que a maioria das pessoas pensa", disse Kerstan.

O Primeiro-Ministro da Baviera, Markus Söder (CSU), fala em "racionamento total de gás" e alerta para uma iminente "triagem de gás" – em uma emergência, o governo deve decidir quem recebe o gás disponível.

Sob o plano de emergência do país, a indústria seria a primeira opção para cortes de oferta. A mudança poderia devastar a economia e levar à perda de empregos, disseram líderes empresariais e sindicatos alemães.

"Indústrias inteiras correm o risco de entrar em colapso permanentemente por causa dos gargalos do gás: alumínio, vidro, indústria química", disse Yasmin Fahimi, chefe da Federação Alemã de Sindicatos, ao Bild. "Tal colapso teria consequências maciças para toda a economia e empregos na Alemanha", enfatizou.

A indústria química, que emprega 346.000 pessoas, é a terceira maior indústria da Alemanha, de acordo com a Germany Trade & Invest, agência de promoção de investimentos do país.

Comércio exterior

As importações alemãs superaram as exportações pela primeira vez desde 1991, gerando um déficit comercial de 1 bilhão de euros em maio.

As exportações caíram 0,5%, enquanto as importações subiram 2,7%, para mais de 125 bilhões de euros.

A atividade no setor manufatureiro da Alemanha foi esfriada por empresas que lutam para garantir recursos devido às pressões globais da cadeia de suprimentos.

As fábricas do país também dependem fortemente da energia da Rússia para gerar produção, o que significa que fluxos mais fracos de petróleo e gás prejudicaram a produção, pesando sobre as exportações alemãs.

Economistas alertaram que a economia da zona euro entrará em recessão se a Rússia cortar todos os fluxos de energia.

Atualização 07/07/2022

"A guerra na Ucrânia está privando países em desenvolvimento de eletricidade, já que o fornecimento mundial de gás natural liquefeito usado para produzir energia é engolido pelas nações europeias como uma alternativa ao gás russo". Wall Street Journal.

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