Assim que o SARS-CoV-2, o vírus da Covid-19, começou a se espalhar pelo planeta no início deste ano, as advertências sobre o impacto da doença na África eram graves. A Organização Mundial da Saúde (OMS) previu dez milhões de casos em seis meses, com a perspectiva de cadáveres empilhados nos corredores dos hospitais africanos.

Os países do continente correram para seguir o exemplo de nações ricas, como Itália e Espanha, que estavam visivelmente lutando para lidar com a pandemia. Muitos cerraram suas fronteiras, fecharam empresas e confinaram cidadãos.

As autoridades de Uganda, nação de 43 milhões de habitantes – metade com menos de 16 anos de idade, foram alertadas da possibilidade de ocorrer 70 mil fatalidades causadas pelo vírus se houvesse falha na ação governamental.

O governo de Uganda respondeu com firmeza, suspendendo o transporte público, fechando escolas e lojas, proibindo reuniões e impondo toque de recolher.

Houve 44 mortes confirmadas por coronavírus.

As ações foram elogiadas por entidades globais de saúde.

Contudo, um número crescente de médicos, economistas e cientistas temem que essas medidas tenham consequências desastrosas. Eles alertam para a destruição da economia, a espiral de epidemias de outras doenças, a intensificação das desigualdades e o retrocesso de décadas da batalha contra a pobreza extrema.

A África é um continente de pessoas jovens, com idade média de 18 anos – em comparação com 41 anos na Europa – e poucos habitantes idosos de maior risco.

Quase um em cada cinco (20%) britânicos tem 65 anos ou mais; na África, é menos de um em 50 (2%).

No entanto, o efeito do confinamento e da suspensão das atividades econômicas é muito pior na África do que nas nações desenvolvidas e mais ricas.

David Bell, um especialista em malária que trabalhou com a OMS, está entre as pessoas preocupadas com a possibilidade de estar testemunhando uma catástrofe se desenrolando no continente.

“Parece que as autoridades de saúde globais não pensaram nos danos colaterais, mas conhecíamos em março os níveis de mortalidade desse vírus relacionados à idade", disse Bell.

"Se você olhar para a Itália ou a China, são os idosos que estão morrendo. Nas nações em desenvolvimento, muitas pessoas vivem dia a dia, portanto, mesmo pequenas interrupções podem ser devastadoras para vidas, enquanto já existem grandes epidemias de malária, tuberculose e HIV que só vão piorar se você reduzir o acesso e os cuidados de saúde por alguns meses”, alertou Bell.

“O medo é que mais pessoas morrerão de outras doenças”, disse Agnes Kiragga, chefe de estatísticas do Instituto de Doenças Infecciosas de Kampala e coautora do artigo. “Esta tem sido uma curva de aprendizado. Os governos na África devem considerar não apenas a Covid, mas outras doenças que são mais perigosas em uma população jovem”.

Crianças estão perdendo imunizações críticas e existe um aumento de suicídios em meio a uma crise econômica. Muitas pessoas vivem em condições de superlotação e sem serviços básicos, que tornam o distanciamento social impossível, havendo denúncias de violência por parte dos encarregados do cumprimento do lockdown.

Malawi está entre o punhado de países africanos que não impôs tais medidas rígidas depois que sua resposta à pandemia foi enredada na política eleitoral.

A modelagem preditiva alertou que o Malawi não decretar lockdown levaria a 16 milhões de infecções, 483 mil hospitalizações e 50 mil mortes no país de 19 milhões de habitantes. Sem lockdown, ocorreram apenas 176 mortes até agora.

Enquanto os médicos admitem que um número significativo de mortes pode não ter sido registrado, especialmente nas áreas rurais, há poucos pacientes com coronavírus nas unidades de emergência dos hospitais.

“Não vimos muitos casos e as razões permanecem desconhecidas”, disse Marah Chibwana, membro do Grupo de Pesquisa em Imunologia Viral do Programa de Pesquisa Clínica Malawi Liverpool Wellcome Trust.

Chibwana realizou um levantamento em Blantyre que apontou que um em cada oito profissionais de saúde teve Covid-19, destacando essa discrepância entre as mortes previstas e reais relatadas. “É um mistério que, apesar de não termos entrado em lockdown, tivemos um baixo número de fatalidades”.

