O estudo Lidar reveals pre-Hispanic low-density urbanism in the Bolivian Amazon, publicado na revista Nature nesta quarta-feira (25), revela ruínas de assentamentos urbanos nativos de baixa densidade na Amazônia boliviana que datam de 1.500 a 600 anos atrás. As estruturas incluem construções cônicas de terra batida de 22 metros de altura, redes de fortificações, estradas, canais e reservatórios.

Para obter uma visão de conjunto das modificações feitas pelos povos do passado no território, os pesquisadores empregaram tecnologia LiDAR, que permite a criação de mapas em três dimensões de terrenos com a presença de árvores.

Foi realizado mapeamento aéreo a laser para seis áreas (10-85 km2) que têm concentrações conhecidas de grandes assentamentos, totalizando 204 km2.

Cerca de metade dos sítios eram desconhecidos aos arqueólogos, e demonstram a presença de uma sociedade complexa na região amazônica pré-colombiana. Segundo os autores da pesquisa, a descoberta derruba os argumentos de que a Amazônia ocidental era escassamente povoada antes da chegada dos europeus.

A área cultural de Casarabe, pelo que se sabe hoje, abrangia 4.500 km2, com um dos grandes assentamentos controlando uma área de 500 km2.

Dois dos sítios arqueológicos tem o tamanho de cidades, batizados de Cotoca (147 hectares) e Landívar (315) pelos pesquisadores.

Esses dois grandes assentamentos já eram conhecidos, mas seu tamanho massivo e elaboração arquitetônica tornaram-se evidentes apenas através da pesquisa.

Ambos têm um centro ritualístico ou governamental, identificado por terraços de até seis metros de altura e cones de terra batida construídas sobre eles.

Ao redor, há três estruturas defensivas concêntricas, com fossos escavados e muralhas de terra batida, algumas de parede dupla.

"No sítio Cotoca, as estruturas defensivas internas só são preservadas em algumas seções, o que pode sugerir que, quando o local cresceu, as muralhas foram adaptadas em conformidade", escrevem os pesquisadores.

Ruínas de "Cotoca" no rastreamento LiDAR. O espaço social e público, segundo os especialistas, é comparável ao das culturas andinas mais conhecidas, como os incas. Imagem: @ Prümers et al/Nature
Ruínas de "Cotoca" no rastreamento LiDAR. O espaço social e público, segundo os especialistas, é comparável ao das culturas andinas mais conhecidas, como os incas. Imagem: @ Prümers et al/Nature

"Esses centros são o produto de um processo longo. Tal como Roma, não foram feitos num só dia", compara Heiko Prümers, pesquisador do Instituto Arqueológico Alemão e coordenador do estudo. "Os três ‘anéis’ de estrutura defensivas no sítio de Cotoca, por exemplo, indicam um remodelamento constante e adaptações causadas por uma população em crescimento".

Diversos estudos anteriores já indicavam que a população pré-colombiana da região adotava sistemas sofisticados de manejo do território, como campos elevados artificiais onde podiam plantar mesmo durante as cheias, canais para regularizar a distribuição de água – um canal de 7 km trazia água de Laguna San José para Cotoca, além de rampas e estradas que facilitavam o deslocamento na estação chuvosa.

Os Llanos de Mojos são formados, em sua maioria, por um tipo de savana periodicamente inundada, embora também possua porções de floresta mais densa.

Os Casarabes, especula-se, aproveitavam as cheias sazonais para o cultivo do campo enquanto caçavam e pescavam. Estima-se que esse povo tenha movido cerca de 570.000 metros cúbicos de terra para construir Cotoca, dez vezes mais do que o povo Tiwanaku moveu para a pirâmide de Akapana, maior estrutura encontrada nas terras altas bolivianas.

“Propomos que o sistema de assentamento da cultura Casarabe é uma forma singular de urbanismo agrário tropical de baixa densidade – até onde sabemos, o primeiro caso conhecido para toda a planície tropical da América do Sul”, afirmam os pesquisadores.  "A extensão espacial da dispersão de assentamentos se compara favoravelmente às culturas andinas e são de uma escala muito além dos assentamentos sofisticados e interconectados do sul da Amazônia, que carecem de arquitetura cívico-cerimonial monumental".

No contexto da Amazônia, há áreas como o Alto Xingu e a Ilha de Marajó que também contam com estruturais monumentais, desde estradas e fortificações até plataformas artificiais que abrigavam assentamentos em épocas de cheia.

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