Eminente imunologista, o Dr. Anthony Fauci é referido por setores da imprensa americana como o 'especialista nacional' em resposta à pandemia, apesar de sua limitada experiência em epidemiologia e saúde pública. Reprodução © 2020 CBS News
Eminente imunologista, o Dr. Anthony Fauci é referido por setores da imprensa americana como o 'especialista nacional' em resposta à pandemia, apesar de sua limitada experiência em epidemiologia e saúde pública. Reprodução © 2020 CBS News

Em 1º de fevereiro de 2020, quando confrontado com as primeiras evidências de que o vírus da pandemia pode ter se originado no Wuhan Lab, financiado pelo governo americano por meio da EcoHealth Alliance, de Daszak, Fauci organizou uma teleconferência, aparentemente para discutir como suprimir essa informação perigosa, já que a trilha levava direto a eles.

Em 19 de fevereiro de 2020, Daszak, Farrar e outros publicaram um manifesto na The Lancet, Statement in support of the scientists, public health professionals, and medical professionals of China combatting COVID-19, dizendo que “Nos unimos para condenar veementemente as teorias da conspiração, sugerindo que COVID-19 não tem uma origem natural”.

A declaração causou um efeito silenciador no debate científico mais amplo, inclusive entre os jornalistas especializados.

A carta foi usada para suprimir e censurar a hipótese de vazamento do laboratório chinês na imprensa e nas redes sociais por mais de um ano. Não havia, e continua não existindo, nenhuma evidência para as alegações do manifesto, assinado em grande parte por cientistas associados a projetos financiados por Fauci através de Daszak.

Em 5 de julho de 2021, nova correspondência publicada na The Lancet, intitulada Science, not speculation, is essential to determine how SARS-CoV-2 reached humans”, dos mesmos autores, recapitulou os argumentos anteriores.

O novo manifesto não repetiu a proposição de que os cientistas abertos a hipóteses alternativas eram teóricos da conspiração, mas afirmou: "Acreditamos que a pista mais forte de evidências novas, confiáveis e revisadas por pares na literatura científica é que o vírus evoluiu na natureza, enquanto as sugestões de uma fonte de vazamento de laboratório da pandemia permanecem sem evidências cientificamente validadas”.

Na verdade, esse argumento pode ser literalmente revertido. Não há suporte direto para a origem natural do SARS-CoV-2, e um acidente laboratorial é plausível.

Documentos obtidos pelo The Intercept contêm evidências de que os chineses Wuhan Institute of Virology e Wuhan University Center for Animal Experiment, junto com a organização sem fins lucrativos de Daszak, se envolveram no que o governo dos EUA define como “ganho de função”, intencionalmente tornando os vírus mais patogênicos ou transmissíveis a fim de estudá-los.

O dinheiro para o experimento controverso veio do Instituto Nacional de Alergia e Doenças Infecciosas do National Institutes of Health (NIH), que é chefiado por Anthony Fauci. A subvenção para a EcoHealth Alliance, que estuda a propagação de vírus de animais para humanos, incluiu subprogramas do Instituto de Virologia de Wuhan.

O experimento levanta questões sobre as afirmações de Fauci e do diretor do NIH, Francis Collins, de que os projetos financiados pelo NIH no Wuhan Institute of Virology não envolviam pesquisa de ganho de função.

Em maio deste ano, Fauci testemunhou perante o Congresso.

“O NIH nunca financiou e não financia pesquisas de ganho de função no Instituto de Virologia de Wuhan”, disse.

Os especialistas agora dizem que os documentos apóiam a alegação de que o NIH financiou o trabalho de ganho de função.

No artigo An appeal for an objective, open, and transparent scientific debate about the origin of SARS-CoV-2, publicado na semana passada na The Lancet, Jacques van Helden, da Universidade Aix-Marseille na França, Richard Ebright, da americana Rutgers University, e 14 outros cientistas criticaram as argumentações dos apologistas de Fauci, consideradas falaciosas ou não científicas.

