"Os membros da OTAN estão debatendo a melhor forma de expressar preocupação com a possível cooperação chinesa com a Rússia em uma declaração conjunta após uma reunião extraordinária na quinta-feira (24), em meio a temores de que o apoio militar e financeiro de Pequim possa revigorar a ofensiva de Moscou na Ucrânia", escreve o diário japonês Nikkei nesta terça-feira (22).

O jornal ouviu de um diplomata europeu com conhecimento direto do assunto que "o comunicado conjunto mencionará preocupações sobre o potencial apoio militar da China à Rússia". Estão em andamento conversações se o documento incluirá consequências de tais ações, disse o diplomata.

Espera-se que a versão final do comunicado envie uma "mensagem muito clara" destinada a dissuadir a China de qualquer nível de cooperação com as ações russas na Ucrânia.

Se Pequim pretende cooperar com Moscou, "precisamos enviar uma mensagem muito clara e educada à China de que é um erro" e que isso "prejudicaria nosso relacionamento", disse Deividas Matulionis, representante permanente da Lituânia na OTAN, ao Nikkei na segunda-feira (21). "É realista que haverá alguma cobertura na declaração [conjunta dos líderes da OTAN]", acrescentou.

"Não há discordância" dentro do bloco militar sobre essa questão, "porque um agressor é um agressor, e quem apoia um agressor se torna cúmplice do agressor", disse Matulionis.

Washington, em particular, está alarmada com a perspectiva de Pequim dar apoio militar a Moscou e está procurando pressionar a China a manter distância.

Em uma chamada de vídeo na sexta-feira (18), o presidente dos EUA Joe Biden alertou o presidente chinês Xi Jinping de que Pequim enfrentará consequências caso opte por ajudar Moscou, sugerindo a possibilidade de sanções, mas Xi não ofereceu compromissos.

Na semana passada, Pequim rejeitou veementemente as recentes acusações dos Estados Unidos, chamando-as de infundadas "difamações". O Ministério das Relações Exteriores chinês advertiu que a China retaliará eventuais sanções.

"Pedimos aos EUA que não prejudiquem os direitos e interesses legítimos da China ao lidar com suas relações com a Rússia", enfatizou o porta-voz do ministério Zhao Lijian.

Zhao foi perguntado se a China teme as sanções dos EUA em meio a acusações de que está apoiando silenciosamente a intervenção militar da Rússia na Ucrânia:

"O lado chinês expressou repetidamente sua posição em relação às sanções. Pequim desencoraja o uso de sanções para resolver problemas e se opõe a sanções unilaterais que não têm fundamentos legais internacionais", disse Zhao.

Na segunda-feira, o Secretário de Estado Antony Blinken anunciou mais restrições de vistos a funcionários chineses relacionadas a acusações anteriores de que as autoridades estaduais estão supervisionando a limpeza étnica dos uigures, aumentando as tensões diplomáticas em curso com a China.

"Desafios sistêmicos"

Um comunicado conjunto emitido após reunião ordinária da cúpula da OTAN em junho do ano passado, sugeriu que o bloco militar considera a China um rival de longo prazo, dizendo que suas "ambições declaradas e comportamento assertivo apresentam desafios sistêmicos à ordem internacional baseada em regras e às áreas relevantes para a segurança da Aliança".

O aprofundamento da relação de Pequim com a Rússia pode torná-la uma ameaça à segurança a curto prazo também.

Se Washington tomar medidas contra Pequim, a ampla cooperação será a chave para o sucesso. Mas isso pode ser difícil de alcançar, pois muitos países europeus e asiáticos têm laços econômicos estreitos com a China.

Os EUA podem acabar se auto-isolando

Para os americanos que assistem notícias de TV, sem dúvida parece que o mundo inteiro se uniu por trás de uma campanha de justiça moral liderada pelos Estados Unidos contra os russos.

Em grande parte do mundo real, as coisas parecem um pouco diferentes.

Quando se trata do grau de isolamento da Rússia, as narrativas do país ter sido "cortado" não encontram suporte na realidade. De fato, muitos dos maiores países do mundo demonstraram relutância em participar dos regimes de sanções dos Estados Unidos e, em vez disso, adotaram uma abordagem muito mais comedida.

Enquanto a China, a Índia e outros grandes Estados continuarem a ser pelo menos parcialmente simpáticos em relação a Moscou, eles fornecerão um grande mercado para os recursos naturais da Rússia e suas outras exportações.

Notícias da saída em massa da Rússia de conhecidas multinacionais também contém um certo exagero. Por exemplo, com 62 mil funcionários e 847 lanchonetes, a Rússia se destaca como um dos principais mercados do McDonald’s – o país gera para a companhia 9% do seu faturamento global. A empresa decidiu que continuará a pagar o salário de seus funcionários locais, mesmo com os estabelecimentos temporariamente fechados. Além disso, entidades sociais ligadas à McDonald’s continuarão a funcionar no país. Estima-se que a rede perderá US$ 50 milhões a cada mês que sua operação russa permanecer fechada.

Por sua vez, a Nestlé, o maior grupo de alimentos do mundo, anunciou que continuará pagando seus 7.000 funcionários na Rússia e fornecendo itens básicos de nutrição e higiene, assim como a PepsiCo, Unilever e Procter & Gamble.

A maioria das empresas europeias preferiram manter silêncio sobre seus planos. Bancos como o italiano UniCredit e o francês Rosbank permanecem no país, "comprometidos com... clientes" e "funcionários" durante a gestão e "limitação de riscos". Transferências internacionais ainda são possíveis em euros, beneficiando a miríade de expatriados e empresas russas com interesses no exterior.

A grande questão é como Washington responderá aos países que se recusam a aplicar sanções. Se os EUA se contentarem em "enviar uma mensagem" e ficar por isso mesmo, então terão pouco com o que se preocupar em termos de manter boas relações com parceiros comerciais e geopolíticos. Mesmo as relações com a China continuariam em grande parte normais. Mas está ficando bastante claro que a quase totalidade dos regimes mundiais não planeja voluntariamente isolar a Rússia. Isso significa que se os Estados Unidos querem realmente excluir os russos do mercado global, Washington terá que ameaçar e coagir regimes que não estão seguindo os caprichos do governo Biden.

Atualização 04/04/2022

Os Estados Unidos aumentaram suas compras de petróleo russo em 43% entre 19 e 25 de março, de acordo com dados da Administração de Informações sobre Energia (EIA). Apesar da proibição da Casa Branca de importações de energia da Rússia, os EUA continuam a comprar até 100.000 barris de petróleo russo por dia.

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