"Há alterações neuropsiquiátricas em pessoas infectadas ou que tenham estado infectadas decorrentes do efeito direto do vírus SARS-CoV-2 no sistema nervoso central, ou através da ativação de uma resposta imunológica intensa", explicou a especialista à agência Lusa.

Nos jovens está a assistir-se a sentimentos de "insegurança, medo, tensão, não apenas em relação à pandemia, mas também pelas crises econômicas que se sucedem", destacou Maria João Heitor.

"Há impacto nos estilos de vida, no bem-estar, nos sonhos, e na aspiração para o futuro. Há um 'gap' crescente entre os ricos e os pobres, e uma classe média a empobrecer com o desemprego e o lay-off. Isto é demolidor para as famílias, nas quais alguns jovens estão inseridos, e para a coesão social", declarou.

Situações semelhantes foram observadas pelo psiquiatra Ciro Oliveira, do Centro Hospitalar Psiquiátrico de Lisboa, que assistiu, em quase dois anos de pandemia, ao aumento dos níveis de ansiedade e de depressão ligados ao isolamento.

"O próprio medo causa essa ansiedade e estas situações também podem levar alguns doentes a ter mais uso de substâncias como álcool ou outras drogas".

Ciro Oliveira ressalta o aumento do pensamento autodestrutivo sobretudo nos doentes com patologia mental prévia, mas também em pessoas que perderam a atividade econômica na sua empresa e estavam em situação de fragilidade econômica por causa da pandemia.

Observou-se também nos idosos com quadros demenciais já instalados uma deterioração mais rápida do que aconteceria numa situação normal, devido ao isolamento, ao afastamento de família, à falta de estímulo cognitivo e físico, enquanto outras pessoas desenvolveram precocemente um quadro demencial.

Os psiquiatras defenderam a necessidade de medidas para mitigar as consequências da pandemia, no âmbito da promoção e proteção da saúde mental.

Para Maria João Heitor, essas medidas passam por hábitos e estilos de vida saudáveis e por haver mais informação, sensibilização e literacia em saúde mental, para que as pessoas consigam identificar quando estão em sofrimento psicológico mais prolongado e intenso e procurem ajuda médica no início dos sintomas.

Ciro Oliveira disse que os governos devem investir em campanhas de prevenção e em políticas que sejam "favoráveis a que as pessoas vivam mais apaziguadas, pelo menos" e defendeu ações preventivas de psicoeducação para os adolescentes em que se possam identificar jovens que estão em risco elevado de desenvolver uma doença mental.

* Com informações da Lusa

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