A juventude da população pode ser um fator. Outra hipótese sob investigação pelas autoridades do país é que a exposição anterior a um coronavírus, como os responsáveis por resfriados comuns, pode ter desenvolvido imunidade ao Covid-19. Significaria que as próprias condições esperadas para alimentar enormes fatalidades – acomodações apertadas, áreas urbanas superlotadas e lavabos comunitários – podem de fato ajudar a proteger os lugares mais pobres nos países em desenvolvimento.

Lynda Iroulo, pesquisadora nigeriana do Instituto Alemão de Estudos Globais e de Área, acredita que as nações africanas cometeram o erro de imitar as medidas ocidentais sem considerar as condições locais.

"Nas nações ocidentais, os lockdowns eram mais viáveis porque a infraestrutura existe e o bem-estar social está disponível".

Uma série de estudos está começando a mostrar os danos colaterais em um continente onde países e famílias estão sendo empurrados para o limite e onde mais de oito em cada dez pessoas são autônomas, muitas sobrevivendo com rendimentos marginais como vendedores ambulantes ou diaristas.

A ONU previu que a África poderá ter adicionais 30 milhões de pessoas na pobreza. Um estudo do International Growth Center sugere que 9% da população do continente cairá na pobreza extrema à medida que as poupanças são drenadas.

“O contexto é muito diferente da Europa, porque as pessoas ficam privadas de alimentos”, disse o co-autor Matthieu Teachout.

A discussão sobre o lockdown na África é um microcosmo do debate global sobre como equilibrar o manejo de uma nova doença mortal com questões mais amplas de saúde, econômicas e sociais. Mas é multiplicado muitas vezes, uma vez que as fatalidades são muito mais baixas do que nas nações desenvolvidas, enquanto o impacto é muito mais profundo.

Fome

Em julho, o Unicef (United Nations Children's Fund) alertou que, embora seja "muito cedo para avaliar o impacto total dos lockdowns e outras medidas de contenção", as restrições podem levar à fome 132 milhões de pessoas em todo o mundo.

Sanghamitra Acharya, professora do Centro de Medicina Social e Saúde Comunitária da Universidade Jawaharlal Nehru, em New Delhi, disse que o lockdown foi especialmente devastador para os indianos de baixa renda e autônomos, especialmente os de castas mais baixas, a maioria ganhando a vida com o setor informal e desorganizado, que constitui mais de 75% da força de trabalho da Índia.

“Os lockdowns são a política errada não apenas para a África, mas para quase todos os países de baixa renda”, disse Charles Robertson, economista-chefe da Renaissance Capital.

* Baseado no artigo Africa’s catastrophic Covid response de Ian Birrell/UnHerd

* Com informações do South China Morning Post

David Bell, Kristian Schultz Hansen, Agnes N. Kiragga, Andrew Kambugu, John Kissa, Anthony K. Mbonye. Predicting the Impact of COVID-19 and the Potential Impact of the Public Health Response on Disease Burden in Uganda
The American Journal of Tropical Medicine and Hygiene, Volume 103, Issue 3, 2 Sep 2020, p. 1191 - 1197
DOI: https://doi.org/10.4269/ajtmh.20-0546

Matthieu Teachout and Céline Zipfel. The economic impact of COVID-19 lockdowns in subSaharan Africa
May 2020 International Growth Centre

Timothy Roberton, Emily D Carter, Victoria B Chou, Angela R Stegmuller, Bianca D Jackson, Yvonne Tam et al. Early estimates of the indirect effects of the COVID-19 pandemic on maternal and child mortality in low-income and middle-income countries: a modelling study
The Lancet, Volume 8, Issue 7, E901-E908, July 01, 2020
DOI:https://doi.org/10.1016/S2214-109X(20)30229-1

Sherrard-Smith, E., Hogan, A.B., Hamlet, A. et al. The potential public health consequences of COVID-19 on malaria in Africa
Nature Medicine 26, 1411–1416 (2020)
DOI:https://doi.org/10.1038/s41591-020-1025-y

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