"Até o momento, não há evidências cientificamente validadas que apóiem diretamente uma origem natural. Entre as referências citadas nas duas cartas de Calisher e colegas, todas, exceto uma, simplesmente mostram que o SARS-CoV-2 está filogeneticamente relacionado a outros betacoronavírus. O fato de que o agente causador do COVID-19 descende de um vírus natural é amplamente aceito, mas isso não explica como ele infectou humanos. A questão da origem proximal do SARS-CoV-2 – ou seja, o vírus e hospedeiro final antes da passagem para os humanos – foi expressamente abordada em apenas um artigo de opinião altamente citado, que apóia a hipótese da origem natural, mas sofre de uma falácia: ele se opõe a duas hipóteses – engenharia de laboratório versus zoonose – implicando erroneamente que não há outros cenários possíveis", diz o artigo.

"Embora evidências consideráveis apóiem as origens naturais de outros surtos (por exemplo, Nipah, MERS e o surto de SARS de 2002–04), faltam evidências diretas de uma origem natural para o SARS-CoV-2. Após 19 meses de investigações, o progenitor proximal do SARS-CoV-2 ainda está ausente. Nem a via do hospedeiro de morcegos para humanos, nem a rota geográfica de Yunnan (onde os vírus mais intimamente relacionados ao SARS-CoV-2 foram amostrados) para Wuhan (onde a pandemia surgiu) foram identificados. Mais de 80.000 amostras coletadas em sítios de vida selvagem e fazendas de animais chineses foram todas negativas. Além disso, a comunidade internacional de pesquisa não tem acesso aos sites, amostras ou dados brutos", escreveram os pesquisadores.

"O N.I.H. irá criar painéis de especialistas para avaliar pesquisas controversas sobre a criação de patógenos que infectam humanos com facilidade", noticiou o New York Times em dezembro de 2017. Experimentos para tornar vírus mais mortais receberam financiamento depois que a proibição federal de produzir vírus letais foi suspensa.
"O N.I.H. irá criar painéis de especialistas para avaliar pesquisas controversas sobre a criação de patógenos que infectam humanos com facilidade", noticiou o New York Times em dezembro de 2017. Experimentos para tornar vírus mais mortais receberam financiamento do governo americano depois que a proibição federal de produzir vírus letais foi revogada.

A origem do vazamento de laboratório da pandemia é "plausível", defendem os autores: "Algumas características incomuns da sequência do genoma SARS-CoV-2 sugerem que podem ter resultado de engenharia genética".

"Com base na literatura científica atual, complementada por nossas próprias análises de genomas e proteínas de coronavírus, sustentamos que não há atualmente nenhuma evidência convincente para escolher entre uma origem natural (ou seja, um vírus que evoluiu e foi transmitido aos humanos apenas por contato com animais selvagens ou de criação) e uma origem relacionada à pesquisa (que pode ter ocorrido na amostragem local, durante o transporte ou dentro do laboratório e podem ter envolvido vírus naturais, selecionados ou projetados)".

"Uma avaliação baseada em evidências, independente e livre de preconceitos exigirá uma consulta internacional de especialistas de alto nível, sem conflitos de interesse, de várias disciplinas e países; o mandato será estabelecer os diferentes cenários, e as hipóteses associadas, e então propor protocolos, métodos e dados necessários para elucidar a questão da origem do SARS-CoV-2. Além dessa questão, é importante continuar debatendo sobre o equilíbrio risco-benefício das práticas atuais de pesquisa de campo e de laboratório, incluindo experimentos de ganho de função, bem como as atividades humanas que contribuem para eventos zoonóticos".

Embora o estudo conjunto da China e Organização Mundial de Saúde (OMS) sugira que a origem do laboratório é "extremamente improvável", o Diretor-Geral da OMS, Tedros Adhanom Ghebreyesus, declarou que todas as hipóteses permanecem na mesa, incluindo a de um vazamento de laboratório.

Ebright e seus colegas disseram ainda que os co-conspiradores de Fauci colocaram a "unidade" e sua agenda política acima da avaliação crítica e da Ciência.

"As revistas científicas devem abrir suas colunas para análises aprofundadas de todas as hipóteses. Como cientistas, precisamos avaliar todas as hipóteses de forma racional e pesar sua probabilidade com base em fatos e evidências, sem especulações sobre possíveis impactos políticos", defende o artigo. "Ao contrário da primeira carta publicada na The Lancet por Calisher e colegas, não achamos que os cientistas devam promover a 'unidade'".

"As hipóteses relacionadas à pesquisa não são desinformação e conjectura.

