Quando instituições do G7 e de Bruxelas efetivamente confiscam reservas pertencentes a um banco central independente, elas levam outras nações a ponderar a possibilidade de que poderão ser as próximas.

"É provável que alguns países reconsiderem o quanto possuem em certas moedas em suas reservas", disse Gita Gopinath à Foreign Policy.

Embora a Rússia acuse o Ocidente de tentar criar incumprimento das obrigações (default) sobre os títulos soberanos russos denominados em moeda estrangeira, impedindo o acesso a reservas do Banco Central da Federação Russa em euros e dólares, Gopinath apontou que as sanções impostas ao longo do último mês efetivamente cortaram os laços da Rússia com o sistema financeiro global, e a falha em pagar obrigações de títulos da dívida pública russa, ainda que de natureza técnica, provavelmente removerá o país do sistema por anos.

"Quando você está inadimplente, a reentrada no mercado não é fácil. E isso pode levar muito tempo", acrescentou a executiva do FMI.

Crise de confiança

Em 16 de março, o presidente russo Vladimir Putin fez um discurso no qual esboçou seu plano econômico em frente. Uma parte desse discurso imediatamente começou a circular nas redes sociais.

"O congelamento ilegítimo de algumas das reservas cambiais do Banco da Rússia marca o fim da confiabilidade dos chamados ativos de primeira classe. Na verdade, os EUA e a UE não cumpriram suas obrigações com a Rússia. Agora todos sabem que as reservas financeiras podem ser simplesmente roubadas. E muitos países no futuro imediato podem começar — tenho certeza de que é isso que acontecerá — a converter seus ativos de papel e digital em reservas reais de matérias-primas, terras, alimentos, ouro e outros ativos reais, o que só resultará em mais escassez nesses mercados", disse Putin.

Philip Pilkington avalia na American Affairs que "Embora os formuladores de políticas possam inicialmente ter rejeitado o discurso, os círculos financeiros já vinham discutindo precisamente este ponto há alguns dias. As moedas de reserva, como todas as moedas, dependem de seu valor na confiança. Um detentor de uma moeda de reserva deve estar confiante de que o ativo não será simplesmente apreendido. Se um banco central acha que o país emissor da moeda de reserva pode simplesmente confiscá-la — especialmente em um momento em que ela é mais necessária — então seria imprudente manter essa moeda de reserva se houver alternativas. Confiscar reservas é um exercício trivial em termos técnicos, pois as reservas de moeda estrangeira são mantidas em uma conta no banco central do país emissor".

"Ao congelar as reservas internacionais da Rússia, os Estados Unidos, o Reino Unido e a União Europeia sinalizaram ao mundo que o acesso de outros países às suas reservas em dólares, libras e euros depende de sua abordagem à política externa". O mundo prestará atenção a esse desenvolvimento, especialmente a China, "que registra há muito tempo grandes superávits comerciais com os países ocidentais e acumulou enormes quantidades de reservas em moedas estrangeiras", aponta o especialista em macroeconomia no artigo The End of Dollar Hegemony?

"Com a UE, o Reino Unido e o Canadá se juntando ao esforço dos EUA, suas moedas também serão menos atraentes. E há outros obstáculos (pelo menos de curto prazo) à desdolarização. A questão não é sugerir que o completo abandono das reservas em dólar está no horizonte, nem está acontecendo da noite para o dia. Mesmo um grau moderado de maior diversificação do dólar ao longo do tempo, no entanto, ainda pode ter um impacto significativo", escreve Philip Pilkington.

"Os americanos usaram o status hegemônico do dólar para viver além de suas posses. O status de moeda de reserva do dólar sustenta seu valor, embora por muitas décadas os Estados Unidos tenham incorrido em enormes déficits comerciais com o resto do mundo. As importações baratas que os consumidores americanos compram, especialmente da China, seriam dispendiosas se não fosse o status de moeda de reserva do dólar americano", acrescenta Pilkington.

Fragmentação

O FMI já está vendo uma "fragmentação crescente" nos sistemas globais de pagamentos, alinhando-se a outras instituições destacando essa tendência.

O Goldman Sachs divulgou uma nota alertando que o crepúsculo da hegemonia global do dólar americano poder estar próximo, citando como evidência a possibilidade da Arábia Saudita aceitar o yuan chinês para compras de petróleo.

Nesta quinta-feira (24), foi relatado que a Rússia e o Irã estão trabalhando em um sistema global de mensagens financeiras que poderia atuar como uma alternativa ao SWIFT (Society for Worldwide Interbank Financial Telecommunication), uma cooperativa belga que presta serviços relacionados à execução de transações financeiras e pagamentos entre bancos em todo o mundo.

Por sua vez, o Banco da Rússia vem reduzindo suas reservas de ativos em dólares desde a anexação da Crimeia em 2014.

O movimento de diversificação de reservas tem sido observado também em nações latino-americanas. No entanto, os ativos denominados em yuan da carteira do Banco Central do Brasil (BCB), representam talvez 5% das reservas internacionais brasileiras, que somaram US$ 358,4 bilhões em janeiro de 2022.

Apesar do crescimento de ativos denominados em yuan na carteira do BCB, representam talvez 5% da reservas internacionais do Brasil, que somaram US$ 358,4 bilhões em janeiro de 2022.
Apesar do crescimento de ativos denominados em yuan na carteira do BCB, representam talvez 5% das reservas internacionais do Brasil, que somaram US$ 358,4 bilhões em janeiro de 2022.

Atualização 04/04/2022

Os Estados Unidos aumentaram suas compras de petróleo russo em 43% entre 19 e 25 de março, de acordo com dados da Administração de Informações sobre Energia (EIA). Apesar da proibição da Casa Branca de importações de energia da Rússia, os EUA continuam a comprar até 100.000 barris de petróleo russo por dia.

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