A comissão da Eurásia, que une as zonas aduaneiras da Rússia, maior exportador de trigo do mundo, e do Cazaquistão, decidiu restringir as exportações de sementes de girassol, arroz e centeio até 30 de junho.

A Rússia é também o segundo maior produtor mundial de sementes de girassol, depois da Ucrânia, com a Turquia como principal comprador.

O Cazaquistão já havia interrompido as exportações de outros alimentos básicos, como trigo sarraceno, cebola, açúcar e batata, antes da ação desta semana para cortar os embarques de farinha de trigo.  A proibição de exportação do Cazaquistão foi particularmente mal considerada porque a nação produz muito mais farinha do que pode consumir.

Os contratos futuros de trigo em Chicago, referência mundial, subiram mais de 8% em março à medida que os consumidores estocam farinha. Os custos do pão têm uma longa história de agitação e instabilidade política. Durante o pico de preços de alimentos de 2007-2008, ocorreram conflitos violentos em 48 países.

Na Ásia, preocupa-se em garantir que haja arroz suficiente para todos, o principal alimento para bilhões de pessoas na região.

O Vietnã, o terceiro maior exportador de arroz do mundo, suspendeu temporariamente novos contratos de exportação para proteger o abastecimento interno em meio à seca no Delta do Mekong, enquanto Mianmar também prevê que poderá cortar as exportações para evitar escassez.

Filipinas, o maior mercado do Vietnã, planeja comprar 300.000 toneladas de arroz, possivelmente da Índia e Paquistão, em um programa de suficiência alimentar de US$ 600 milhões.

A China, com 1,4 bilhão de pessoas para alimentar e onde o arroz é central na política de alimentos há séculos, aumentou os preços de aquisição e se comprometeu a comprar um valor recorde da colheita de 2020.

Seria o começo de uma onda de nacionalismo alimentar que interromperá ainda mais as cadeias de suprimentos e os fluxos comerciais?

Durante o pico de 2006-08, esse comportamento foi responsável por 45% do aumento dos preços do arroz e quase um terço do trigo, de acordo com um estudo publicado pelo Banco Mundial.

Evolução do preço do arroz na bolsa de mercadorias de Chicago. Fonte: Investing.com
Evolução do preço do arroz na bolsa de mercadorias de Chicago. Fonte: Investing.com

"Os países estão operando com muita cautela", disse David Dawe, da Food and Agriculture Organization (FAO). "Eles só querem ter certeza de que têm estoque suficientes".

A realidade é que não há escassez

Os armazéns da Índia, o maior exportador mundial, estão repletos de arroz e trigo em colheitas recordes. A Tailândia, o segundo maior exportador, tem arroz para cumprir sua meta de exportação, mesmo depois de sofrer a pior seca em décadas.

A produção global de arroz é estimada em um recorde de 500 milhões de toneladas em 2019-20 e os estoques globais estão em uma alta histórica de mais de 180 milhões de toneladas, de acordo com o Departamento de Agricultura dos EUA.

O preço do arroz branco tailandês atingiu o maior valor desde 2013. Fonte: Associação dos Exportadores de Arroz da Tailândia
Os preços do arroz branco tailandês, uma referência asiática de exportação, atingiram US$ 510 a tonelada em março, o maior desde 2013, devido à seca e ao aumento de compras dos importadores, mas desde então caíram para US$ 502. Fonte: Associação dos Exportadores de Arroz da Tailândia

Gargalos

Embora o suprimento de alimentos seja amplo, os obstáculos logísticos estão dificultando a obtenção de produtos onde eles precisam estar, pois a pandemia está desencadeando medidas sem precedentes, compras de pânico, e a ameaça de interrupções trabalhistas.

Problemas de transporte transpacífico dificultaram as exportações dos EUA para a China  –  na China, os produtores lutam mesmo dentro do país. É um problema que pode se repetir facilmente em outros países. Os comerciantes de café já alertam para interrupções: isolamentos no Brasil, El Salvador e Colômbia, e estivadores ausentes, estão impulsionando a volatilidade.

Os consumidores em todo o mundo ainda estão estocando suas despensas –  e as consequências econômicas do vírus estão apenas começando. O espectro de mais restrições comerciais mostra como o protecionismo pode acabar causando mais mal do que bem.

"Você poderá ter racionamento, controle de preços, e acumulação de estoques domésticos", disse à Bloomberg Ann Berg, consultora do setor agrícola.

No final, sempre que há uma disrupção por qualquer motivo, Berg disse, "são os países com moedas fracas que mais se machucam".

Desabastecimento em BH

O presidente Jair Bolsonaro voltou a usar rede social para atacar governadores e prefeitos que adotaram medidas de isolamento. Ele publicou um vídeo denúncia onde estandes da Ceasa de Belo Horizonte, em Minas Gerais, estão vazios.

Bolsonaro postou que "não é um desentendimento entre o presidente e alguns governadores e prefeitos", são "fatos que devem ser mostrados". E acrescenta que "depois da destruição, não interessa mostrar culpados".

Nesta quarta-feira (1), o repórter da rádio CBN Pedro Bohnenberger esteve na Ceasa de BH e documentou com fotos e depoimentos que a central está plenamente abastecida. Segundo os produtores, as atividades estão normais e não existe risco de falta de produtos. A direção ressaltou ainda que não há risco de desabastecimento na cidade, nem no estado, pelo contrário: há produtos em excesso por causa da baixa procura em meio à pandemia.

* Com dados e informações da Bloomberg, Investing.com, RIA, Peterson Institute for International Economics, CBN

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