Mais importante ainda, a ciência abraça hipóteses alternativas, argumentos contraditórios, verificação, refutabilidade e controvérsia.

Ao se afastar desse princípio corre-se o risco de estabelecer dogmas, abandonar a essência da ciência e, pior ainda, abrir caminho para teorias conspiratórias.

Em vez disso, a comunidade científica deve levar este debate para um lugar onde ele pertence: as colunas das revistas científicas", conclui o artigo.

A hipótese de vírus produzido em laboratório (via The Intercept )

Um experimento com camundongos humanizados se encaixa na meta geral da subvenção de US$ 3,1 milhões, intitulada “Entendendo o risco do surgimento do coronavírus de morcego” e objetivou prevenir uma pandemia ao prever as circunstâncias em que um coronavírus de morcego poderia evoluir para infectar humanos. Os pesquisadores adotaram uma abordagem ambiciosa em três frentes: triagem de pessoas com alta exposição à vida selvagem, modelagem matemática e experimentos de laboratório com vírus. Peter Daszak, o presidente da EcoHealth Alliance, trabalhou em estreita colaboração com cientistas na China durante anos, e cerca de US$ 750.000 do subsídio foram alocados para o Instituto de Virologia de Wuhan. Um adicional de quase US$ 300.000 foi para a East China Normal University, onde os pesquisadores fizeram amostragem de campo.

Em um artigo de 2005, a equipe de Daszak mostrou que o primeiro vírus SARS se originou em morcegos. A síndrome respiratória do Oriente Médio, ou MERS, é causada por um coronavírus que surgiu em 2012 e também se acredita ser proveniente de morcegos, que agora são o principal alvo dos virologistas que tentam entender e combater doenças emergentes. Daszak há muito afirma que sua pesquisa é crítica para prevenir surtos.

Mas a pesquisa sobre os vírus de morcego em Wuhan mostrou que infectar animais vivos com vírus alterados pode ter consequências imprevisíveis. Um relatório ao NIH sobre o progresso do projeto no ano que terminou em maio de 2018 descreveu cientistas criando novos coronavírus alterando partes e expondo camundongos geneticamente modificados aos novos vírus quiméricos. Pesquisa publicada em 2017 na revista PLOS Pathogen mostrou que, em células de laboratório, vírus quiméricos semelhantes se reproduziam de forma menos eficaz do que o original. O NIH citou essa pesquisa como uma das razões pelas quais a moratória sobre a pesquisa de ganho de função não se aplica a este experimento.

Dentro dos pulmões dos camundongos humanizados, no entanto, os novos vírus parecem ter se reproduzido muito mais rapidamente do que o vírus original que foi usado para criá-los, de acordo com um gráfico incluído nos documentos. A carga viral no tecido pulmonar dos camundongos foi, em certos pontos, até 10.000 vezes maior nos camundongos infectados com os vírus alterados.

Os documentos sugerem ainda que pelo menos um dos vírus alterados não apenas melhorou a reprodução viral, mas também fez com que os ratos humanizados perdessem mais peso do que aqueles expostos ao vírus original – uma medida da gravidade da doença.

A prática de fazer vírus quiméricos para estudar como eles poderiam se tornar mais contagiosos já estava sob escrutínio muito antes da pandemia. Os defensores da pesquisa de ganho de função argumentavam que ela pode ajudar os virologistas a entender e se defender melhor contra surtos naturais. Mas os críticos alertavam que eles eram excessivamente perigosos.

Em outubro de 2014, o governo americano impôs uma moratória sobre o financiamento de pesquisas de ganho de função sobre patógenos pandêmicos em potencial que poderiam ser "razoavelmente antecipados" para levar à disseminação em humanos, conforme descrito em uma orientação de 2017 do Departamento de Saúde e Serviços Humanos . Em dezembro de 2017, a moratória foi suspensa e substituída por novas diretrizes para a supervisão da pesquisa usando patógenos pandêmicos em potencial. O experimento com camundongos humanizados foi realizado entre junho de 2017 e maio de 2018.

A subvenção foi renovada por um período de cinco anos em 2019, embora a administração Trump tenha suspendido o financiamento em abril de 2020, em meio à pandemia e crescentes preocupações com a origem do vírus.

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